Vodafone Mexefest: Os destaques dia 1

Vodafone Mexefest: Os destaques dia 1

2016-11-25, Vodafone Mexefest
Pedro Miranda
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O primeiro dia de Mexefest pautou-se por horários apertados e prazeres intensos – ainda que curtos – para os festivaleiros.

Com mais um início de Inverno, mais uma edição do Vodafone Mexefest surgiu batendo à porta dos lisboetas. Outro cenário não seria conceptível, dado o tão óbvio esplendor das salas, diversidade de oferta e peso de cartaz proporcionado pelo festival ano após ano. E por entre alguma chuva, muito chocolate quente e não menos caminhadas pela Avenida da Liberdade à mistura, o evento iniciou-se em excelente nota, com um primeiro dia recheado de experiências tão eclécticas quanto recompensantes.

À cabeça, somos recebidos por esplendor intimista dificilmente igualável. Um dos primeiros actos a subir aos palcos do Mexefest, Lula Pena foi graciosidade e competência no comando da incrivelmente bela Sociedade Geográfica de Lisboa. Começando com um sucinto “bem-vindos e boa viagem”, que já tornou hábito, foi encadeando canção atrás de canção no seu jeito semi-improvisacional perante uma plateia tão maravilhada quanto silenciosa, demonstrando, a cada passo do caminho, as suas afinadas capacidades performativas e inusitada técnica à guitarra acústica. Um pequeno momento de beleza comovente, seguido de outro de qualidades inteiramente distintas: no piso zero do Cinema São Jorge, Acid Acid encapsulava psicose e alheamento na sua performance recheada de sintetizadores paisagísticos, guitarras semi-delapidadas e a pouco convencional participação da flauta transversal. Embora por vezes inconsequente, o espectáculo do radialista Tiago Castro ilustrava a disparidade estética de que se serve, em todos os momentos, um dos festivais mais caricatos do país. Paralelamente, no Palácio Foz, Filipe Sambado vestiu-se e maquilhou-se a rigor para nos trazer o seu mui temperado disco “Vida Salgada”. Falou-se de montanhas, sal e algodão doce ao som de uma das revelações do ano na cena musical portuguesa. Com um acompanhamento de luxo, o músico da Spring Toast ainda teve tempo para nos dar um cheirinho do que está para vir no novo álbum.

Após um aquecimento recheado chegava a hora de ir espreitar a sala novidade desta edição: o Cine-Teatro Capitólio. A abrir as hostes tivemos dois titãs do hip hop tuga. Por um lado, Nerve mostrou-nos o seu trabalho regado a conhaque,com rimas cortantes envoltas em samples inspirados na obra de Viegas ou Mário Branco. No outro canto tivemos o privilégio de assistir à imponência do “Justiceiro”, Mike El Nite. Aos dois juntaram-se nomes como Capicua ou L-Ali.

Com a progressão da noite, dirigimos-nos ao Teatro Tivoli para testemunhar o espectáculo de Bruno Pernadas e sua banda, em mais uma apresentação de “Those who throw objects at the crocodiles will be asked to retrieve them”, o seu fulminante segundo disco. E foi com toda a naturalidade que a cor vibrante e virtuosismo de “Crocodiles” passaram na íntegra para a plateia do Tivoli, constantemente presenteada com momentos dignos de contemplação e apreço. Nos destaques de mérito do registo de 2016 (“Spaceway 70”, “Problem Number 6”, “Valley in the Ocean”) imiscuíam-se outros do álbum de estreia do compositor (“Ahhhh”, “How Would it Be?”, “Première”), numa mescla de jazz e art rock de complexidade e mérito ímpares em Portugal. Uma excelente escolha para os que nele apostaram, que dificilmente terão saído da mítica sala desapontados.

Novamente no Palácio da Foz chegava hora de Luís Severo nos mostrar a sua “Cara d`Anjo” que tanto gostamos. A sua sensibilidade pop e o efeito de single de que recheou quase todas as músicas do álbum criaram o ambiente acolhedor que se pede a um Mexefest. O destaque vai para o momento intimista ao piano no tema “Santo António” e para a participação de Filipe Sambado e Primeira Dama na música que dá o título ao disco.

Ao palco do Teatro Tivoli juntava-se mais tarde uma elite de artistas com um bonito propósito: homenagear a obra da cantora Dina. Desde a frenética versão de “Deixa Lá” com B Fachada  a mostrar-nos a sua enorme versatilidade a “Tu Sem Mim” na melodiosa voz de Márcia, houve Dinamite para todos os gostos. O espectáculo terminou com a versão minimalista de “Amor d`Água Fresca” na braguesa de Fachada e com o colectivo inteiro a cantar de novo a canção que dá nome ao espectáculo.

Perto das 23h, mais um pequeno deleite para o público do Mexefest: uma das mais cotadas artistas a vir a Lisboa no fim de semana, e discutivelmente a grande cabeça-de-cartaz da noite, Céu trouxe um pedaço do novo tropicalismo às terras lusas. Com ritmo digno do Brasil de que é oriunda, e especial ouvido para a inventividade, a cantora era irrepreensível como frontwoman de uma banda igualmente capaz, que canalizava a estética electrónica do novo século para uma nostalgia que reverenciava com perícia os clássicos da MPB. Encheu a sala Manoel de Oliveira de aplausos e rendeu quem a foi assistir com um carisma mais que contagiante. O dia, infelizmente, acabaria com um sabor amargo, ou não ficasse o psicadelismo de Jagwar Ma tão abaixo da expectativa criada. A sala não terá contribuído: tudo indicou que o magnânimo Coliseu dos Recreios era demasiado ostentoso para o ainda pequeno espectáculo dos australianos. Como se não bastasse, um som deficiente, falta de dinâmica e performance excessivamente ensaiada contribuíram para um concerto irreversivelmente aquém, mesmo que dele tenham feito parte os grandes êxitos de “Howlin’”.

Por Pedro Miranda e Bernardo Carreiras

VÊ AQUI OS DESTAQUES DE DIA 2.