War On Drugs, onirismo tecido por 6 cordas

War On Drugs, onirismo tecido por 6 cordas

2014-07-12, Passeio Marítimo de Algés, Lisboa
Nero
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Os War On Drugs transformaram o palco Heineken num refúgio paradisíaco. Adam Granduciel não toca apenas guitarra, extravasa misticismo e nos fez caminhar nas nuvens.

Adam Granduciel sobe ao palco para mostrar “Lost In The Dream” e, tal como sucede sempre com os sonhos, a materialização leva o seu tempo a surgir. Há problemas de som, que se vão estender durante a actuação (que o diga o saxofonista). Mas quando “An Ocean In Between The Waves” começa a soar, simples ao início, em crescendo de intensidade (como sucede com o grosso dos temas de War On Drugs), o fascínio por um dos álbuns do ano apodera-se de todo o espaço Heineken.

A guitarra é a chave hermenêutica do concerto. O objecto de fascínio. Adam Granduciel é, por estes dias, como um mágico para um público, que cresce cada vez mais em redor do palco, atento, embalado por um misticismo que julgava perdido: que as seis cordas são o instrumento de tecelagem dos melhores momentos na história da música moderna, o mais marcante, o mais bonito, o mais fascinante… haja mãos e melodias. Deixou a mística Firebird de ’65 em casa (falará dela exclusivamente na entrevista que teve connosco), mas a poderosa e suave Les Paul Deluxe tem aquele som meloso que deu toda a reputação aos modelos. Com essa Cherry Red Burst, Granduciel conduz o concerto da mesma forma que se comem cerejas.

Seguimos Adam Granduciel como as crianças seguiram o flautista, na lenda de Hamelin.

Através de “Red Eyes”, “Burning” ou “Under Pressure” seguimos Granduciel como as crianças seguiram o flautista, na lenda de Hamelin. A única coisa que nos chama, recorrentemente, à realidade é a bateria de Charlie Hall – se o som de guitarra e as linhas melódicas nos levam a caminhar nas nuvens, o metodismos e racionalismo das baterias despertam-nos para aquele estado em que “sabemos” que estamos a sonhar. A prestação do baterista nunca nos desperta realmente. Todas as suas acções são suaves. Tudo isto é mais impressionante se pensarmos que “Lost In The Dream” foi um álbum reescrito e rearranjado várias vezes, que foi escrito durante um período de imensa turbulência emocional e mental de Granduciel.

É impossível, a quem viu o concerto, não ficar a sensação de que tudo foi excessivamente curto, de que, mesmo com os momentos de improviso que surgem amiúde, esticando os temas, tudo terminou bastante depressa. É assim que sucede com os sonhos…