Irreverente, desbocada e com um vozeirão invulgar para a sua idade biológica, Cyndi Lauper estreou-se em Portugal com uma lição de empoderamento feminino. Numa viagem saudosista aos anos 80 a artista demonstrou o porquê do seu álbum de estreia se chamar “She’s So Unusual” (1983).
Quando em 1983, Cyndi Lauper deu-se a conhecer ao mundo com a sua carreira a solo, a artista já apresentava algum traquejo no mundo da música proveniente da sua passagem pelo grupo de power pop Blue Angel. Dona de uma personalidade extravagante, Cyndi dificilmente teria espaço na banda para expressar toda a sua criatividade musical e visual. Ainda assim, sempre mostrou uma postura de lealdade para com os seus colegas. Mas, com a separação dos membros dos Blue Angel, devido ao fracasso de seu único álbum de estúdio, surgiu então uma oportunidade para Lauper lançar-se a solo. Enquanto trabalhava em empregos mundanos, a artista foi estabelecendo o seu nome em espaços como o El Sombrero e o Malibu Shore Club até que conheceu David Wolff, o manager que a levou a assinar pela Portrait Records, uma subsidiária da Epic Records.
Para dar asas à visão musical, assente numa sonoridade meio new wave meio art pop, a artista trabalhou com nomes como Rick Chertoff, Robert Hazard e Rob Hyman para cunhar clássicos como “Girls Just Want to Have Fun”, “Time After Time” e “She Bop”. Mas, para uma artista arrojada como é Cyndi Lauper, não bastava a música, era necessário criar uma linguagem visual que fosse ao encontro dessa sua forma de estar e de ser. A combinação de cores garridas no cabelo e na indumentária, aliada a uma combinação de acessórios e maquilhagem berrante rapidamente a posicionaram como um dos grandes nomes da estética punk dos anos 80.
Passados 43 anos, parece que nada mudou, com Cyndi Lauper a subir ao Palco Mundo do Rock in Rio Lisboa com uma penteado assente numa crista azul e uma indumentária com padrões tartan que nos remete para as criações de Vivienne Westwood, uma das estilistas favoritas de Lauper.
Passados 43 anos, parece que nada mudou, com Cyndi Lauper a subir ao Palco Mundo do Rock in Rio Lisboa com uma penteado assente numa crista azul e uma indumentária com padrões tartan que nos remete para as criações de Vivienne Westwood, uma das estilistas favoritas de Lauper.
Com uma banda composta maioritariamente por mulheres – apenas um elemento do coro é masculino – Lauper iniciou o concerto com a provocatória “She Bop”. Ao longe enquanto ainda nos encaminhávamos para o Palco Mundo não havia como enganar, a “Rainha do Quirky Pop” estava mesmo no Parque Tejo e com uma voz que, além de manter o seu timbre sui generis , pouco mostrava sinais da passagem do tempo. Já no nosso campo de visão, também pudemos comprovar a sua agilidade ao nível dos movimentos. Do alto dos seus 73 anos, Lauper mostrou-se numa excelente forma física e nunca hesitou percorrer a passadeira do palco por diversas vezes.
Previamente, já se sabia que o concerto que Cyndi iria trazer a Lisboa seria uma viagem musical até aos saudosos anos 80, porém muitos certamente não esperavam que essa viagem também se fosse estender ao cinema. Com “The Goonies ‘R’ Good Enough” fomos transportados para um dos maiores clássicos do cinema de culto. As melodias sintetizadas assim como as percussões ecoaram pelo Parque Tejo, revelando uma sonoridade nostálgica e reconfortante. Afinal de contas, nem tudo o que é datado é mau.
Em “When You Were Mine”, Lauper mostrou como uma cover pode por vezes sobrepor-se ao original. Neste caso, Cyndi deu à composição de Prince um arranjo menos corrido e com uma camada de sintetizadores mais vincada. O resultado? Um tema que ganha uma segunda vida nos concertos de Lauper e que honra o legado de um dos maiores artistas do séc. XX. Mais tarde, Cyndi voltaria a sacar a cartada da cover, mas desta vez com a sua versão de “Money Changes Everything” dos The Brains. Aqui o destaque foi, para além de Lauper, que mostrou-se bastante confortável nas notas mais agudas, para o solo de melódica, esse aerofone tão peculiar que sempre que aparece dá uma textura muito interessante à música. Com uma banda tão talentosa, houve dois elementos que claramente se destacaram: a guitarrista Alex Nolan, que mostrou por diversas vezes uma veia de shredder na sua Ibanez RG, fazendo até lembrar Jennifer Batten, a guitarrista que acompanhou Michael Jackson durante uma década e ainda a baterista Giulliana Merello que, apesar de estar grávida de seis meses, não comprometeu uma única vez sua performance.
Entre os seus apartes jocosos, Cyndi não perdeu a oportunidade de ir presenteando os fãs com alguns apontamentos em português e aproveitando o facto da seleção portuguesa jogar mais tarde a artista fez questão de levantar uma camisola com o nome e o número de Cristiano Ronaldo para uma grande ovação.
«Vocês são uma comunidade de luz independentemente do quão escuro ficar», disse antes de “Time After Time” na sua veia mais humana após pedir aos fãs para ligarem as luzes dos telemóveis. A emotividade manteve-se em “True Colors”, um dos temas que a grande maioria do público aguardava para ouvir e que motivou um enorme coro no seu refrão. Já a fechar, Cyndi voltou a espalhar uma mensagem de esperança para o mundo conturbado em que vivemos. Em mais um piscar de olho à moda, a artista decidiu dedicar o tema “Girls Just Want to Have Fun” à artista plástica japonesa Yayoi Kusama, ao equipar toda a sua banda com gabardines brancas com as icónicas bolinhas vermelhas que tão bem caracterizam a identidade artística da nipónica. Sem que Lauper tivesse que pedir alguma coisa ao público, a festa fez-se organicamente em torno daquele que é sem dúvida um dos maiores hinos do empoderamento feminino. E que bom que foi ver mulheres, crianças e, acima de tudo, homens a entoar aquelas palavras de liberdade e de emancipação feminina. Por aqui, vamos continuar a “lutar” e cantar para que as raparigas possam sempre divertir-se.