Rock in Rio Lisboa 2026 | A Festa Punk Abrasadora dos Tara Perdida e o Manifesto Político-Musical de grandson
(c) Inês Barrau

Rock in Rio Lisboa 2026 | A Festa Punk Abrasadora dos Tara Perdida e o Manifesto Político-Musical de grandson

Review

Tara Perdida
9/10
grandson
8/10
Som
9/10
Ambiente
8/10
Overall
8.5/10

Sob um sol ardente, os Tara Perdida abriram as hostilidades do segundo dia do Rock in Rio Lisboa 2026 com a celebração das suas três décadas de carreira. Já grandson estreou-se em Portugal com um concerto repleto de energia e com uma mensagem política bem vincada.

Tara Perdida

O primeiro dia de verão, assim como a temperatura que se fazia sentir a rondar os 35°, poderia ter atraiçoado a atuação dos Tara Perdida. O concerto estava originalmente marcado para as 16h, mas foi antecipado uma hora como noticiou a banda nas suas redes sociais poucos dias antes do festival. A falta de sombras no Parque Tejo aliada a uma procura do público em experienciar as atrações do recinto antes dos concertos no Palco Mundo poderia ter desviado a atenção dos visitantes do concerto dos Tara Perdida, mas tal não aconteceu. E ainda bem!

Aliás, se há banda portuguesa que tem uma base de fãs extremamente fiel, é esta e isso ficou bem comprovado pela quantidade considerável de t-shirts da banda que avistámos junto do Palco Super Bock ainda antes do concerto começar.

De regresso ao Rock in Rio Lisboa, 20 anos depois, a banda de Alvalade propôs-se a levar o público presente numa viagem pelos seus 31 anos de carreira. Para quem já tinha visto Tara Perdida nestes últimos anos a receita foi a mesma, com aquela descarga punk bem doseada. Mas, para quem experienciou a banda pela primeira vez podemos dizer que apanharam um dos melhores concertos do grupo, não só em termos de setlist, ao cobrir bastante bem a extensão do seu catálogo, mas também no que diz respeito ao ambiente e à relação simbiótica entre público e banda que tão bem define a essência de um concerto de Tara Perdida.

Mal os Tara entraram em palco, Ruka mostrou-se logo surpreendido com tamanha moldura humana. «Vocês não vacilaram!», soltou o frontman do grupo antes de partirem para a retórica “O que é que eu Faço Aqui”. Afinal de contas, todos sabiam o que é que os Tara Perdida estavam ali a fazer.

Isto porque, além de tocar todo o repertório da banda de forma irrepreensível, ainda imprime um groove proveniente da sua experiência enquanto baterista de outros projetos, como é o caso dos Los Romeros.

Naquele que foi o nosso primeiro contacto com o seu novo baterista Nuno José, encontrámos um músico profundamente entrosado e com dinâmicas bem frescas. Isto porque, além de tocar todo o repertório da banda de forma irrepreensível, ainda imprime um groove proveniente da sua experiência enquanto baterista de outros projetos, como é o caso dos Los Romeros.

Entre clássicos como “Sentimento ingénuo”, “Fizeram-se amigos”, ” Baril”, “Desalinhado” e “Nasci hoje” que despontaram os primeiros coros e mosh pits do dia, a banda foi brindada com uma receção extremamente calorosa com os já habituais cânticos «Tara Perdida!» seguidos de palmas a surgirem em cada intervalo entre músicas. Com uma setlist muito bem encadeada, houve dois momentos no concerto que merecem ser alvo de destaque. Primeiro, “Batata frita”, um dos temas mais acarinhados pelos fãs. Tão simples, tão imediato, mas que cria sempre um grande alvoroço no público. No Rock in Rio Lisboa 2026 não foi exceção, com a banda a disparar o tema três vezes para criar três momentos de mosh em crescendo na velocidade e na intensidade. Conhecendo o Rock in Rio Lisboa como um festival familiar certamente que entre aquele jogo de empurrões estiveram vários estreantes nesta modalidade. Quanto ao segundo momento alto do concerto, esse deu-se com “Lisboa”. Aqui a agressividade deu lugar à emotividade, com um coro de vozes a entoar cada palavra de forma sentida. É certo que os Tara Perdida têm muita experiência a tocar em grandes palcos e para grandes multidões, mas o impacto que esta união de vozes tem em quem está em cima do palco deve continuar a ser algo indescritível.

Mas, nada disto seria possível sem a ação de uma figura cujo nome se confunde com a história do punk português. Falamos, naturalmente de João Ribas, que nunca é esquecido nos concertos da banda. Toda esta entrega, tanto da banda como do público, também é para ele e as duas partes fazem questão de mostrá-lo quando, no fim, o baixista Filipe Sousa exibiu uma tarja que dizia: «Vida é só uma. Lá em cima ele está orgulhoso.»

grandson

grandson, nome artístico de Jordan Edward Benjamin, é um dos artistas mais interessantes da nova geração do rock alternativo. Profundamente empenhado em espalhar a sua música de intervenção, onde apresenta várias críticas ao panorama político norte-americano e internacional, grandson articula a agressividade do rap rock de uns Rage Against The Machine com as texturas sonoras eletrónicas dos Linkin Park. Para chegar ao patamar onde já chegou teve, naturalmente, que trabalhar com alguns dos melhores músicos e produtores da cena. Nomes como Travis Barker, Mike Shinoda e Colin Brittain contribuíram para a produção dos seus dois primeiros álbuns “Death of an Optimist” (2020) e “I Love You, I’m Trying” (2023), ambos editados por um dos selos mais icónicos da música alternativa, a Fueled by Ramen.

Para a sua estreia em Portugal, grandson trouxe um manifesto em formato concerto. O músico américo-canadiano é atualmente um dos nomes mais fortes da música de protesto e alternou grandes temas de rap rock com intervenções de cariz sociopolítico. À sua frente encontrou uma moldura humana disposta a receber as suas palavras de revolta. Entre fãs, que já aguardavam a sua estreia em Portugal, surgiram muitos curiosos que aderiram à performance carismática e intensa desta revelação da música alternativa.

O músico américo-canadiano é atualmente um dos nomes mais fortes da música de protesto e alternou grandes temas de rap rock com intervenções de cariz sociopolítico.

Após disparar temas como “AUTONOMOUS DELIVERY ROBOT”, “BURY YOU” e “BELLS OF WAR”, grandson sentiu-se perfeitamente à vontade para exigir uma participação mais enérgica do público. «(…) nós trazemos a música, vocês trazem a energia. Quero ver mosh e crowd surf!», exigiu o músico como forma de conquista para com os mais céticos.

Mais à frente “GOD IS AN ANIMAL”, “LITTLE WHITE LIES” e ” SELF IMMOLATION” mostraram riffs suculentos, barras ferozes e plenas de intenção e um domínio ao nível da presença em palco e da interação com o público irrepreensíveis. Desde mensagens de apelo à criação de espaços seguros, especialmente para as mulheres, à chamada de atenção para as guerras que estão acontecer no mundo, bélicas e não bélicas, onde bilionários, racistas e homofóbicos procuram silenciar a voz de todos aqueles que querem estabelecer a paz e a justiça social, grandson mostrou que podemos contar com a sua voz para lutar a favor destas causas.

Na sua herança musical, grandson traz várias referências a diferentes nomes da música de intervenção norte-americana. Um deles é Bob Dylan, que foi prontamente homenageado com a cover, numa versão rap rock, da assustadoramente atual “Masters of War”. «O amor será sempre mais forte que o ódio!», soltou o músico.

Para o fim, ficaram reservados mais alguns momentos dignos de registo. Dos mosh pits bem intensos de “BRAINROT” à t-shirt da seleção portuguesa que o músico envergou na derradeira “Blood // Water”, grandson saiu do Palco Mundo “em ombros” deixando, não só, novos fãs no Parque Tejo, mas também a certeza de que a cantiga é, e sempre será, uma arma.