Rock in Rio Lisboa 2026 | A Hibridez de Emoções dos Linkin Park

Rock in Rio Lisboa 2026 | A Hibridez de Emoções dos Linkin Park

Review

Voz
8/10
Banda
9/10
Som
7/10
Ambiente
7/10
Overall
7.8/10
The Emptiness Machine
Lying From You
Crawling
Up From the Bottom
Somewhere I Belong
The Catalyst
Burn It Down
Where'd You Go
Waiting for the End
Two Faced
A Place for My Head
IGYEIH
One Step Closer
Lost
Breaking the Habit
Overflow
What I've Done
Numb
Bleed It Out
Papercut
In the End
Faint

Após uma ausência de 12 anos, os Linkin Park regressaram a Portugal para um concerto com um ligeiro travo agridoce. Entre uma produção audiovisual sublime e uma setlist bem representativa do legado da banda, ficou a faltar uma performance mais personalizada e, pelo menos, uma menção à “cadeira vazia” que encontramos em palco.

[Nota: Fomos entretanto informados de que a banda exibiu um vídeo de homenagem a Chester Bennington cerca de 10 minutos antes do início do concerto. Como estávamos a assistir a Hoobastank, chegámos já durante a contagem decrescente para a entrada dos Linkin Park e não vimos esse momento. De qualquer forma, continuamos a considerar que deveria ter existido uma homenagem durante o concerto propriamente dito.]

Quando em Abril de 2025 entrevistámos Miguel Peixoto, o engenheiro de som dos Estúdios Namouche, que auxiliou as gravações de “From Zero” dos Linkin Park ao captar a voz de Emily Armstrong, ainda não tínhamos conhecimento do regresso da banda ao nosso país. Todavia, dado o historial de concertos da banda de Mike Shinoda em Portugal, a imensa saudade por parte dos fãs e, claro, a escolha de Lisboa para gravar partes do seu oitavo álbum seria apenas uma questão de tempo até esse regresso ser anunciado.

Rock in Rio Lisboa 2026 | A Hibridez de Emoções dos Linkin Park

Quis então o destino que, ao invés de um concerto de estádio, a banda regressasse a Portugal para um concerto numa casa onde outrora fora muito feliz – o Rock in Rio Lisboa. Com passagens pelo Parque da Bela Vista em 2008, 2012 e 2014, desta vez o anfiteatro natural que os acolheu foi o Parque Tejo. Contudo, neste regresso não foi só o cenário que mudou. Nesta oitava passagem da banda californiana por Portugal, a primeira desde o seu regresso ao ativo em 2023, surgiram também várias alterações na sua formação com a entrada do baterista Colin Brittain e do guitarrista Alex Feder, este último apenas como músico de tour. Mas, a adição mais escrutinada foi, naturalmente, a escolha de Emily Armstrong (ex- Dead Sara) para o lugar do malogrado Chester Bennington. Como era de esperar, as opiniões dividiram-se com uma fação a opor-se à escolha, argumentando que a banda poderia e deveria ter continuado mas com outro nome. Já outros, viram esta nova era com bons olhos e enalteceram a escolha inteligente de uma mulher para evitar qualquer tipo de comparação ao nível de género.

O que é certo é que à medida que os singles foram saindo os fãs mostraram-se positivamente agradados com a direção sonora do grupo e com o novo cunho vocal que Emily trouxe para o seu repertório. Respeitando todo o legado de Chester, a nova vocalista trouxe uma abordagem que privilegia a articulação entre uma voz melódica expressiva e uma rouquidão natural que sobressai nos berros das malhas mais pesadas.

Respeitando todo o legado de Chester, a nova vocalista trouxe uma abordagem que privilegia a articulação entre uma voz melódica expressiva e uma rouquidão natural que sobressai nos berros das malhas mais pesadas.

O lançamento de “From Zero” acabou por dissipar muitas dúvidas, assim como a rejeição de vários fãs para com a entrada de Emily na banda. Em Portugal, o lançamento teve uma excelente aceitação, com o álbum a receber a certificação de platina da Associação Fonográfica Portuguesa. Esta foi sem dúvida uma grande demonstração de dedicação por parte dos fãs portugueses para com os Linkin Park, mas não a única. Assim que a banda foi anunciada como cabeça de cartaz do segundo dia do Rock in Rio Lisboa 2026, os fãs correram para assegurar o seu bilhete e esgotaram o já reconhecido “dia do rock” do festival com vários meses de antecedência.

Chegada a hora do concerto a ânsia já extravasa para a outra margem do Tejo, afinal de contas este era um dos concertos do ano para muitos dos presentes e por diversas razões: uns queriam voltar a rever a banda ao vivo após uma longa espera, outros queriam ver a banda pela primeira vez, pois ainda eram demasiado novos aquando da última passagem por Portugal. Por último, havia aqueles que queriam resolver um tira-teimas que se instaurara desde que Emily fora anunciada como nova vocalista.

Importa aqui mencionar que a nossa experiência no concerto dividiu-se em dois momentos: um primeiro, menos positivo, que durou sensivelmente até à sétima música, e um segundo, que foi mais ao encontro das nossas expetativas e que se estendeu até ao final do concerto. O primeiro momento centrou-se no facto de termos começado a ver o concerto em condições muito pouco favoráveis no que diz respeito ao nosso campo de visão e de escuta. Após o concerto dos Hoobastank caminhámos para o palco mundo, mas pouco avançámos, tendo ficado praticamente a ver o início do concerto ao lado da roda gigante. Resultado? Apenas vislumbrámos parte dos ecrãs e apanhámos com um som muito mau fruto do posicionamento das torres de delay e da ação do vento que com certas rajadas arrastava o som por completo. Temas como “The Emptiness Machine”, “Crawling”, “Up From the Bottom” e “Somewhere I Belong” não nos chegaram aos ouvidos com a pujança desejada, adiando também por isso o nosso discernimento face à voz de Emily.

Rock in Rio Lisboa 2026 | A Hibridez de Emoções dos Linkin Park

Não conformados, fomos à procura de uma lugar onde pudéssemos ter uma experiência mais prazerosa e fidedigna. Encontrámos então um espaço com uma vista e uma moldura humana algo desafogada na extremidade direita do Palco Mundo. Já na nova localização o primeiro contacto que tivemos com um som mais próximo do expectável foi com “Waiting for the End”, um dos grandes momentos da noite. Ao cantar o refrão, Emily emocionou-se, levando a que a sua voz quebrasse por alguns instantes. O público rapidamente fez-se ouvir, naquele que foi um momento de reconhecimento para com uma artista que tem a difícil tarefa de interpretar e honrar o legado de Chester Bennington.

Ao cantar o refrão, Emily emocionou-se, levando a que a sua voz quebrasse por alguns instantes. O público rapidamente fez-se ouvir, naquele que foi um momento de reconhecimento para com uma artista que tem a difícil tarefa de interpretar e honrar o legado de Chester Bennington.

Após este momento de catarse, Emily mostrou-se mais solta em palco. “Two Faced” abriu o mosh pit a pedido de Mike Shinoda, já “A Place for My Head” e “IGYEIH” mostraram as cordas vocais de aço da frontwoman, o maior trunfo que a vocalista apresenta quando interpreta os temas gravados originalmente por Chester. Aliás, se ainda restassem dúvidas face à exigência vocal necessária para interpretar o repertório de Chester, essas dissiparam-se em “One Step Closer” e “Breaking the Habit”, dois temas que surgiram com outra afinação, para encaixar melhor na tessitura de Emily , e que ressoaram com alguma estranheza nos ouvidos dos fãs.

Entre momentos mais explosivos e outros de alguma contenção é normal existirem momentos de transição. Um deles surgiu entre “One Step Closer” e “Lost”. Porém, aquela que achávamos ser uma pausa rápida estendeu-se durante largos minutos, revelando um subaproveitamento do tempo de concerto. Aqui não se trata de encaixar mais uma música na setlist, mas sim de criar um momento de conversa com os fãs. Ao longo de todo o concerto, Mike Shinoda mostrou-se pouco permeável a discursos e a outro tipo de troca de palavras. Mas, aqui estávamos no momento indicado para uma mensagem mais sentida e que até fosse ao encontro da “cadeira vazia” em palco. Estranhamente, não se ouviu o nome de Chester Bennington ser proferido uma única vez. Dada a importância e o legado que o músico nos deixou, sentimos que essa homenagem deveria estar assegurada em todos os concertos da banda. Todos os presentes certamente pensaram em Chester ao longo do concerto e só teria ficado bem a Shinoda esse tal momento de reconhecimento para com o seu ex-colega de banda.

Mas, aqui estávamos no momento indicado para uma mensagem mais sentida e que até fosse ao encontro da “cadeira vazia” em palco. Estranhamente, não se ouviu o nome de Chester Bennington ser proferido uma única vez.

Sem as devidas menções, a performance prosseguiu com “Overflow”, num momento que mostrou o encaixe perfeito das harmonias vocais de Emily e Shinoda. Já “What I’ve Done” trouxe muita presença à guitarra de Alex Feder, o músico contratado para as tours mostrou-se à altura do desafio movendo-se em palco e interagindo com os fãs sem quaisquer amarras. Seguiu-se o hino “Numb”, com a intro de “Encore” de Jay-Z, com o mais discreto, mas sempre cirúrgico, Joe Hahn a dar o pontapé de saída. Daí até ao final do concerto o coro de vozes em cada refrão foi aumentando exponencialmente. Uma das músicas mais esperadas da noite era “Heavy Is the Crown”, um dos mais recentes singles, particularmente pelo berro de 16 segundos à la “Given Up” (que não constou na setlist) que Emily gravou na versão de estúdio. Porém, a vocalista esquivou-se desse momento, deixando certamente muitos fãs desapontados.

Ainda antes do encore houve tempo para passar por “Bleed It Out”, que terminou com uma nota extremamente aguda de Emily para delírio do público. Já a sequência “Papercut”, “In the End”, com Mike Shinoda nas grades junto aos fãs, e “Faint” encerrou o concerto de uma forma particularmente emocionante e enérgica. Com tamanha recepção, um regresso a Portugal no futuro é algo praticamente garantido, mas, deixamos aqui o nosso desejo, assim como as nossas preces, para que esse regresso seja feito com concerto em nome próprio, visto que a primeira, e única vez, que os Linkin Park se apresentaram nessa configuração em Portugal foi há mais de 20 anos aquando da sua estreia no nosso país com um concerto no então Pavilhão Atlântico em 2003.