Herdeiros de um repertório único, os The Wailers Band vieram a Portugal honrar e homenagear a herança musical de Bob Marley e de toda uma geração de músicos que mudou a história do reggae para sempre.
Quando em 1981, o baixista Aston “Family Man” Barrett decidiu continuar os The Wailers, após a morte de Bob Marley, muitos viram esta ação como um importante tributo e um sinal de homenagem para com o expoente máximo do reggae, mas também como uma necessidade de continuar a usar este género para combater os conflitos políticos e a violência que vinha a afetar a paz jamaicana desde os anos 40. Com toda a legitimidade para tocar este repertório, pois tanto “Family Man” como o seu irmão, o baterista Carlton “Carlie” Barrett, estiveram no processo de composição e de produção de todos os álbuns de Bob Marley and the Wailers desde “Catch a Fire” (1973), os The Wailers acabaram por ter em “Family Man” o seu diretor musical, co-produtor e principal arranjador.
À boleia de um legado musical único, compilado em “Legend” (1984), o álbum de reggae mais vendido de sempre, os The Wailers partiram então para a estrada para continuar a espalhar a mensagem de paz, amor e unidade que tão bem caracteriza as suas composições. Mas, com o passar dos anos, alguns elementos foram ficando pelo caminho. Em 1987, Carlton Barrett e Peter Tosh, que não tinha integrado esta encarnação da banda, foram assassinados.
Abalado com tamanho desfecho trágico, em 1989 “Family Man” decide reformular o grupo passando a chamá-lo de The Wailers Band. Este passo também levou a banda pela primeira vez para estúdio, para gravar o álbum “I.D.” (1989), a primeira de cinco tentativas de resgatar a chama que os The Wailers tinham captado em estúdio nos anos 70. Mas, cedo se percebeu que este novo material de originais não iria ter a mesma expressão que o repertório da era de Bob Marley. Por mais que custasse, era momento de assumir que este seria um projeto de homenagem, de legado e onde a mensagem das suas letras se iria sobrepor a qualquer músico que pudesse vir a integrar a formação da banda.
E assim foi! “Family Man” acabou por liderar o destino do grupo até 2016, quando abdicou da sua posição a favor do filho Aston Barrett Jr., que começara a tocar na banda em 2009 enquanto baterista. Já aquando da saída do seu pai, Barrett Jr. passou então para o baixo.
Esta foi a segunda vez que Barrett Jr. trouxe os The Wailers a Portugal. Após a passagem pelo festival Jardins do Marquês em 2025, desta vez foi no Rock in Rio Lisboa que o espírito de Bob Marley andou à solta a espalhar boas vibrações e a mensagem do amor, da paz e unidade.
Esta foi a segunda vez que Barrett Jr. trouxe os The Wailers a Portugal. Após a passagem pelo festival Jardins do Marquês em 2025, desta vez foi no Rock in Rio Lisboa que o espírito de Bob Marley andou à solta a espalhar boas vibrações e a mensagem do amor, da paz e unidade.
Com uma enchente em frente ao Palco Super Rock a fazer lembrar os saudosos anos do festival Sumol Summer Fest, aquando da sua passagem pela Ericeira, não houve um único corpo que não se sentisse tentado a balançar ao ritmo dos contratempos sincopados. É certo que o reggae até pode ter saído de moda, mas o seu valor político-musical apresenta-se mais relevante que nunca e ao longo de uma hora, os The Wailers provaram-no com Mitchell Brunings na voz, um vocalista holandês descoberto no The Voice Holland que emula a voz de Marley na perfeição. Ao longo de todo o concerto Brunings leu o público na perfeição com mensagens alternadas num português perfeito e interações de chamada resposta. Por sua vez, o tempo reduzido para interpretar tantos clássicos trouxe-nos alguns medleys interessantes, como foi o caso de “Jamming” que surgiu encadeada com “Get Up, Stand Up” e “Three Little Birds” sequenciada por “One Love”. Curiosamente, Barrett Jr. mostrou-se sempre na retaguarda, sem procurar qualquer tipo de protagonismo. Aliás, esse foi dado a outros elementos como o guitarrista Wendell “Junior Jazz” Ferraro, que nos presenteou com solos deliciosos.
A passagem obrigatória por clássicos como “Is This Love”, “I Shot The Sheriff”, “Buffalo Soldier” e “Could You Be Loved” elevou o sentimento de comunidade que se fez sentir ao longo de todo o concerto. Quando se fala que a música não tem fronteiras estamos exatamente a remeter para este tipo de experiências. Hinos de resistência, amor, paz e unidade aproximam as pessoas e diminuem a hostilidade. Bob Marley não foi nenhum profeta, mas num tempo em que o ódio se sobrepõe cada vez mais ao amor, as suas palavras soam como autênticos sermões.
Infelizmente, neste contexto festival existe uma redução da setlist que impediu que vários clássicos fossem escutados. “Redemption Song”, “Positive Vibration” e “Concrete Jungle” ficaram de fora, mas foi o hino “No Woman, No Cry” que apanhou todos de surpresa ao não constar na setlist. Não obstante, foi um concerto impecável por parte dos The Wailers e que cumpriu com a sua máxima função de espalhar positividade através da música.