Todos os nomes que passaram pelo Palco Mundo no primeiro dia do Rock in Rio Lisboa 2026 têm algo em comum: construíram carreiras assentes em canções que se transformaram em fenómenos populares cantados por milhares ou até mesmo milhões de pessoas.
O profissionalismo dos Calema
Os Calema tiveram a responsabilidade de abrir o palco principal e demonstraram desde cedo porque são um dos maiores fenómenos da música em português da atualidade. Os irmãos António e Fradique Mendes Ferreira sabem exatamente como ocupar um palco desta dimensão. Com uma produção cuidada, bailarinos, confettis, uma banda de excelentes músicos e uma comunicação constante com o público, os Calema apresentaram um espetáculo pensado para grandes multidões. A experiência acumulada em palcos cada vez maiores é evidente e permitiu-lhes comandar sem dificuldades um Parque Tejo já muito bem composto.
Donos de vozes seguras, presença em palco e um carisma natural, os Calema anunciaram que tinham vindo ao Rock in Rio para celebrar a lusofonia e a música. A promessa foi cumprida. Ao longo de uma atuação marcada por uma atmosfera positiva e festiva, o público respondeu com entusiasmo, acompanhando praticamente todas as canções do início ao fim.
De Angola chegou o convidado especial Anderson Mário, reforçando essa ponte entre países e culturas de língua portuguesa. Em “Maria Joana”, a portugalidade subiu ao palco, enquanto temas como “Onde Anda”, “Amar Pela Metade” e o inevitável “Te Amo” provocaram alguns dos maiores momentos de participação coletiva da tarde. Este último, em particular, ganha uma dimensão diferente ao vivo com bom um bom arranjo, novas camadas e texturas que engradecem a canção.
Foi a primeira vez que vimos os Calema ao vivo e saímos com a sensação de que o lugar que ocupam no panorama musical português é plenamente justificado. Mais do que números impressionantes de streams ou visualizações, existe uma capacidade genuína de criar ligação com o público e transformar canções em momentos partilhados por milhares de pessoas. Boa surpresa.
Fotos: (c) Inês Barrau
O festão de Pedro Sampaio
Debaixo de um sol abrasador, Pedro Sampaio ocupou a tarefa deixada pela tradição de Ivete Sangalo, que este ano não marcou presença, e fez o Parque Tejo tirar literalmente o pé do chão e levantar poeira. O artista brasileiro apresentou-se no Palco Mundo no seu registo habitual de DJ, acompanhado apenas pelos seus “brinquedos” da Pioneer e por uma trupe de bailarinos que ajudou a transformar o recinto numa autêntica pista de dança.
Mais do que um concerto no sentido tradicional, o que se viveu foi um espetáculo de festa, leques sonoros, onde milhares de pessoas dançaram ao som de beats e remisturas de grandes hits, de nomes como Rihanna, Anitta, LMFAO, Justin Bieber que iam surgindo de forma sucessiva sem grande pausa. A abertura em voz off deixou logo o tom definido com o lembrete «que a vida é uma só», e a partir daí ficou claro que a proposta era simples, desligar dos dramas da vida e viver o momento.
Muita da multidão parecia ter ido especificamente para este set e respondeu como se não existisse o calor insuportável nem a ausência de sombra. Cantou, saltou e dançou de forma ininterrupta, num ambiente de euforia difícil de ignorar. Em “No Chão”, milhares de espectadores cantaram em coro, e seguiram-se outros momentos de enorme explosão com “Rebolar Pra Tu”, “Solteiro” e “Cachorra”, sempre acompanhados por saltos, dança e braços no ar. A dada altura, chegou o momento mais aguardado, o tão afamado “Cavalinho”. Pedro Sampaio pediu o maior “Cavalinho” do mundo e a Cidade do suposto “Rock” acedeu de imediato, formando um enorme comboio humano que atravessou o recinto, numa imagem impressionante do controlo absoluto que o artista exerce sobre o público.
Pedro Sampaio pediu o maior “Cavalinho” do mundo e a Cidade do suposto “Rock” acedeu de imediato, formando um enorme comboio humano que atravessou o recinto, numa imagem impressionante do controlo absoluto que o artista exerce sobre o público.
Como é que apenas uma pessoa, com um microfone na mão, consegue mover milhares desta forma? A resposta talvez esteja na energia coletiva que ali se cria, onde cada batida funciona como gatilho para uma reacção em cadeia. Se tantas pessoas saíram dali mais felizes do que entraram, a missão de Pedro Sampaio ficou cumprida. Será este o futuro da música ao vivo? Esperemos que não, mas há lugar para todos e para todos os gostos.
No final, ficou a sensação de que muitos dos presentes não estavam apenas a assistir a um concerto, mas a viver uma espécie de catarse ao ar livre. Pedro Sampaio assumiu o papel de maestro de um enorme karaoke a céu aberto e de uma multidão em êxtase, deixando a ideia de que este tipo de espetáculo poderia muito bem ter encerrado o primeiro dia do festival.
Fotos: (c) Inês Barrau
A musicalidade de Charlie Puth
Não sabemos o que Charlie Puth terá pensado ao subir ao Palco Mundo depois da energia deixada por Pedro Sampaio. Talvez a pergunta tenha sido simples: depois disto, o que é suposto eu fazer? O certo é que o artista norte-americano regressou ao Rock in Rio Lisboa dez anos depois da sua estreia em Portugal e funcionou como um limpa-palato auditivo ou como um Guronsan depois da ressaca, um momento para acalmar o corpo e devolver alguma leveza após o festão anterior.
Acompanhado por uma banda sólida, sublime e cheia de groove, Charlie Puth soou-nos aos nossos ouvidos melhor que nunca, como se depois do universo de DJ e batidas anteriores tivesse trazido de volta a centralidade da música tocada ao vivo, com instrumentos e banda em pleno palco. Entre piano, sintetizadores e momentos apenas com microfone na mão, Puth foi alternando entre diferentes registos, sempre apoiado pelo seu falsete característico e por uma presença tranquila, quase descontraída, que contrastou com o caos dançante anterior.
Acompanhado por uma banda sólida, sublime e cheia de groove, Charlie Puth soou-nos aos nossos ouvidos melhor que nunca, como se depois do universo de DJ e batidas anteriores tivesse trazido de volta a centralidade da música tocada ao vivo, com instrumentos e banda em pleno palco.
A sua voz foi preenchendo o Parque Tejo com uma suavidade, criando um ambiente mais contido mas ainda assim totalmente atento por parte do público. Houve também espaço para gestos de proximidade, com o artista a acenar aquem vinha a deslizar no slide, num registo mais íntimo apesar da dimensão do palco euma homenagem a Olive Tree, falecido recentemente.
O alinhamento foi construído em torno dos temas que definem a sua carreira e que o público claramente esperava ouvir. No final, uma sequência de sonho para qualquer fã de Puth: “We Don’t Talk Anymore”, “Attention”, “One Call Away”, “See You Again” e “Changes”marcaram uma actuação segura e eficaz.
Obrigado, Charlie, foi bonito.
[Charlie Puth não deu autorização à Arte Sonora para a habitual galeria de fotos]
A doida da Katy Perry
Perante um recinto completamente lotado, o final da noite chegou com o espetáculo explosivo de Katy Perry no Rock in Rio Lisboa. Com origens portuguesas
ligadas a Ponta Delgada, a artista, que brincou com a sua ligação de “25% portuguesa”, conquistou o público com uma atuação vibrante, marcada por uma energia inesgotável do início ao fim.
Igual a ela própria, Katy Perry trouxe o seu mundo meio doido para cima do palco, com cenários extravagantes e, por vezes, meio cringe, como aquele momento em que uma embalagem gigante dispara espuma para o público ou quando percorre o recinto dentro de uma garrafa de água gigante insuflável, atravessando o público de mão em mão num cenário verdadeiramente apoteótico. E quando damos por nós estamos a ir até ao espaço no foguetão de Perry ou a ter uma lição de como usar a Inteligência Artificical, deixando um conselho: «Usa a IA como uma ferramenta e não sejas uma ferramenta da IA. Transformas a AI na tua bitch. AI, tu trabalhas para mim, estás a ouvir?» Pegando depois num bastão de plástico e começa a bater no computador gigante que faz parte do cenário…
E Katy cantou ao vivo, e é aí que percebemos que não tem um vozeirão por aí além e que a sua voz revela algumas fragilidades.
E Katy cantou ao vivo, e é aí que percebemos que não tem um vozeirão por aí além e que a sua voz revela algumas fragilidades. Mas, se calhar, isso pouco importa para quem está à sua frente. E, como diz a própria Perry, «estamos aqui para nos divertir, certo?». Para quem lá está, o objetivo é esse mesmo: ouvir os êxitos como “Teenage Dream”, “Dark Horse”, “I Kissed a Girl” ou “The One That Got Away”, cantar do princípio ao fim e divertir-se. Com um set ora baseado numa batida muito mais electónica, ora em pop clássico produzido por uma banda competente que acompanhava a artista. Simpática e super comunicativa manteve por vários momentos uma conversa directa com os seus fãs.
Muito para além da componente musical, Katy Perry assumiu também um discurso interventivo e de defesa dos direitos das mulheres, reforçando a proximidade com os milhares de fãs presentes. Entre êxitos, coreografias e uma produção de grande dimensão, o Rock in Rio encerrou o seu sábado da melhor forma possível, com um espetáculo memorável.
Fotos: (c) Paula Miranda