Os Sepultura regressaram a Portugal para mais um encontro com o público nacional, numa altura particularmente especial da sua carreira. Integrada na digressão de despedida “Celebrating Life Through Death”, a atuação trouxe ao Palco Music Valley uma das bandas mais influentes da história do metal, responsável por levar o nome do Brasil aos maiores palcos do mundo.
20 de abril de 1999. Final de tarde de uma terça-feira, sem planos, a folhear uma revista de música, quando uma rádio anunciou: «Os Sepultura dão hoje o concerto de estreia do seu novo vocalista.»
Olhei para o relógio. Não havia muito tempo para decidir.
Virei para o meu irmão, que jogava qualquer coisa na televisão, e nem precisei de dizer nada. Bastou o olhar. Em minutos, já estávamos a caminho do que seria, para nós os dois e até hoje, o maior e melhor concerto que vivemos juntos, entre mais de quatro centenas, incluindo nomes como Radiohead, Rage Against The Machine, Queens of the Stone Age, Linkin Park e tantos outros.
Há concertos que se contam. Aquele ficou a viver connosco. Como fã desde o início dos anos 90, já vi Sepultura pelo menos umas dez vezes, incluindo duas com a formação original. Por isso, ao chegar ao Palco Music Valley, a ideia era simples: ver uma parte do concerto e sair a caminho dos Hoobastank, que tocavam à mesma hora noutro palco secundário.
Mas quando os Sepultura começaram, percebi que seria impossível sair dali.
E bastava olhar para o público para perceber que ali se passava algo diferente. Era contemplação em estado bruto. A pergunta que antecedeu este concerto e parecia andar de boca em boca, de palco em palco, como uma provocação inevitável, era: como é que uma banda com este peso histórico tem tão pouco tempo e não está no palco principal?
A resposta veio de cima do palco. E dava razão à indignação.
Uma máquina, não uma despedida
Depois de “Polícia”, dos também históricos Titãs, soar como intro no sistema de som, os Sepultura entraram como se ainda estivessem no início da carreira. Ou talvez exatamente como os vi naquele fim de tarde, há quase trinta anos. Sem economia. Sem pose de banda em despedida. Antes, uma máquina perfeitamente afinada.
Derrick Green apareceu a ostentar um bigode grisalho, quase um símbolo visual involuntário de que o fim desta história se aproxima mesmo. Mas a voz, a presença e a entrega continuam intactas. E a banda esteve gigante.

Andreas Kisser continua a ser um guitarrista absurdo, daqueles que parecem carregar uma banda inteira nas próprias mãos. Paulo Jr. mantém aquele baixo pesado que dá identidade ao som dos Sepultura desde sempre. E Greyson Nekrutman… bem… que monstro de baterista. A forma como conduz cada música, a força, a precisão cirúrgica, a energia quase impossível de acompanhar. É difícil desviar o olhar dele.

O concerto nem parecia de uma banda em despedida. Com espaço para o mais recente EP, “The Cloud of Unknowing”, mas também para a história inteira, o que se viu foi um concerto poderoso e que deixou todos com a sensação de que ainda não era hora de acabar.
Abriram com “Inner Self”, seguida de imediato pela nova “All Souls Rising”. O público respondeu com força. Vieram “Kairos” e, sem pausa para respirar, o primeiro grande pico da noite: “Attitude”. Por vezes, a voz pareceu um pouco baixa. Talvez fosse uma questão de posicionamento no recinto, algo que já se tornou quase recorrente no Tejo. Mas nada disso roubou impacto à noite.
O peso de saber que é a última vez
Tinha curiosidade em perceber como as músicas mais lentas do novo material funcionariam ao vivo. “The Place” revelou um lado quase poético e pouco habitual da banda. E funcionou muito bem. Depois, Andreas anunciou “Escape to the Void”, e aquele thrash metal old school transformou o Music Valley num mosh pit generalizado. Aquilo foi histórico.
No ecrã ao fundo, imagens da banda com o povo indígena brasileiro Kaiowá já anunciavam o que estava para vir. Sem grandes apresentações, apenas tratados como amigos por Kisser, foi possível identificar membros dos P.O.D. em palco. É sempre mágico ver os Sepultura tocar essa canção ao vivo.
Foi então quando Andreas voltou a lembrar que aquele era o capítulo final da banda que tudo ganhou outro peso. Músicas que sempre foram hinos de força passaram, de repente, a carregar uma gravidade diferente. Uma mistura estranha de felicidade e tristeza apertou o peito. Uma vontade quase desesperada de aproveitar cada segundo, porque cada segundo ali era finito. Mudar de palco já era impensável.
A tempestade final
Veio então aquilo a que só se pode chamar calmaria antes da tempestade. A belíssima “Beyond the Dream” deu o fôlego necessário para a sequência mais matadora da noite no Rock in Rio.
“Territory”.
“Refuse/Resist”.
“Arise”.
“Ratamahatta”.
“Roots Bloody Roots”.
Uma avalanche. Uma tempestade. A erupção de um vulcão.
Ou “tudo ao mesmo tempo agora”, como diria outra música dos Titãs.
Os Sepultura terminaram sem parecer uma banda a despedir-se. Pareciam, antes, uma banda a provar porque chegaram tão longe e porque são e serão sempre lembrados. Mais de quarenta anos depois, continuam perigosos, intensos e absolutamente vivos.
O relógio outra vez
Quando as luzes do palco se apagaram, voltei a olhar para o relógio. Desta vez, por dois motivos: perceber quanto tempo tinha durado o concerto e calcular o caminho até à próxima atração do festival. Mas foi inevitável voltar àquela terça-feira de abril de 1999, quando olhei para o relógio não para saber quando sair, mas para garantir que ainda chegava a tempo de ver o início de outro concerto dos Sepultura.
Lembrei-me automaticamente do olhar que troquei com o meu irmão. Um olhar que dizia tudo sem precisar de uma única palavra.
Quase trinta anos depois, ele não estava ao meu lado naquela noite. Mas estava ali de alguma forma. Porque foi com ele que aprendi o que significa viver um concerto destes. E foi aquele Sepultura de tantos anos atrás que me manteve preso ao Palco Music Valley até ao último acorde, incapaz de ir para outro palco, incapaz de estar em qualquer outro lugar.
Há bandas que marcam uma época. Os Sepultura marcaram uma adolescência, uma irmandade e uma vida inteira de concertos que vieram depois daquele fim de tarde decidido em segundos.
Por outro lado, o relógio foi cruel com o público do Rock in Rio. Para milhares de fãs que estavam ali, a sensação era a de ter testemunhado algo enorme, mas dentro de um espaço de tempo que não fazia justiça ao tamanho da banda.
Em torno de uma hora.
Talvez nem uma hora inteira.
Num palco secundário.
Para um dos maiores nomes que o metal brasileiro alguma vez produziu. Foi pouco. Mas talvez também tenha sido isso que tornou tudo ainda mais intenso.
Porque quando uma banda consegue transformar uma despedida numa celebração, mesmo com o tal relógio contra ela, percebe-se que alguns legados não acabam quando o último acorde termina. Ficam a tocar noutro sítio.
Às vezes, durante quase trinta anos.