Há noites de festival em que tudo parece encaixar num fio muito simples, dois concertos, duas formas diferentes de ocupar o Palco Mundo do Rock in Rio Lisboa, duas maneiras de lidar com o peso da expectativa e da memória. Entre acertos de contas e surpresas inesperadas, dois grandes concertos antes do cabeça de cartaz, Linkin Park.
The Pretty Reckless: O concerto que deixou de estar em dívida
Durante anos, The Pretty Reckless foram, para muita fãs em Portugal, uma espécie de concerto adiado. Não uma ausência dramática, mas uma nota de rodapé que ficou presa em 2011, quando a banda esteve perto de se estrear por cá no então nomeado Optimus Alive e não chegou a subir ao palco por problemas técnicos. No Rock in Rio Lisboa, essa história finalmente perdeu importância e teve um final feliz.
Bastaram poucos minutos para o assunto deixar de ser o atraso e passar a ser a própria banda. A tentação fácil seria voltar a apresentar Taylor Momsen como a miúda do Grinch. O problema é que, em palco, essa conversa começa a parecer antiga muito depressa. A figura que ali estava não precisava de ser resgatada de nenhuma personagem. Taylor comandava a banda com a segurança de quem já passou há muito da fase de provar que isto não é um capricho. A voz ajuda muito. Grave, rasgada, direta, daquelas que parecem feitas para guitarras pesadas e refrões sem grandes delicadezas.
A voz ajuda muito. Grave, rasgada, direta, daquelas que parecem feitas para guitarras pesadas e refrões sem grandes delicadezas.
Mas o mais importante foi perceber que os The Pretty Reckless soaram como uma banda completa e coesa e não como um projeto montado à volta de uma figura conhecida. O concerto abriu com “Death by Rock and Roll”, mas foram as canções mais antigas que levantaram maior reação, com destaque para “Since You’re Gone”, “Miss Nothing” e sobretudo “Make Me Wanna Die”, todas do álbum de estreia, que possivelmente seria tocado na íntegra naquele 2011. Também houve espaço para mostrar material novo, com “For I Am Death” e “When I Wake Up” a deixarem a ideia de que o próximo álbum não deverá fugir muito ao território onde Momsen se move melhor: canções diretas, pesadas na medida certa e feitas para soar maiores ao vivo.
O fecho com “Going to Hell” confirmou a sensação principal do fim de tarde. Os The Pretty Reckless não vieram apenas saldar uma dívida antiga com o público português. Vieram mostrar que essa dívida, entretanto, já tinha sido ultrapassada pela própria estrada.
Cypress Hill: De intervalo improvável a memória do dia
Àquela hora, o Palco Mundo já tinha muita gente instalada para os Linkin Park, e isso criava uma situação curiosa: uma banda histórica a tocar diante de milhares de pessoas que pareciam conhecer mais o nome do que as músicas. Podia ter corrido como intervalo. Não correu.
B-Real entrou com a tranquilidade de quem já viu demasiados palcos para se deixar intimidar por uma plateia emprestada. Aos poucos, os Cypress Hill foram fazendo aquilo que sabem fazer. Beats pesados, rimas secas, baixo a bater no corpo e aquela identidade muito própria entre hip-hop, cultura latina, fumo e atitude de bairro.
Aos poucos, os Cypress Hill foram fazendo aquilo que sabem fazer. Beats pesados, rimas secas, baixo a bater no corpo e aquela identidade muito própria entre hip-hop, cultura latina, fumo e atitude de bairro.
A ligação da banda à erva esteve lá, claro. Seria estranho se não estivesse. Mas os Cypress Hill não são só isso. O concerto provou porque foram tão importantes para aproximar mundos que, em teoria, nem sempre se tocavam. Com eles, há rap, rock, metal, cultura de rua e festival de massas, tudo no mesmo lugar. A meio, ficou claro que muitos estavam ali a descobrir a banda em tempo real. E transformar curiosidade em adesão talvez tenha sido o melhor truque do concerto.
O duelo entre DJ Lord e Eric Bobo deu músculo ao concerto, “Illusions” trouxe o lado mais político, e a reta final aproximou definitivamente tudo do território rock. A partir daí, já não interessava muito quem tinha vindo por Cypress Hill, por Linkin Park ou por simples curiosidade. Com “Bombtrack”, dos Rage Against The Machine, “Can’t Get the Best of Me” e “(Rock) Superstar” em sequência, durante alguns minutos pareceu tudo a mesma plateia.
O final acabou por chegar antes do previsto, devido a uma situação de saúde no público. Foi uma quebra estranha, daquelas que deixam o recinto em suspensão e impedem o concerto de fechar como merecia.
Ainda assim, a missão estava feita. Cypress Hill chegaram como presença improvável num dia dominado por outro nome e saíram como uma das boas surpresas do Palco Mundo. Mas ficou mesmo a faltar “Jump Around”, fica para a próxima!