Abastecido com o elixir da eterna juventude, Ronnie Wood apresentou-se em Lisboa para revisitar 60 anos de carreira em 2 horas. Entre pentatónicas e riffs intemporais, “Woody” mostrou que o palco continua a ser a sua casa.
Estávamos em 1973 quando Ronnie Wood se “fechou” em The Wick, a sua casa georgiana no centro de Londres, para compor e gravar o seu primeiro álbum a solo “I’ve Got My Own Album to Do” (1974). O título, uma suposta provocação a Rod Stewart, surgiu numa altura em que Rod “The Mod” encontrava-se mais focado na sua carreira a solo, e a lançar grandes sucessos como “Every Picture Tells a Story”, “Maggie May” e “You Wear It Well”, do que propriamente nos Faces, banda onde dividia o protagonismo com Ronnie Wood.
Reconhecidos como uma das mais fascinantes duplas criativas da história do rock, ao nível de parelhas como Mick e Keith, Plant e Page ou Tyler e Perry, Rod Stewart e Ronnie Wood sempre foram unha com carne desde os tempos do Jeff Beck Group. O entrosamento criativo dos dois sempre foi notório e mesmo quando Rod embarcou na sua viagem a solo, Ronnie nunca deixou de mostrar-se disponível para colaborar na composição e gravação dos primeiros álbuns do vocalista. Porém, quando o guitarrista começou a perceber que os Faces estavam a ficar para trás, rapidamente repensou a sua carreira e embarcou também ele numa carreira a solo.
Importa salientar que Ronnie Wood nunca foi apenas e só reconhecido pelas suas qualidades enquanto músico, mas também pela sua boa disposição e pelo caráter amigável que sempre demonstrou ao longo da sua carreira. Segundo “Uncool”, o livro de memórias do jornalista musical/realizador de cinema Cameron Crowe, «a única coisa que deveriam saber sobre o homem a que todos chamavam Woody era que ele fazia facilmente amigos. O Ron Wood poderia conhecer-te no 12º piso de uma viagem de elevador, e quando chegassem ao lobby, o teu já nome estava na lista de convidados do concerto (…)» Desta forma, não é de estranhar que em “I’ve Got My Own Album to Do”, Ronnie tenha recrutado uma série de amigos para o acompanharem no processo de composição e gravação do álbum.
Claro que Rod Stewart não faltou à chamada, mas, entre colaboradores como George Harrison e David Bowie, há dois nomes que saltam logo à vista pela influência que viriam a ter na carreira de Ronnie nos 50 anos seguintes. Falamos, naturalmente, de Keith Richards e Mick Jagger dos The Rolling Stones. Ambos contribuíram para a composição de “Act Together” e “Sure the One You Need”, e já no processo de gravação Richards participou em quase todas as músicas a tocar vários instrumentos e a cantar, enquanto Jagger “apenas” contribuiu com a sua voz e guitarra em duas músicas.
Profundamente focado na composição de material novo e na exploração da sua relação criativa com Wood, Jagger aproveitou a passagem por The Wick para lançar a primeira pedra daquele que viria a ser o 12º álbum de estúdio dos The Rolling Stones, intitulado “It’s Only Rock ‘n Roll” (1974). Após várias trocas de ideias com Ronnie nascia assim a faixa título. A primeira demo deste clássico dos Stones acabaria por ser gravada ali mesmo, com Jagger na voz principal, Wood na guitarra, Willie Weeks no baixo, Kenney Jones na bateria e, pasmem-se, David Bowie nos coros. Curiosamente, a música acabaria por ser regravada, no entanto, sem a presença de todos os músicos que compunham a formação dos Stones em 1974. Tanto o guitarrista Mick Taylor como o baixista Bill Wyman e o baterista Charlie Watts ficaram de fora da gravação final, com o guitarrista Keith Richards e o pianista Ian Stewart a serem os únicos a contribuir para a gravação que encontramos no álbum.
Estava assim depositada a semente de uma ligação musical que viria a marcar a história do rock no próximo meio século.
Por volta de 1974, os Faces já tinham os seus dias contados, porém a cisão da banda só aconteceria em 1975. Ao mesmo tempo, no campo dos Stones, Mick Taylor saía da banda devido a complicações no relacionamento pessoal e criativo com Jagger e Richards. Com a Tour of the Americas ’75 agendada, a escolha de Wood como guitarrista contratado surgiu de forma natural. Ainda assim, a sua confirmação enquanto membro oficial só chegaria em 1976, após um processo de recrutamento que também contou com Harvey Mandel e Wayne Perkins. Os três guitarristas acabariam por contribuir para as gravações de “Black and Blue” (1976), no entanto, no final, foi Wood o escolhido para preencher um lugar que já tinha sido de Mick Taylor e Brian Jones.

Quis o destino que 50 anos após a sua admissão oficial nos Stones, Ronnie Wood se apresentasse em Lisboa num concerto retrospetivo da sua carreira. Mas, ainda mais fascinante do que isso, foi mesmo o facto do músico ter iniciado o concerto precisamente onde tudo começou, com “It’s Only Rock ‘n’ Roll (but I Like It)”. Como se isso tudo não bastasse, há ainda a coincidência do concerto ter acontecido no dia em que Zé Pedro dos Xutos & Pontapés, possivelmente o maior fã português dos The Rolling Stones, faria 70 anos. Se existirem dúvidas sobre este estatuto vejam a palestra que o Zé Pedro deu em 2012 no True Tales.
Até então, Portugal nunca tinha experienciado uma noite tão intimista com um elemento dos Stones.
Até então, Portugal nunca tinha experienciado uma noite tão intimista com um elemento dos Stones. Após várias passagens por estádios e uma presença no Rock in Rio Lisboa, esta era sem dúvida uma oportunidade única de estar cara a cara com uma lenda viva e, segundo algumas vozes, imortal. Talvez tenha sido por isso que algumas caras da nata do rock nacional não tenham faltado a esta convocatória, como João Cabeleira dos Xutos & Pontapés e António Côrte-Real dos UHF. Ainda assim, o Coliseu dos Recreios mostrou-se demasiado despido para receber tamanha estrela do rock. Aliás, não fosse a configuração com lugares sentados, e a vista do palco seria certamente dececionante.
De qualquer forma, para Ronnie Wood tudo isso é secundário, principalmente quando a alegria de estar em palco se sobrepõe aos números. E isso foi notório mal o músico pisou as tábuas do Coliseu. De braços abertos e sorriso rasgado, deu para perceber que Wood estava profundamente feliz por ali estar e por poder continuar a fazer aquilo que mais gosta. É essa felicidade contagiante que encontramos em “FEARLESS: THE ANTHOLOGY 1965–2025”, mote desta tour, e que levou Wood para a estrada enquanto Mick e Keith não se decidem sobre uma possível tour de promoção de “Foreign Tongues” (2026).


Foi de Gibson Les Paul Standard a tiracolo que Wood se atirou ao primeiro clássico da noite, “It’s Only Rock ‘n’ Roll (but I Like It)”. Não sendo um predestinado vocalmente, Ronnie conseguiu segurar os trejeitos vocais de Jagger com o auxílio de Chanelle Haynes, uma das convidadas desta tour. O momento, naturalmente de muito entusiasmo, fez os fãs levantarem-se de imediato das cadeiras e entoarem o chavão da música. «É bom estar de volta a Lisboa! Vejo que ainda há malta a entrar», disse Wood nos primeiros instantes do concerto.

À semelhança daquilo que vemos e ouvimos no repertório jazzístico, também o catálogo de Wood está recheado de covers e “apropriações” de temas icónicos do cancioneiro norte-americano, que o músico traz para as suas setlists para contrabalançar os seus originais. “Am I Grooving You”, de Freddie Scott, e “Take It Easy”, de Hopeton Lewis, foram as primeiras a explorar essa dinâmica. A primeira trouxe uma discrepância ao nível solístico. Se, no momento de levar a harmónica aos beiços, Ronnie foi exímio, no momento do solo de guitarra já se mostrou algo descuidado, com algumas falhas colmatadas por uma atitude e energia jovial. Não esqueçamos que são 79 anos, tomara que muitos se aguentassem nas pernas numa simples caminhada, quanto mais com uma guitarra a tiracolo, a solar nas extremidades de um palco. Por sua vez, na segunda, Ronnie mostrou toda a sua mestria e coolness na performance da malha de rocksteady. Aqueles contratempos estiveram sempre no ponto.
Por sua vez, na segunda Ronnie mostrou toda a sua mestria e coolness na performance da malha de rocksteady. Aqueles contratempos estiveram sempre no ponto.
Já com a sua Duesenberg Starplayer TV de assinatura nos braços, e apoiado por dois amplificadores Fender, um ‘Narrow Panel Tweed’ Champ 5F1 e um Super Reverb, Wood fez a primeira visita aos Faces com “Flying”. De forma a resguardar-se vocalmente, Ronnie deu espaço a Chanelle Haynes para brilhar com a sua voz soulful, mas recuperou o protagonismo num solo de guitarra muito mais coeso que aquele escutado em “Am I Grooving You”, onde, por breves instantes, entrou numa espécie de duelo com o órgão de Andy Wallace.


Independentemente da qualidade do restante repertório, bem sabemos que o que moveu o público para este concerto foi a possibilidade de escutar alguns deep cuts dos Stones. “Hey Negrita” trouxe exatamente isso. Tocada pela banda apenas na tour de “Black and Blue”, esta revelou-se um dos grandes momentos da noite. Com a sua Fender Stratocaster Sunburst de 1955 a brilhar, Wood ainda arriscou na sua veia de percussionista ao agitar umas maracas, relembrando assim as raízes latinas do tema.
Após uma passagem por “Seven Days” de Bob Dylan, surgiu o momento de chamar a convidada especial Imelda May. A cantora irlandesa entrou pela porta grande ao interpretar o clássico “Remember (Walking in the Sand)” das The Shangri‐Las. A sua voz profundamente expressiva e dinâmica provocou um frisson geral na sala e resultou numa ovação de pé no fim da música. A dinâmica manteve-se em “You’re So Fine” dos The Falcons, antes de “Baby What You Want Me to Do” de Jimmy Reed trazer um tridente vocal para a frente de palco, com Ronnie, Imelda e Chanel a partilharem vozes. A contrariar a sua idade biológica, Wood voltou a explorar as potencialidades bluesy da harmónica, mas desta vez desafiando o seu fôlego com uma nota que se prolongou por umas boas dezenas de segundos.
“Show Me” trouxe um convite à dança, com o público que se encontrava na parte de trás da plateia a aproximar-se rapidamente do palco para viver aquele momento com maior intensidade. Os seguranças bem tentaram sentar os fãs, mas quando viram que a festa estava a ser feita de forma bastante ordeira acabaram por desistir. Na bateria, Andy Newmark brilhou neste tema com uma sucessão de breaks a fazer lembrar o saudoso Charlie Watts. Seguiu-se “Mystifies Me”, que foi apresentada jocosamente como uma música do álbum “I’ve Got My Own Album to Do”.
“River Deep, Mountain High” de Ellie Greenwich fez a ponte para mais um tema dos Stones, “Country Honk”, a versão country do clássico “Honky Tonk Women”. Violino em palco e uma ESP Telecaster Ron Wood transformaram o Coliseu precisamente num honky tonk típico do sudoeste norte-americano.
Por esta altura, o concerto já se estendia a caminho das duas horas. Até então a setlist estava a mostrar-se bem encadeada e dinâmica, mas com a sucessão dos temas seguintes sentiu-se uma verdadeira quebra. “Chain of Fools” de Aretha Franklin, “Boogie Disease” de Doctor Ross e “Spoonful” de Willie Dixon começaram a acusar o excesso de covers. Foi mesmo preciso chegar a “Ooh La La” dos Faces, seguida de “Can’t You Hear Me Knocking”, para recuperar os níveis de energia de um público que numa situação normal já estaria, àquela hora, a repousar nos seus aposentos.
Mas, Ronnie Wood ainda não tinha esgotado as pilhas todas. “Outlaws” antecipou o encore composto por um medley de “Dust my Broom / Black Limousine / Plynth (Water Down the Drain) / Gasoline Alley”. Ouviram-se passagens de Robert Johnson, The Rolling Stones, Jeff Beck e Rod Stewart, com Wood a dedilhar a sua Zemaitis S24DT ARCHTOP & ARABESQUE para, no fim, ao som de “Stay With Me” dos Faces, o Coliseu juntar-se numa vénia coletiva a esta estrela do rock.
Não sabemos se os Stones voltarão à estrada em 2027, ou sequer se passarão por Portugal, mas se este tiver sido o último vislumbre de uma pedra rolante no nosso país, então já saímos de coração cheio por termos tido a oportunidade de testemunhar de tão perto uma figura musical que será para sempre lendária. Pelo sim, pelo não, despedimo-nos com um “Até Ao Próximo Adeus”!