Sem datas em Portugal, fomos até Itália assistir ao aguardado regresso dos System of a Down aos palcos europeus, acompanhados pelos Queens of the Stone Age. A digressão que Portugal merecia, mas que acabou por passar ao lado do nosso país.
O I-Days é um dos maiores festivais de música de Itália e, todos os verões, transforma Milão num ponto de encontro para fãs de vários géneros musicais. Criado em 1999, em Bolonha, sob o nome Independent Days Festival, o evento cresceu e mudou de nome (I-Days) e de casa (Milão), até se tornar uma das principais referências do circuito europeu, recebendo anualmente alguns dos maiores nomes da música internacional. Ao longo de várias semanas, o festival distribui a sua programação por diferentes datas, com cada noite dedicada a um cartaz específico.
Dependendo da dimensão do espetáculo e da procura do público, os concertos realizam-se entre dois recintos distintos: o Ippodromo SNAI San Siro (capacidade para cerca de 34 000 pessoas), utilizado para produções de média dimensão, e o Ippodromo SNAI La Maura, um espaço ao ar livre capaz de receber até 80 000 espectadores, frequentemente reservado para os maiores acontecimentos da edição.
A edição de 2026 apresentou um alinhamento com artistas como Florence + The Machine, Foo Fighters, Maroon 5 ou A$AP Rocky. Mas não foi nenhum destes nomes que justificou apanhar um avião rumo a Milão.
Os verdadeiros culpados foram os System of a Down. A confirmação da tão aguardada digressão de regresso aos palcos da banda liderada por Serj Tankian, e sem data em Portugal, foi motivo mais do que suficiente para atravessar fronteiras. Como se isso não bastasse, a tour ganhou ainda mais peso com a presença dos Queens of the Stone Age e de Acid Bath. Que estrondo!
Da esperança à desilusão
Assim que começaram a surgir os primeiros rumores de uma digressão europeia dos System of a Down para 2026, muitos fãs portugueses voltaram a alimentar a esperança de ver a banda regressar finalmente ao nosso país. A expectativa aumentou ainda mais quando foi confirmada a presença dos Queens of the Stone Age como convidados especiais. Afinal, tanto os System of a Down como os Queens of the Stone Age tinham contas por acertar com o público português.
Em 2020, os SOAD estavam confirmados para o VOA Heavy Rock Festival, mas a maldita pandemia obrigou ao cancelamento do evento, adiando indefinidamente aquele que seria o aguardado reencontro da banda com os fãs nacionais. Já os QOTSA viram-se forçados a cancelar a atuação prevista para o CA Vilar de Mouros em 2024, devido aos problemas de saúde de Josh Homme.
Por isso, quando a digressão europeia foi oficialmente anunciada, a grande surpresa foi a ausência total de datas na Península Ibérica. Mas isso não impediu os fãs portugueses de encontrar uma alternativa. Se os System of a Down não vinham até Portugal, então Portugal iria até aos System.
Para muitos portugueses, a única forma de assistir àquela que era uma das digressões mais aguardadas do ano passou por reservar um voo e fazer as malas. Foi exatamente isso que fizemos ao rumar até aos I-Days, em Milão. Entre as cerca de 78 mil pessoas que encheram o Ippodromo SNAI La Maura, ouvimos e falámos com portugueses e vimos uma ou outra bandeira nacional. A viagem de regresso confirmou ainda mais essa impressão. No voo de volta, eram muitos os portugueses que, depois de assistirem aos concertos dos System of a Down e dos Queens of the Stone Age em Milão, ainda tinham energia para seguir diretamente para Lisboa e marcar presença no Estádio da Luz para o aguardado reencontro com os Iron Maiden. As t-shirts não mentem!
O I-DAYS e as filas intermináveis
Antes de falarmos dos concertos propriamente ditos vale a pena olhar para a experiência proporcionada pelo I-Days enquanto festival. Começando pelos aspectos positivos. Headliner a começar às 21h??!! Sim, que maravilha! Assistimos ao concerto sensivelmente a meio do recinto e, mesmo dessa posição, o sistema de som revelou-se eficaz durante toda a noite, com volume suficiente para transmitir a intensidade das atuações sem cair no exagero que tantas vezes compromete a definição. A mistura foi equilibrada, os instrumentos mantiveram-se percetíveis e as vozes chegaram com clareza, algo particularmente importante num recinto desta dimensão.
Também a componente visual esteve à altura. Os vários ecrãs distribuídos pelo recinto permitiam acompanhar o espetáculo mesmo a grande distância do palco, sem criar a sensação de excesso visual que por vezes afeta produções desta escala. Com duas estações de metro, mais ou menos a cerca de vinte minutos a pé e percursos relativamente simples, a nossa chegada e a saída do recinto decorreram de forma minimamente organizada. No entanto, para evitar a habitual enchente no final da noite, acabámos por sacrificar os últimos minutos de “Sugar” e abandonar o recinto antes do concerto terminar. A julgar pelas críticas que surgiram mais tarde nas redes sociais sobre a saída do festival, talvez não tenha sido a pior decisão.
Infelizmente, nem tudo foi positivo. E não, não é «só em Portugal que estas coisas acontecem». O I-Days sofre de alguns dos mesmos problemas que encontramos em muitos festivais nacionais. O primeiro é o próprio espaço. Num recinto praticamente sem zonas de sombra e com temperaturas a ultrapassar os 35 graus, passar várias horas à espera dos concertos transforma-se rapidamente num teste de resistência. Entre o sol, o calor e a total ausência de abrigo, chegar ao concerto principal já parecia um verdadeiro teste de sobrevivência. E não nos venham com a conversa do «só vai quem quer». Quem paga um bilhete tem o direito de exigir condições mínimas de conforto e segurança, sobretudo quando está previsto um dia com temperaturas elevadas.
E não nos venham com a conversa do «só vai quem quer». Quem paga um bilhete tem o direito de exigir condições mínimas de conforto e segurança, sobretudo quando está previsto um dia com temperaturas elevadas.
A situação agravava-se devido à escassez de pontos de abastecimento de bebida. O festival disponibilizava pelo menos dois pontos de água gratuita, uma iniciativa de louvar, mas claramente insuficiente para dezenas de milhares de pessoas. As filas ultrapassavam facilmente uma hora de espera, precisamente num contexto em que a hidratação deveria ser uma prioridade.
Também os pontos de venda de bebidas se revelaram manifestamente insuficientes. Com a cerveja a custar nove euros e uma garrafa de água três euros, seria de esperar uma estrutura capaz de responder à procura. Em vez disso, encontrámos filas intermináveis em praticamente todos os balcões. Perder mais de uma hora para comprar uma bebida simplesmente não fazia sentido. Estávamos ali para assistir a concertos, não para passar uma parte significativa do evento numa fila.
Pelo recinto circulavam ainda vendedores ambulantes a carregar caixas de plástico (desgraçados…) com cerveja (mais quente do que fria) e Coca-Cola, a água nunca foi uma opção. Nessa altura, foi impossível não pensar nos vendedores que percorrem os festivais portugueses com mochilas térmicas às costas e que, apesar de todas as críticas que possam receber, acabam muitas vezes por prestar um serviço mais eficiente.
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Ao calor e à sede juntava-se ainda outro elemento: o pó. Muito pó. À medida que a noite avançava e milhares de pessoas se movimentavam pelo recinto, formavam-se autênticas nuvens de terra. E é precisamente nesses momentos que nos lembramos com saudade do tapete verde do NOS Alive, um luxo que só se valoriza verdadeiramente quando passamos horas sobre um terreno seco e poeirento. Nada disto foi suficiente para estragar a experiência ou diminuir o impacto dos concertos. Por amor à música, os fãs aguentam tudo. E os promotores sabem disso melhor do que ninguém.
Nada disto foi suficiente para estragar a experiência ou diminuir o impacto dos concertos. Por amor à música, os fãs aguentam tudo. E os promotores sabem disso melhor do que ninguém.
Um cartaz de luxo
Para além de SOAD e de QOTSA, esta tour trazia ainda um tesourinho: Acid Bath, uma das bandas de culto no universo do sludge metal. O regresso dos norte-americanos aos palcos europeus era, por si só, um acontecimento, tendo em conta o estatuto quase mítico que a banda alcançou após a separação trágica em 1997.
Foi já com os Acid Bath em palco que fizemos a nossa entrada no recinto. Perante uma lotação ainda em número reduzido, a banda apresentou um concerto curto, com cerca de meia hora, mas suficientemente intenso para deixar a sua marca. O grupo liderado por Dax Riggs apostou em temas como “Tranquilized”, “Bleed Me an Ocean”, “Dead Girl”, “Paegan Love Song” e “Venus Blue”, oferecendo uma amostra do som sombrio, pesado e psicadélico que os transformou numa referência do metal underground norte-americano.
Depois de um set de DJ e de cerca de uma hora de espera, que nos pareceu excessiva para uma simples troca de backline, chegou a vez dos Queens of the Stone Age entrarem em cena. Josh Homme apresentou-se bem-disposto e a banda mostrou que continua em excelente forma, oferecendo exatamente aquilo que dela se espera: uma dose generosa de rock n’ roll musculado. Pelo alinhamento passaram temas como “No One Knows”, “Little Sister”, “My God Is the Sun”, “Sick, Sick, Sick” e “Go With the Flow”, recebidos com entusiasmo sempre que surgiam os grandes clássicos.
Ainda assim, ficou a sensação de que uma parte significativa do público já tinha a cabeça nos System of a Down. Para além das primeiras filas e dos inevitáveis momentos de euforia nos grandes clássicos dos Queens of the Stone Age, a atenção pareceu algo dispersa. As filas intermináveis para conseguir uma simples bebida também não ajudaram, com muita gente mais preocupada em matar a sede do que em aproveitar o concerto. E, tendo em conta as temperaturas que se fizeram sentir ao longo de todo o dia, é perfeitamente compreensível.
Ainda o sol mostrava os seus últimos raios no horizonte quando Serj Tankian, Daron Malakian, Shavo Odadjian e John Dolmayan subiram ao palco do Ippodromo SNAI La Maura. E não foi preciso esperar muito para que os gigantescos circle pits junto às primeiras filas começassem a formar-se. Bastaram os primeiros temas para transformar a frente de palco num autêntico turbilhão de poeira, suor e energia acumulada durante anos de espera.
Em pouco mais de uma hora e meia, os System of a Down dispararam 29 canções. Donos de um catálogo construído sobre temas curtos, incisivos e que raramente fogem ao confronto, os norte-americanos passaram a noite a colocar o dedo na ferida. Guerra, manipulação mediática, corrupção, violência, dependência ou alienação social, os alvos mudam de música para música, mas a urgência mantém-se a mesma. Sem editar qualquer álbum desde 2005, com os irmãos, “Mezmerize” e “Hypnotize”, os System of a Down continuam a depender quase exclusivamente do passado. O curioso é que esse passado continua a soar assustadoramente actual.
Sem editar qualquer álbum desde 2005, com os irmãos, “Mezmerize” e “Hypnotize”, os System of a Down continuam a depender quase exclusivamente do passado. O curioso é que esse passado continua a soar assustadoramente atual.
Talvez o segredo esteja na forma como estas canções foram construídas. Não há espaço para excessos, solos intermináveis ou refrões esticados até à exaustão. As músicas chegam, dizem ao que vêm e desaparecem antes de perder impacto. Umas fazem rir, outras incomodam, outras obrigam a pensar. Quase todas atacam algum alvo. Mudaram os protagonistas, mudaram os contextos, mas muitos dos problemas continuam exatamente os mesmos. Os System of a Down escreviam sobre guerras, desigualdades, manipulação e a normalização do absurdo numa altura em que poucos imaginavam o mundo hiperconectado e permanentemente acelerado em que vivemos hoje.
O resultado ao vivo é um alinhamento intenso e quase sempre em alta rotação. Depois de “Soldier Side”, temas como “B.Y.O.B.”, “Suite-Pee”, “Chic ‘N’ Stu”, “Prison Song” e “Violent Pornography” sucederam-se com uma intensidade difícil de igualar. Cada música entrava como um soco e saía antes que houvesse tempo para recuperar totalmente o fôlego.
O primeiro grande momento para abrandar surgiu com “Aerials”. Precisamente quando o sol se despedia de Milão, dezenas de milhares de vozes juntaram-se no pôr do sol mais bonito que vimos na cidade. Durante alguns minutos, a poeira, o calor e os circle pits deram lugar a uma rara sensação de tranquilidade antes de a banda voltar a carregar no acelerador. Mais tarde, esse mesmo papel coube a temas como “Lonely Day” e “Spiders”, que ajudaram a devolver a alma ao corpo depois de tanta intensidade. E arriscamos até dizer, sem qualquer intenção de iniciar um incidente diplomático com Itália, que se fosse em Portugal, os coros portugueses teriam conseguido elevar ainda mais esses momentos.
Se Daron Malakian assumiu o papel de mestre de cerimónias, incentivando o público e comandando o ritmo do espetáculo, Serj Tankian manteve-se, por vezes, na sombra, fiel ao seu estilo. Longe dos clichés do frontman rock, surgiu sereno e quase contemplativo, com a voz por vezes algo cansada, foi alternando entre melodias delicadas, explosões vocais e momentos de teatralidade que continuam a torná-lo uma das figuras mais peculiares do rock contemporâneo.
O motor desta máquina que liga e sustenta todo o universo dos System of a Down ao vivo continua a assentar em Shavo Odadjian e John Dolmayan, que em Milão entregaram uma prestação de enorme solidez técnica, confirmando-se como a espinha dorsal indispensável da banda.
O motor desta máquina que liga e sustenta todo o universo dos System of a Down ao vivo continua a assentar em Shavo Odadjian e John Dolmayan, que em Milão entregaram uma prestação de enorme solidez técnica, confirmando-se como a espinha dorsal indispensável da banda.
Odadjian mantém-se como uma âncora rítmica fundamental. Com a sua postura característica e a icónica barba entrançada, o baixista preenche o palco tanto visual como sonoramente, acrescentando profundidade às composições através de linhas de baixo que, apesar de nem sempre assumirem protagonismo, desempenham um papel essencial na sustentação dos riffs de Daron Malakian e nas constantes mudanças de dinâmica das canções.
Já Dolmayan mostrou-se extremamente concentrado no seu instrumento, executou um alinhamento exigente com uma precisão impressionante, navegando sem dificuldade pelas constantes mudanças de compasso, acelerações abruptas e quebras rítmicas que caracterizam o repertório dos System. A sua capacidade de manter a intensidade física e a consistência de execução ao longo de todo o concerto transformou-o num verdadeiro metrónomo humano, garantindo que o caos controlado da banda nunca perde coesão.
Do primeiro ao último tema, os System of a Down avançaram praticamente sem interrupções, terminando com “Sugar” sem necessidade de encore.
No final, apesar de sairmos dali com a sensação de privilégio por termos assistido a um concerto desta dimensão, saímos também com um sentimento difícil de ignorar. Passaram quase três décadas desde a edição do álbum de estreia dos System of a Down e, como já referimos, muitas das mensagens da banda permanecem desconfortavelmente atuais.
Em “War?”, lançada em 1998, a banda repetia «Of war, we don’t speak anymore». Em Milão, Serj Tankian alterou ligeiramente a frase e, a dada altura, ouvimos «Of genocide, we don’t speak anymore». Uma pequena mudança de palavras que acabou por transportar a canção para a realidade de 2026. As guerras continuam a fazer parte do nosso quotidiano. Dominam manchetes durante alguns dias, desaparecem dos ciclos noticiosos e regressam quando surge uma nova tragédia. O mais inquietante é que parecem já não provocar a mesma indignação coletiva. Acostumámo-nos às imagens, aos números e aos relatos. Normalizámos aquilo que nunca deveria ser normal. Mais uma bomba, mais um conflito, mais uma crise humanitária, encolhemos os ombros e seguimos com a nossa vida, à espera da próxima notificação. Malakian finaliza: «Remember to fight!»
Em 2005, em “Lost in Hollywood”, os System deixavam outro aviso: «You should’ve never gone to Hollywood / They find you / two-time you / Say you’re the best they’ve ever seen.» Durante o concerto houve outra pequena alteração na letra, mas com um significado enorme: «They take you, and rape you!» A crítica à indústria do entretenimento e às estruturas de poder que se escondem por detrás do brilho das luzes parecia exagerada para alguns quando a canção foi lançada. Hoje, depois dos escândalos que envolveram personagens como Harvey Weinstein, Jeffrey Epstein e tantas outras figuras influentes, percebemos que a realidade foi capaz de ultrapassar muitas das distopias imaginadas pelos músicos. E talvez ainda estejamos longe de conhecer toda a dimensão de um sistema construído sobre abuso, silêncio e cumplicidade.
«You should’ve never trusted Hollywood»
Pouco antes do final do concerto, Daron Malakian dedicou “Tentative” às crianças de Gaza e do Líbano. A pergunta central da canção, «Where do you expect us to go when the bombs fall?», continua sem resposta. Anos depois de ter sido escrita, continua a descrever a realidade de milhares de pessoas que vivem sob o peso da guerra e da destruição.
«No one’s gonna save us now. Not even God.»
Depois chega “Toxicity”. Uma música sobre desordem, alienação, caos social e uma sociedade incapaz de encontrar equilíbrio. Quando dezenas de milhares de pessoas gritam «Disorder! Disorder! Disorder!», não parece apenas o refrão de uma canção. Parece um diagnóstico, um espelho do mundo em que vivemos. E tudo isto faz com que os System of a Down continuem a ser uma voz necessária. A música continua a ser uma arma. Infelizmente, as suas canções não pertencem ao passado, não são peças de nostalgia destinadas a recordar os anos 90 ou os anos 2000, continuam assustadoramente actuais. Bandas como SOAD relembram-nos que não somos robots programados para cumprir regras, nem peões num jogo. Continuamos a ter a capacidade de questionar, de resistir e, acima de tudo, de não aceitar o mundo exatamente como nos é apresentado.
«DISORDER!»
Alinhamento
Soldier Side
B.Y.O.B.
Suite-Pee
Chic ‘N’ Stu
Prison Song
Violent Pornography
Aerials
I-E-A-I-A-I-O
Darts
Genocidal Humanoidz
Needles
Deer Dance
Radio/Video
Dreaming
Hypnotize
ATWA
Bounce
Suggestions
Psycho
Chop Suey!
Lonely Day
Lost in Hollywood
Tentative
Spiders
Forest
DAM
War?
Toxicity
Sugar