Depois do concerto no Coliseu do Porto, os Sigur Rós chegaram a Lisboa para mais uma imersão nas paisagens sonoras dos fiordes islandeses. A ilha transcendental encontrou no público português curiosas criaturas decididas a mergulhar profundamente nessas águas revigorantes.
O tom da noite anunciou-se logo quente, vestindo-se de vermelho para apresentar a banda de post e dream rock Sigur Rós, a Orquestra Sinfonietta de Lisboa e o Coro Ricercare. Quem deambulou, no passado dia 17, por este paraíso insular testemunhou o acordo tão amistoso entre o ser humano e o universo celestial, onde moram, especificamente, oito perfeitos álbuns cerzidos por mãos seráficas.
“ÁTTA” (oito), o oitavo degrau de ascensão ao céu, foi apresentado com poesia ao longo da noite, com espaço e peito para “Takk…”, que celebra vinte anos de existência, e para os demais álbuns que os Sigur Rós fizeram nascer de forma sublime, tornando os dois universos — o terrestre (público) e o transcendental (Sigur Rós) — um território uno. O céu uniu-se à terra numa ternura infinita, com dialecto próprio (hopelandic ou vonlenska) para entendedores desta viagem entre universos.
A sua música, tão perfeita quanto eterna, é o prazer que mergulha mais fundo no coração do Homem e que sussurra ao ouvido o nome e o sentido da ilha.
O bom começo da noite falou-nos através de “Blóðberg” (“ÁTTA”), e o mundo expandiu-se diante de nós. Passando por alguns temas majestosos vindos de “()”, “Takk…” ou “Ágætis byrjun”, os Sigur Rós relembraram-nos, passados tantos anos, que a felicidade é simples e frugal; para tal, apenas é preciso um coração igualmente puro e despojado de superfluidades. A combinação bem pensada da sua discografia assume-se como um cordão umbilical ainda não cortado.

O ambiente em palco fez jus ao paraíso que desceu à terra, com uma iluminação divinal que rasgou caminho até aos nossos olhos; todavia, a postura do público dividiu-se entre um murmúrio de fundo e uma audiência reverente, interrompida apenas por explosivas demonstrações de fervor. A combinação da Orquestra e do Coro tornou ainda mais solenes os temas dos Sigur Rós, que por si só já evocam um espaço cósmico. Foi o caso de “Starálfur”, que fez derramar grossas lágrimas aos comuns mortais.
Quase a terminar, espantaram-nos com o sol radiante de “Hoppípolla” — um clássico que ainda surpreende —, acompanhado pela estrondosa Orquestra e Coro, numa canção lenta, porém, selvagem que nos fez estalar as têmporas de felicidade.
“Avalon” (Ágætis byrjun) fechou a noite, remetendo para a mitologia associada à passagem para o além e à magia. Não se poderia esperar melhor desfecho do que este convite à ilha transcendental que, de tempos a tempos, nos seduz a entrar neste túnel de passagem de universos.

Os Sigur Rós passaram por Lisboa e falaram-nos de coisas eternas; o futuro ainda não nasceu, porém, ensinam-nos que é feito do mesmo material com que se forjam os sonhos. A sua música, tão perfeita quanto eterna, é o prazer que mergulha mais fundo no coração do Homem e que sussurra ao ouvido o nome e o sentido da ilha. O regresso a casa fez-se com asas nos pés, o saco lacrimal um pouco mais vazio, o coração a voar e a cabeça na ilha.
Takk, Sigur Rós.