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So Much Has Changed: a estrada de MARO

24/03/2026

Maro lançou o seu novo álbum, “So Much Has Changed”, a 27 de janeiro. Este disco assinala o início de um novo capítulo na carreira de uma das vozes mais singulares e respeitadas da música portuguesa contemporânea.

Há álbuns que se ouvem. Há outros que se percorrem.
É o que acontece com este novo álbum de MARO. Um álbum que parece uma estrada. Uma viagem.

Não é uma metáfora fácil de engolir, mas é simples de compreender. Basta ouvir as dez músicas que compõem esta obra de arte. O álbum parece comportar-se como uma viagem de carro ao entardecer. Há uma direção a seguir, um caminho a percorrer. Paisagens deslumbrantes observadas pela janela, que fazem com que haja aquela vontade, nem que seja a mínima, de continuar a conduzir, mesmo quando já chegámos ao nosso destino.

Ao chegarmos à última música, apetece-nos ouvir mais e mais. Mas antes de iniciarmos esta viagem, convém lembrarmo-nos de onde vamos partir.

De Linda-a-Velha para o mundo

O percurso de Mariana Secca inicia-se longe das grandes salas de concertos. Uma sala de aula em Linda-a-Velha. Quatro anos. Escola de Música Nossa Senhora do Cabo. Foi assim que MARO conheceu a música, e a música, com muita sorte, conheceu MARO.

Durante vários anos, a música coexistiu com outro possível futuro, a biologia. Mariana chegou mesmo a seguir o curso de Ciências e Tecnologias no secundário, ao imaginar uma vida dedicada ao estudo dos animais. A música, entretanto, acabou por falar mais alto, e ainda bem, mesmo não duvidando que ela seria uma ótima bióloga.

O álbum parece comportar-se como uma viagem de carro ao entardecer. Há uma direção a seguir, um caminho a percorrer. Paisagens deslumbrantes observadas pela janela, que fazem com que haja aquela vontade, nem que seja a mínima, de continuar a conduzir, mesmo quando já chegámos ao nosso destino.

Aos 19 anos, mudou-se para Boston, com o objetivo de estudar na Berklee College of Music, uma das escolas mais prestigiadas do mundo da música contemporânea. Depois de terminar o curso em Professional Music, mudou-se para Los Angeles e começou a construir a carreira tão singular que hoje conhecemos.

Nesse percurso, teve diversas surpresas. Cruzou-se com o músico britânico Jacob Collier, participou no seu álbum “DJESSE Vol.2” e integrou, mais tarde, a digressão mundial do mesmo.

Após alguns anos, a sua voz chegou a milhões através de “saudade, saudade”, canção com que venceu o Festival da Canção e representou Portugal na Eurovisão de 2022. Este deve ser o grande feito que levou a maioria a conhecer MARO. Lançou mais músicas nos entretantos e chegámos a um dos álbuns mais falados do ano.

A construção da arte

E então, a viagem começa. A primeira paragem intitula-se “I Owe It To You”. Esta música funcionaria como um abraço. Um abraço como quem agradece a quem já fez tanto, com muita gratidão, seja pelos pais, amigos ou até mesmo pelos encontros improváveis que alteram o rumo de uma vida.

Whatever I do, whatever I say / Whatever may come my way, I owe it to you.

Logo depois, surge a faixa que dá nome ao álbum, “So Much Has Changed”. Mais ritmada, olha para o passado sem cair na nostalgia pesada e triste das baladas comuns. Encara a mudança como algo inevitável e sereno, que devemos aceitar positivamente.

Em “Kiss Me” e “Feeling So Nice”, as melodias transparecem calma. Soam a conversas demoradas ao final da tarde. Ao longo do álbum, há um traço constante na escrita de MARO. O silêncio é tão importante quanto o som. Cada acorde parece deixar espaço para que a emoção se acomode.

Mas em “It Ain’t Over” e “Drown”, o álbum entra em terrenos diferentes. São canções sobre emoções persistentes, que se recusam a desaparecer só porque assim o desejamos. Em “Love’s Not to Beg”, o próprio título já antecipa o essencial, não há súplica no amor. Tal como a cantora o afirma, «For so long, I begged for your love / Only to find that’s not the way / Spent all my time feeling so grey / Crying away, No more, I say.»

Todo o percurso desemboca em “To Grieve You”, a despedida do álbum. Aqui, o luto não surge como um vazio absoluto, mas como transformação. Não como fim, mas como continuação, noutra forma. Como parte de um processo de crescimento. A música deixa no ar uma ideia delicada. A ideia de que perder alguém também nos pode ensinar a valorizar aquilo que permanece.

O álbum encerra-se assim, quase como quem abranda ao invés de parar. Quase como uma viagem que ainda não terminou.

Do estúdio ao palco

Há algo de curioso na música desta artista. A sua voz raramente procura dominar o espaço. Ela move-se entre os instrumentos, como se fosse apenas mais um deles. Um acompanhamento. Mas esse «acompanhamento» acaba por ser precisamente o centro desta arte.

A viagem de “So Much Has Changed” terá duas paragens especiais no dia 26 de março, no Coliseu dos Recreios, em Lisboa e dia 28 de março no Coliseu Porto AGEAS.. Antes de MARO subir ao palco, a noite começa com quatro nomes que abrirão o concerto, Manuel Rocha, Carbeau, Pedro Altério e Jasmine Jethwa.

Se o álbum é uma viagem, estes concertos prometem ser o momento em que todas essas paisagens ganham corpo. Talvez seja isso que torna “So Much Has Changed” tão particular. Não procura grandiosidade. É feito para ser escutado, não apenas ouvido.

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