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(c) Teresa Mesquita / Blend Media | Foto tirada no concerto em Lisboa

Suede no Porto & A Elegância Subtil do Desespero

21/03/2026

Os Suede regressaram a Portugal para data dupla. A Arte Sonora esteve no concerto do Porto que decorreu no dia 19 de Março.

Uma arena a meio gás pode ser muita coisa. Pode ser decepção, pode ser indiferença, pode ser o sinal de um mercado que ainda não aprendeu a reconhecer o que tem, ou uma agenda com muitos concertos e a carteira não estica. No dia 19 de Março, na Super Bock Arena, foi outra coisa: foi uma sala cheia das pessoas certas.

E foi exactamente isso que Brett Anderson transformou em combustível. Durante pouco mais de hora e meia, a distância entre o palco e uma arena meio vazia simplesmente deixou de existir. O passado e o presente dos Suede colidiram com uma força que poucos esperariam de uma banda com mais de trinta anos de carreira. Mas vamos por partes.

Edimburgo Aquece o Porto

A Swim School estreou no país de forma muito competente e saiu com a sala conquistada. O quarteto escocês, que lançou em 2025 o bom álbum homónimo, trouxe um indie rock de texturas enevoadas, algures entre o shoegaze e o noise pop, onde as guitarras de Lewis Bunting e Alice Johnson pairavam sobre uma base rítmica densa e pulsante. A voz de Alice tem aquela qualidade rara de parecer simultaneamente frágil e absolutamente segura de si mesma.

O set foi curto, mas cumpriu muito mais do que a função de aquecimento. Deixou no ar um clima de abertura emocional que os Suede viriam a explorar até ao limite. Influências autodeclaradas de Wolf Alice e Slowdive eram audíveis, mas a banda não se perde nelas. Há ali uma voz própria a construir-se. Destaque para as excelentes canções “Always On My Mind” e “Green Eyes”. Quando saíram do palco, a sala estava pronta para o que estava para vir.

O Presente Como Arma
As luzes diminuem lentamente. Um murmúrio atravessa a sala. Há sempre um instante antes do primeiro acorde em que tudo parece suspenso. Então surgem as primeiras batidas de “Disintegrate” e a sua introdução, acompanhada por um sample de vozes que parece ecoar a ansiedade e a fragmentação dos nossos tempos.

Connected… disconnected… connected… disconnected… CONNECTED… CONNECTED… CONNECTED!

Quando as guitarras irrompem, Brett Anderson entra em palco já em movimento, inquieto e felino como sempre, como se o palco fosse pequeno demais para a energia que carrega. O que fica claro desde os primeiros minutos é a intenção do alinhamento. Não é um concerto de nostalgia. “Antidepressants” vem a seguir, e o público, para surpresa de quem esperava que as músicas novas fossem recebidas com educada contenção, canta cada palavra como se fossem hinos de há vinte anos.

Fica evidente a saúde artística dos Suede. “Antidepressants” soa contemporâneo sem soar ansioso. Cru, nervoso, eléctrico. Uma banda que podia viver do mito e escolhe, em vez disso, continuar a arriscar. Que sorte a nossa.

“Trash”, “Animal Nitrate” e o Corpo como Instrumento
Quando chegam os clássicos, a arena encontra um segundo fôlego. “Trash” e “Animal Nitrate” transformam o Super Bock Arena numa espécie de ritual colectivo. Braços no ar, suor, a sensação física de que toda aquela energia precisa de ir a algum sítio. Brett desce para o meio da plateia, apoia-se nos braços dos fãs e continua a cantar como se aquilo fosse a coisa mais natural do mundo. E para ele, claramente é.

Neste ponto da noite, quem seguiu a tournée sabe que o território muda. As quatro músicas que preenchem este bloco rodam de concerto para concerto. No Porto assistimos a “We Are the Pigs”, “Personality Disorder”, “Sabotage” e “New Generation”. A título de curiosidade, em Lisboa as canções ouvidas foram “The Drowners”, “15 Again”, “Pale Snow” e “Indian Strings”. Um gesto subtil, mas revelador: mesmo dentro de uma estrutura tão afinada, os Suede recusam-se a ser completamente previsíveis.

Depois do território imprevisível, a banda regressou ao mapa com “Filmstar” e o forte lembrete de que aquela estética glam decadente nunca perdeu o veneno que corre em Brett. “Can’t Get Enough” surge em sequência e relembra que “Head Music” continua a ser um capítulo subestimado da discografia da banda. Um daqueles discos que merecem sempre nova escuta.

Uma Banda Que Respira Como Um Só Organismo

Parte da força deste concerto vem da química quase instintiva entre os músicos. À frente está Brett Anderson, o centro gravitacional de tudo. A voz continua carregada de drama e intenção, mas é o corpo que dita o ritmo do espetáculo. Nada nele é estático. Cada gesto parece prolongar a música, como se o compasso não terminasse nos instrumentos.

No baixo, Mat Osman sustenta o concerto com linhas elegantes e pulsantes, muitas vezes discretas, mas absolutamente essenciais. Há uma solidez silenciosa na forma como segura cada canção, como se estivesse sempre um passo atrás, exatamente onde precisa estar. Na bateria, Simon Gilbert conduz tudo com precisão e força. O seu toque é direto, sem excessos, mas nunca mecânico. É ele quem garante que a energia nunca se disperse, mantendo o concerto constantemente em movimento. Nas guitarras, Richard Oakes equilibra tensão e melodia com uma naturalidade impressionante. Ora rasga o som com agressividade controlada, ora constrói linhas delicadas que dão identidade às canções.

Juntos, funcionam como um organismo coeso, onde cada peça conhece o seu lugar, e onde o todo é sempre maior do que a soma das partes.

Há no seu toque ecos claros de uma geração inteira, como se parte do vocabulário do britpop continuasse, ainda hoje, a ser escrito nas suas guitarras muito depois do auge do movimento. Na outra ponta do palco, Neil Codling expande o universo da banda com teclados, sintetizadores e guitarras rítmicas. É um trabalho menos visível, mas absolutamente determinante para a profundidade e textura do som. Juntos, funcionam como um organismo coeso, onde cada peça conhece o seu lugar, e onde o todo é sempre maior do que a soma das partes.

O Coração do Concerto
Depois da descarga, o concerto encontra o seu lado mais íntimo. Vale mencionar que a Super Bock Arena não facilitou. Os ecos da cúpula cobram o seu preço exactamente aqui, nos momentos em que a banda mais sussurra. Mas eram os Suede. “June Rain” começa e a sala responde com um murmúrio quase cúmplice. Como o reconhecimento imediato de algo precioso. As luzes suavizam, as pessoas fecham os olhos e cantam como se estivessem entregues aquele momento.

“She Still Leads Me On” vem a seguir e o ambiente transforma-se numa coisa difícil de nomear. Não é exactamente tristeza, não é exactamente alegria. É qualquer coisa que vive entre as duas. Depois, “Shadow Self” devolve a alta voltagem ao recinto e fica claro como o material mais recente dialoga naturalmente com o romantismo sombrio dos álbuns clássicos. Não é uma rutura. É uma continuação honesta. Num momento de suspensão quase total, a banda recua e ficam apenas Brett e Richard. ‘The Wild Ones’ fica reduzida à sua essência mais crua: voz e guitarra acústica. A meio da música, até Richard desaparece. Brett canta a cappella. Sem amplificação, sem rede. A sala prende a respiração. É o momento mais vulnerável da noite e, paradoxalmente, o mais poderoso.

Brett canta a cappella. Sem amplificação, sem rede. A sala prende a respiração. É o momento mais vulnerável da noite e, paradoxalmente, o mais poderoso.

A Despedida Que Não Parecia Uma Despedida
Revisitam novamente “Head Music” e presenteiam o público com “Everything Will Flow”, que funciona como um instante de contemplação antes da reta final. “So Young” reacende a energia. “Metal Mickey” devolve a vibração crua dos primeiros anos. E quando começa a introdução de “Beautiful Ones”, qualquer distância que ainda pudesse existir entre palco e plateia simplesmente desaparece.

Há refrões que transformam arenas em salas de estar colectivas. Este é um deles. A banda sai de palco, mas o público não está pronto para deixar ir. E eles sabiam. No regresso, não há nostalgia fácil. Há afirmação. “Dancing with the Europeans” surge como um gesto final perfeitamente alinhado com o espírito desta fase da banda. É um olhar para o presente, vivido com intensidade máxima. Quando as últimas notas se dissipam, fica a sensação estranha de que o tempo passou demasiado depressa. E a certeza de que algumas bandas têm a capacidade rara de transformar um concerto numa experiência emocional completa. Os Suede continuam a ser uma delas. Com uma elegância que, ao que tudo indica, não tem prazo de validade.

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