Com uma setlist espontânea e perante um LAV esgotado, Tamino navegou pelas melodias do Crescente Fértil num concerto pautado por uma contemplação profunda. Para a viagem trouxe, essencialmente, “Every Dawn’s a Mountain” (2025) e alguns discos pedidos.
Descrever um músico como Tamino não é tarefa fácil. É daqueles artistas profundamente introspetivos que usam a música como uma extensão do seu ser. O resultado? Composições carregadas de uma sensibilidade e emotividade ancestral que remetem para a herança cultural do jovem músico. As comparações com nomes como Nick Drake e Jeff Buckley não são descabidas, afinal de contas também podemos encontrar nas suas melodias e letras uma certa melancolia aliada a uma sinceridade que se entranha na nossa audição. Mas, tal como muitos dizem que nunca mais haverá um novo Drake ou Buckley, o mesmo já se pode aplicar a Tamino. A sua linguagem musical apoiada numa voz que se situa entre o tenor e o barítono leva-nos numa viagem saudosista para com o exotismo. É como se através da sua música conseguíssemos ver e conhecer o Cairo e a Antuérpia, as duas cidades que definem a identidade cultural de Tamino.
Mas, afinal quem é Tamino? Para aqueles que desconhecem, Tamino é um músico com origens belgas do lado da mãe e egípcias do lado do pai. O seu gosto e talento para a música foi herdado do avô Muharram Fouad, um reconhecido cantor e ator egípcio. Criado a ouvir um pouco de tudo, desde The Beatles a Chopin, passando naturalmente pela música árabe de nomes como Umm Kulthum, a grande diva da música egípcia, Tamino sempre procurou não confinar o seu registo musical a uma única localização geográfica.
A sua estreia em Portugal aconteceu em 2023 no festival MEO Kalorama. Na altura subiu ao Palco Samsung, o terceiro em termos de dimensão e estatuto. Mas, isso não o impediu de ter à frente uma moldura humana considerável que, em grande parte, já conhecia o seu trabalho. Passados dois anos, Tamino mostra que cresceu no circuito indie, ainda que num contexto semi-underground. Já sabíamos que o músico tinha um culto de fãs fiel, mas confessamos que não esperávamos ver a sala 1 do LAV-Lisboa ao Vivo completamente esgotada para ouvir o “novo som do Nilo”, como proclamara a BBC em 2018.
A jornada em palco teve início ao som de “Every Dawn’s a Mountain” com os graves profundos de Tamino a aquecerem os ouvidos dos fãs enquanto o bordão dedilhado transmitia uma serenidade quase meditativa. Já “Raven” trouxe o primeiro vislumbre auditivo das melodias de corda friccionada apoiadas no maqam, o sistema modal utilizado da música árabe.
«Estou a experimentar algo diferente, o que significa que não existe uma setlist definida», explicou Tamino sobre o formato de concerto que iria apresentar. Apoiado na imprevisibilidade, Tamino devolve assim aos concertos ao vivo um formato de espetáculo que é muito apetecível. Hoje em dia são poucos os artistas que não apresentam uma setlist pré-definida, afinal de contas ajuda na manutenção de uma certa rotina que os músicos procuram ter na estrada. Mas, quando existe espaço para decidir as músicas em cima do palco ou até mesmo aceitar sugestões do público, como foi o caso, aí o concerto ganha toda uma nova dimensão.
Tamino soube assim levar-nos num encontro com a beleza, esse conceito estético que cada vez mais parece perder-se na música ocidental.
Alternando entre o seu peculiar Riversong Electric Oud, uma Gibson Sonex 180 Custom, uma resonator elétrica e uma guitarra clássica, Tamino consegue transformar e combinar várias geografias sonoras. Em “Sanpaku” somos transportados para o Próximo-Oriente com a sonoridade do oud de Tamino a seguir o trajeto de nomes como Naseer Shamma e Rabih Abou-Khalil. Por sua vez, “Willow” aproxima-se de um folk mais europeu com uma abordagem vocal diferenciada.
“So It Goes” deu início ao formato de discos pedidos que se prolongou com “My Dearest Friend and Enemy”, já com Tamino sozinho em palco, e que terminou com “w.o.t.h.”. No meio, “A Drop of Blood” enalteceu as qualidades de Tamino enquanto trovador árabe dos tempos modernos e “Tummy” apresentou-se como a exceção à regra com a sua sonoridade dream pop e que apesar de ser um desvio para Tamino não deixa de resultar no seu repertório.
Como um anoitecer que pinta os céus do Cairo, “Indigo Night” embalou-nos numa deambulação profunda e introspetiva. Ainda com o público num estado de trance Tamino ausentou-se do palco para pouco depois regressar para um muito celebrado encore. “Habibi”, o tema que lançou Tamino para as bocas do mundo, encantou os presentes com o seu refrão em falsete, demonstrando assim todo o potencial da sua incrível tessitura vocal. Mas, as despedidas ainda não estavam feitas. “Babylon” e “Smile” foram as músicas escolhidas para encerrar um concerto que nos deslumbrou como um passeio de felucca no Nilo. Tamino soube assim levar-nos num encontro com a beleza, esse conceito estético que cada vez mais parece perder-se na música ocidental.
