Tarja e Marko Hietala no Coliseu de Lisboa: quando o passado abraça o presente numa sintonia perfeita

Tarja Turunen e Marko Hietala, dois dos rostos mais importantes da era dourada dos Nightwish, trouxeram a Lisboa o seu reencontro em palco com a bem sucedida tour “Living The Dream Together”.

A tour que juntou Tarja Turunen e Marko Hietala no Coliseu dos Recreios, em Lisboa, no dia 29 de Janeiro de 2026, foi muito mais do que uma homenagem ao passado. Durante anos, os dois músicos finlandeses construíram uma das parcerias mais marcantes do metal sinfónico. Juntos, criaram duetos inconfundíveis e uma presença de palco capaz de cativar fãs em todo o mundo, tornando-se referência no género e consolidando a sua reputação. Quase duas décadas depois, decidiram unir forças novamente, não apenas para revisitar o que fizeram juntos, mas também para mostrar o que construíram separadamente em carreiras sólidas e reconhecidas.

Esta tour é, assim, uma experiência única para os fãs, reunindo duas das vozes mais icónicas do metal sinfónico numa noite que celebra tanto a história partilhada como a individualidade artística de cada um. Mais do que reviver uma era dourada, o concerto mostrou que Tarja e Marko continuam a escrever a sua música, lado a lado e de forma memorável.

O reencontro surgiu, assim, como consequência natural de uma relação artística e humana construída ao longo de décadas. Depois das saídas de ambos dos Nightwish, Tarja em 2005 e Marko em 2021, o respeito mútuo nunca se perdeu.

Mais do que reviver uma era dourada, o concerto mostrou que Tarja e Marko continuam a escrever a sua música, lado a lado e de forma memorável.

Marko Hietala trouxe para o palco a força das suas composições a solo e a solidez do seu baixo, interpretando canções que combinam intensidade, lirismo e influências de folk, rock progressivo e metal. A sua presença firme, a voz inconfundível e a ligação imediata com o público mostraram que o seu percurso individual continua a crescer. No Coliseu de Lisboa, o alinhamento centrou-se no seu mais recente álbum, “Roses From The Deep”, com temas como “Frankenstein’s Wife”, “Rebel Of The North”, “Proud Whore”, “Impatient Zero” e “The Dragon Must Die”. Tanto este novo álbum como o concerto evidenciam um Hietala em excelente forma e cheio de vitalidade.

O momento mais aguardado aconteceu, naturalmente, quando Tarja Turunen subiu ao palco para se juntar a Marko em “Left On Mars”, o single que os reúne, uma malha bem orelhuda. Mais do que nostalgia, esta interpretação mostrou cumplicidade e maturidade, provando que o reencontro é uma celebração do presente e da liberdade criativa que ambos conquistaram.

Depois de Marko, Tarja Turunen encheu o palco com o seu brilho inconfundível. Parece ter descoberto o elixir da juventude, não apenas na aparência, mas sobretudo na atitude. A sua voz poderosa continua inabalável, atravessando os anos com força e precisão, e a sua presença domina a sala com naturalidade. Ela canta, ela salta, ela dança, ela puxa pelo público. É daquelas artistas que qualquer fã gostaria que o seu ídolo fosse: carinhosa, sorridente, comunicativa, que olha nos olhos de cada pessoa e faz sentir que está ali verdadeiramente pelo amor à música, e não apenas por ser a sua profissão. Cada gesto, cada agradecimento, cria uma ligação genuína com o seu público. Esse carinho é partilhado também com os restantes elementos da sua banda. Tarja não é uma diva de nariz empinado e são vários os momentos em que interage com o baixista Doug Wimbish, baixista dos Living Colour, e os guitarristas Alex Scholpp e Julian Barrett.

A digressão passou por Lisboa numa fase particularmente simbólica da carreira de Tarja, pouco tempo depois da edição do seu primeiro álbum de êxitos, “Best of Tarja – Living the Dream”. O alinhamento refletiu esse momento com clareza, cruzando temas incontornáveis da sua discografia a solo com escolhas mais pessoais, que ajudam a perceber o percurso artístico e a maturidade conquistada ao longo dos anos.

Revisitou diferentes capítulos da sua carreira a solo, passando por canções amplamente celebradas como a arrepiante “I Walk Alone”, “Dead Promises” e “Until My Last Breath”, mas também temas menos frequentes em palco, como “500 Letters” e “Crimson Deep”.

No final, a sensação que ficou no Coliseu foi de que Tarja e Marko Hietala não vieram reclamar o que foram, vieram mostrar o que são. E foi nessa honestidade, mais do que em qualquer memória, que o concerto encontrou a sua verdadeira força.

Um dos momentos mais esperados desta tour acontece com a subida a palco, novamente, de Marko Hietala para o segmento conjunto. O bloco acústico trouxe uma mudança de escala ao concerto pela proximidade e pela atmosfera criada. Foi neste registo mais contido que Tarja e Marko revisitaram alguns temas associados aos Nightwish. Em formato acústico, viajámos entre “The Crying Moon”, “Eagle Eye”, “Feel for You” e “Higher than Hope”.

Com o regresso das guitarras eléctricas, o concerto voltou a ganhar peso e intensidade, com interpretações de “Slaying the Dreamer”, “Wishmaster” e “Silent Masquerade”, encerrando um momento que sintetizou na perfeição o espírito da noite: duas carreiras sólidas, um passado incontornável e um presente artístico vivido em plena sintonia. Marko voltaria a juntar-se para a lendária “Wish I Had An Angel”, editada em 2004.

No final, a sensação que ficou no Coliseu foi de que Tarja e Marko Hietala não vieram reclamar o que foram, vieram mostrar o que são. E foi nessa honestidade, mais do que em qualquer memória, que o concerto encontrou a sua verdadeira essência. A digressão trouxe-os para o mesmo espaço, não como personagens presos a um passado comum, mas como dois artistas conscientes do caminho percorrido e confortáveis com o lugar onde hoje se encontram.