The Chameleons, um dos mais importantes grupos do movimento post-punk mundial, regressaram a Portugal para dois concertos, em Lisboa e Porto.
A noite de calor (insuportável) de 18 de junho, no RCA Club em Lisboa, começou com os portugueses Decline And Fall, que apresentaram uma execução fiel do álbum “Scars and Ashes”, editado em abril. O concerto destacou-se pelo profissionalismo e coerência, com interpretações densas, contidas e atmosféricas.
Armando Teixeira, na voz, demonstrou domínio e presença. A sua interpretação foi intensa e emotiva, sustentando os temas com segurança, algo que não surpreende, tendo em conta o seu vasto percurso na música portuguesa. As guitarras de Hugo Santos [Process Of Guilt], embora contidas, criaram a base ideal para a proposta estética da banda. O trio completa-se com Ricardo S. Amorim, de quem é mais comum lermos as palavras, ou vermos os dedos no teclado a debitar biografias e artigos, mas que agora dispara os beats desta viagem sombria. Ao vivo, foi inevitável sentir a ausência de uma secção rítmica mais orgânica — bateria e baixo — que poderá dar mais corpo e dinâmica, levando potencialmente o projeto a uma nova fase de maturidade.
Destacaram-se “Lost Astray” e “As All Ends”, dois momentos em que o equilíbrio entre intensidade e melodia ficou particularmente evidente. Os Decline And Fall afirmam-se como uma banda sólida e experiente mas, curiosamente, assistir ao seu percurso em palco é como presenciar a lapidação de uma ideia sonora ambiciosa.
Quando os The Chameleons subiram ao palco, o RCA Club transformou-se. Durante 16 músicas, a banda conduziu uma viagem emocional e intensa, onde cada acorde parecia ecoar memórias antigas e afetos intactos.
A formação atual está em excelente forma. Todd Demma, na bateria, mantém uma base precisa e potente; Danny Ashberry, nos teclados, brilha na construção de texturas — e assumiu o baixo nas faixas finais com naturalidade; Stephen Rice completou o som com uma segunda guitarra segura e envolvente. Mas o centro emocional esteve entre dois nomes: Reg Smithies, com a sua inconfundível guitarra Hanley, e Mark Burgess.
No RCA Club, ficou claro: há bandas que envelhecem… e outras que apenas se tornam mais verdadeiras. E, nesta noite, a verdade foi sentida em cada nota.
Burgess mantém uma voz cheia, expressiva, com uma entrega emocional impressionante. Vive cada palavra que canta, com gestos amplos, olhos fechados — e, num momento de pura conexão, desceu até ao público para cantar lado a lado. Uma comunhão rara, autêntica.
A setlist foi uma verdadeira oferenda aos fãs: uma sequência que atravessou décadas e emoções — de “Pleasure and Pain” a “Tears”, de “Soul in Isolation” a “Swamp Thing” — com cada refrão cantado como se ainda fosse urgente. Mas foi no encore que a noite atingiu o seu clímax emocional.
Com “Monkeyland”, “Looking Inwardly”, “Second Skin” e, finalmente, “Don’t Fall”, banda e público tornaram-se um só corpo em movimento, pulsando ao ritmo de memórias partilhadas. E, como se não bastasse, o final trouxe ainda uma citação inesperada de “Rebel Rebel”, de David Bowie — uma reverência, um aceno, um abraço.
Quando Mark Burgess desceu para junto da plateia e cantou entre nós, não era nostalgia — era pertença. Foi arrebatador, íntimo, inesquecível.
No RCA Club, ficou claro: há bandas que envelhecem… e outras que apenas se tornam mais verdadeiras. E, nesta noite, a verdade foi sentida em cada nota.

























































