The Cramps: Henry Rollins e Ian MacKaye recuperam gravações perdidas de 1977 num álbum

The Cramps: Henry Rollins e Ian MacKaye recuperam gravações perdidas de 1977 num álbum

20/08/2026

Gravadas em 1977, durante as sessões que deram origem a “Gravest Hits”, estas gravações dos The Cramps permaneceram escondidas durante décadas. Agora, Henry Rollins e Ian MacKaye ajudaram a recuperá-las em “Gravest Gravy”, um álbum que revela a banda numa fase ainda embrionária.

“Gravest Gravy”, conjunto de gravações registadas em 1977 durante as sessões que deram origem a “Gravest Hits”, já está disponível para audição, recuperando material que permaneceu guardado durante décadas e que conta agora com a participação de Henry Rollins dos Black Flag e Ian MacKaye dos Fugazi no processo de recuperação.

As gravações foram realizadas em outubro de 1977 nos Ardent Studios, em Memphis, durante uma fase ainda muito inicial da banda. O material ficou preservado em sete rolos de fita de 1/4 de polegada, que foram entretanto transferidos por Brian Kehew. Henry Rollins ficou responsável pela seleção das faixas que integram o lançamento, enquanto Ian MacKaye e Don Zientara trataram da engenharia no Inner Ear Studios. A masterização ficou a cargo de Pete Lyman, no Infrasonic Sound.

“Gravest Gravy” permite ouvir os The Cramps num momento particularmente importante da construção da sua identidade. A banda desenvolvia então aquele som primitivo, cru e reduzido ao essencial que viria a tornar-se uma das suas principais marcas, partindo das raízes mais elementares do rock’n’roll e colocando o rockabilly no centro da equação.

O universo dos Cramps nunca se limitou, contudo, a uma única tradição musical. As novas gravações atravessam referências ao rockabilly, rock instrumental, soul, surf, psicadelismo e punk dos anos 1960, ao mesmo tempo que a imagética e as letras da banda recorrem a uma vasta coleção de referências da cultura popular, do cinema de terror e exploração à ficção científica, passando pela televisão nocturna e pela chamada “car culture”.

Em outubro de 1977, os Cramps entraram nos Ardent Studios, em Memphis, Tennessee, com o produtor e extraordinário «tradutor» da banda, Alex Chilton. A banda planeava gravar a sua canção “TV Set” como lado A, juntamente com outra faixa ou faixas. Chilton explicou-lhes que a sua forma preferida de trabalhar era fazer uma banda gravar muitas canções e, a partir daí, escolher as melhores. Felizmente para os fãs dos Cramps em todo o mundo, a banda fez exatamente isso.
Henry Rollins

Entre os principais atractivos de “Gravest Gravy” estão várias gravações que nunca tinham sido editadas desta forma. O álbum inclui versões de “Hungry”, originalmente gravada por Paul Revere and the Raiders, “Problem Child”, associada originalmente a Roy Orbison, e “Rocket In My Pocket”, de Jimmy Lloyd.

O disco recupera ainda versões iniciais de temas que viriam a integrar “Psychedelic Jungle”, o segundo álbum dos The Cramps, lançado em 1981. É o caso de “The Natives Are Restless”, aqui apresentada com letras diferentes, “Can’t Find My Mind” e “Rockin’ Bones”.

Outro dos destaques é “Weekend on Mars”, uma das favoritas entre os seguidores da banda e que, até agora, estava disponível oficialmente apenas através de uma gravação ao vivo incluída em “The Smell of Female”. A inclusão da versão de estúdio permite assim acrescentar uma nova peça ao percurso de um tema que os fãs conhecem sobretudo em palco.

O próprio conceito de “Gravest Gravy” reforça a ligação dos Cramps às fontes que alimentaram a sua linguagem musical. Desde o início, Lux Interior, Poison Ivy e os restantes elementos da banda procuraram escavar o passado da cultura popular para recuperar sons, imagens e referências esquecidas, transformando esses elementos numa linguagem própria, simultaneamente primitiva, estranha e provocadora.

A edição também recupera parte da estética visual associada à banda. A capa de “Gravest Gravy” apresenta uma fotografia da lendária Stephanie Chernikowski, fotógrafa responsável também pelas imagens das capas de “Gravest Hits”. No verso surge uma fotografia ao vivo de Godlis, captada em palco no CBGB, em Nova Iorque.

A participação de Henry Rollins e Ian MacKaye acrescenta uma ligação particularmente forte à história do punk norte-americano. Rollins, antigo vocalista dos Black Flag e figura central do hardcore, é há décadas um declarado admirador dos The Cramps. MacKaye, fundador dos Minor Threat e Fugazi, partilha essa ligação e esteve envolvido na engenharia do novo lançamento ao lado de Don Zientara.

“Gravest Gravy” é uma das mais puras coleções de música desenfreada e selvagem que alguma vez ouvirão, como Jerry Lee Lewis sem rédeas, como Elvis encontra Tarzan, como deve ser. Os Cramps foram uma das maiores bandas da história da música gravada e qualquer pessoa que os tenha ouvido ou visto sabe disso e vive segundo esta verdade groovy. Desde o início da banda até aos dias de hoje, os Cramps continuam a ter fãs cujo entusiasmo pela sua música transformadora nunca esmorece. Os Cramps fizeram esta música pelo amor ao Rock ’n’ Roll. Lux e Ivy fizeram este disco para vocês.
Henry Rollins

A recuperação de “Gravest Gravy” surge também num momento de renovado interesse pelos The Cramps. Considerada uma das bandas mais influentes e singulares do punk e pós-punk, a formação liderada por Lux Interior e Poison Ivy construiu uma identidade que continua a atravessar gerações, precisamente pela forma como conseguiu transformar referências aparentemente descartadas da cultura popular em matéria-prima para o seu próprio rock’n’roll.

A ligação dos The Cramps a novas gerações ganhou uma nova força em 2022, quando “Goo Goo Muck”, originalmente gravada por Ronnie Cook & The Gaylads e reinterpretada pela banda, foi incluída na série “Wednesday”, da Netflix. O tema voltou então a circular junto de um público muito mais jovem, quase meio século depois de os Cramps terem começado a construir o seu universo.