THE HIVES c ines barrau
(c) Inês Barrau

The Hives em Lisboa, Uma Noite de Puro Raw Power

06/11/2025

Review

The Hives
9/10
Snõõper
8/10
Yard Act
7/10
Ambiente
8/10
Som
8/10
Overall
8.0/10
Enough Is Enough
Walk Idiot Walk
Rigor Mortis Radio
Paint a Picture
Main Offender
Born a Rebel
Stick Up
Bogus Operandi
Hate to Say I Told You So
O.C.D.O.D.
I'm Alive
Here We Go Again
Countdown to Shutdown
Come On!
Tick Tick Boom
Legalize Living
Bigger Hole to Fill
The Hives Forever Forever The Hives

Numa dicotomia entre a finitude e a eternidade, os The Hives regressaram a Lisboa para mais uma lição performativa de garage rock e punk. Com a sua alta voltagem característica, a banda do carismático Pelle Almqvist voltou a ter o público na mão do primeiro ao último segundo do concerto.

Quem acompanha a lore dos The Hives certamente pensou que o álbum “The Death of Randy Fitzsimmons” (2023) seria o último da banda. Isto porque o desaparecimento desta personagem fictícia, criada pela banda para justificar as suas composições, levava a crer que o percurso dos The Hives em estúdio teria terminado. Mas, parece que além das doze composições que Fitzsimmons deixou para o seu requiem punk, ainda foram deixados mais alguns resquícios sonoros que acabaram no imprevisível “The Hives Forever Forever the Hives” (2025), um álbum cujo o título equipara a longevidade da banda sueca a algo sempiterno e que foi agora apresentado no Sagres Campo Pequeno.

Snõõper

Com as portas da arena a abrirem às 20:00 e o concerto dos Snõõper a começar quinze minutos depois, era fácil antecipar uma sala completamente despida. Ao início pensámos ter sido um lapso, pois geralmente as portas das salas abrem 1h antes do começo dos concertos, mas esta situação caricata acabou mesmo por confirmar-se.

Dentro do espectro do punk, os Snõõper são fiéis representantes do micro género egg punk ou devo-core. A sua música caracteriza-se por gravações e misturas lo-fi e uma sonoridade que vai buscar influências à new wave dos Devo.

Em palco aquilo que passou para o público foi uma performance à velocidade da luz, como se estivéssemos perante um concurso para ver quem é que toca a malha mais rápida. Liderados pela voz esganiçada de Blair Tramel, conseguimos reconhecer apontamentos interessantes na performance da banda, como a incorporação de elementos eletrónicos e o recurso a elementos cénicos como um semáforo e duas colunas gigantes falsas com focos de luz no lugar dos altifalantes a piscar constantemente.

Porém, a fraca qualidade sonora, assim como a mistura atabalhoada não permitiram um melhor discernimento auditivo. Talvez o concerto que a banda deu na Sala Socorro, no Porto, no dia anterior, tenha sido mais esclarecedor do potencial desta banda que tem vindo a abalar a cena punk underground. Em Lisboa, o momento alto foi sem dúvida na despedida, quando em “Running” Blair se transformou num fantoche gigante de um inseto verde, a mascote da banda, e foi para o meio do público dançar.

Yard Act

Nome em ascendência do indie rock/post punk britânico, os Yard Act têm sido uma presença assídua nos palcos nacionais nos últimos anos. Liderados pelo ativo James Smith, a banda chegou a Portugal com a missão de angariar mais fãs, afinal de contas o grupo conta apenas com seis anos de atividade e dois álbuns de estúdio.

Menos frenético que o concerto dos Snõõper, os Yard Act assentaram o seu concerto numa forte interação com o público em temas como “Rich”, “Dark Days” e “The Overload”. A reação não foi muito efusiva, mas no meio das milhares de pessoas que se deslocaram ao Campo Pequeno certamente que muitos saíram de lá como fãs da banda de Leeds.

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The Hives

Foi à boleia de uma vaga de bandas que está a levar o punk mais rasgado para o patamar das arenas, que inclui nomes como Idles, Turnstile e Amyl and the Sniffers, que os The Hives conseguiram dar esse salto em Portugal. E que salto que foi… Na última vez que os vimos em Lisboa, em 2023, tocaram no Capitólio. Esperava-se assim uma transição suave, e mais natural, com a passagem por salas como o Coliseu dos Recreios ou a Sala Tejo. Mas não, a banda sueca acabou mesmo por aterrar diretamente no Campo Pequeno para surpresa de muitos fãs.

Se o Campo Pequeno é a sala ideal para a tipologia de concerto que os The Hives apresentam? Não, mas isso já antecipávamos. Um concerto de The Hives é sempre efervescente, rasgadinho e bem suado e as salas que melhor captam essa essência, convertendo-a depois em algo mítico, são os clubes mais pequenos, ao estilo de um CBGB e 100 Club. Aqui não se trata de uma questão de ver ou não a banda a crescer, mas sim a ideia de que a intimidade, comunhão e entrega que se cria nesses ambientes tão propícios a um concerto de punk é única e irretratável noutro ambiente.

Ainda assim, a imensidão do Campo Pequeno não foi suficiente para desligar o frontman Pelle Almqvist da corrente durante todo o concerto. Com umas escadinhas bem posicionadas no centro do palco, Pelle mostrou-se sempre igual a si próprio com várias descidas ao pit para cumprimentar, incentivar e “berrar” as letras dos The Hives na cara dos fãs.

Com umas escadinhas bem posicionadas no centro do palco, Pelle mostrou-se sempre igual a si próprio com várias descidas ao pit para cumprimentar, incentivar e “berrar” as letras dos The Hives na cara dos fãs.

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Um espetáculo de arena como aquele que os The Hives apresentaram já exige alguma produção, mas, sendo os The Hives os reis do minimalismo cénico, já era expectável que não fôssemos presenteados com um espetáculo à la Parkway Drive. Além dos fatos, que já são imagem de marca da banda e que desta vez contaram com apontamentos luminosos sincronizados com a iluminação de palco, a banda apostou numa bateria com três bombos, apesar de só um estar operacional, para poder escrever nas peles de fora, a palavra “The”. Já suspensas por cima do palco estiveram cinco bolas, cada uma com uma letra, para formar a palavra “Hives”. Simples, mas esteticamente muito funcional, tendo em conta que todos estes elementos apresentavam um jogo de luzes sincronizado.

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Longe de ser um portento como fora o seu antecessor, “The Hives Forever Forever the Hives” apresenta-se como um álbum mais seguro. Aqui o elemento da imprevisibilidade não entra na equação, pois a seguir aos AC/DC, os The Hives são capazes de ser a banda mais previsível no que diz respeito à sonoridade dos seus álbuns, algo que não motiva queixas por parte dos fãs. Ao vivo também não é tão explosivo, e isso ficou comprovado logo na abertura do concerto com “Enough Is Enough”, single que relegou o petardo “Bogus Operandi”, do álbum “The Death of Randy Fitzsimmons”, para o meio da setlist.

O ambiente ainda estava a aquecer quando os The Hives decidiram atirar mais lenha para a fogueira ao arrancarem de seguida com uma das suas malhas de assinatura, “Walk Idiot Walk”. Em poucos segundos o público entrou em combustão ao entoar em uníssono o riff de guitarra enquanto se gerava uma espécie de pogo coletivo. «Estão a ver o último concerto da tour. Portanto vamos dar tudo», disse o frontman Pelle. Na verdade, este foi apenas o último concerto da leg 1 da tour europeia, mas percebemos imediatamente que esta tinha sido a primeira de muitas interações jocosas de Pelle para com o público.

A primeira malha mais rasgadinha, destinada aqueles que gostam de um bom jogo do empurra, foi “Paint The Picture”, que contrastou com o ritmo vincado de “Rigor Mortis Radio”. Cerveja a voar, algum crowd surf pontual e Pelle a percorrer incansavelmente as grades que separavam o público do palco foram um bom barómetro para aferir o nível de aprovação dos fãs.

À quarta música a guitarra de Nicholaus Arson começou a dar sinais de algumas falhas, não tanto para o público, mas mais para banda. O problema estendeu-se de forma intermitente por mais algumas música, mas Pelle descansou o público quando mencionou que tinham dois ninjas a resolver a situação, uma referência aos dois roadies que acompanham os The Hives. É certo que se isto tivesse acontecido a qualquer outra banda o constrangimento na sala face ao compasso de espera seria enorme, mas como estamos perante os The Hives, e Pelle é um mestre na arte das larachas, tudo passou sem grande aborrecimento.

Como qualquer banda que se preze, os The Hives também reuniram ao longo dos anos uma série de jogadas performativas que hoje em dia são indissociáveis dos seus concertos. Uma delas, e talvez a mais conhecida, é o jogo da estátua que a banda faz num momento que varia consoante a escolha da setlist. Em tempos foi com “Good Samaritan”, mas nesta tour a escolha recaiu em “Stick Up”. A ideia é sempre a mesma, criar um clima de tensão e de excitação no público para depois se dar uma libertação de energia.

«Na última vez que cá tocámos estavam metade das pessoas. Isso significa que estamos a ficar muito populares em Lisboa», disse Pelle ao recordar também o calor infernal sentido no concerto do Capitólio descrevendo-o como um dos concertos mais suados dos The Hives.

Apesar da sua transição para as arenas, os The Hives são daquelas bandas que apenas recorrem ao essencial em cima do palco e isso também se traduz na escolha do gear. Apesar da nossa posição algo afastada, vislumbrámos uma série de material que já tínhamos visto no concerto do Capitólio. Nicholaus Arson voltou a usar a sua Fender Telecaster Custom, Vigilante Carlstroem alternou entre a sua 1959 Epiphone Coronet e uma Epiphone Crestwood, e The Johan and Only utilizou o seu Fender Precision.  No que diz respeito aos amplificadores, e apesar da dimensão da sala os dois guitarristas recorreram a combos enquanto o baixista preferiu um mini half stack.

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Chegados a meio do concerto eis que fomos presenteados com aquele que para nós foi o momento mais alto de toda a performance, um back to back de “Bogus Operandi” e “Hate to Say I Told You So”. A primeira com a sua introdução a criar tensão e antecipação foi perfeita para uma explosão de energia, já a segunda, apresenta-se como o maior clássico dos The Hives, razão mais que suficiente para colocar os fãs num alvoroço com o seu singalong riff tocado de forma crua, mas precisa, por Nicholaus Arson.

Em todas as tours, os The Hives também escolhem uma música do seu repertório que seja rápida e imediata. O objetivo é sempre o mesmo, ver o público mexer-se de forma frenética. Se em tempos esse slot foi atríbuido a “Trapdoor Solution”, nesta tour é a nova “O.C.D.O.D.” que tem essas honras. Independentemente da escolha da malha, é sempre um momento de pura descarga punk que os fãs anseiam.

Na regressiva fomos desembocar em “Countdown to Shutdown”, com Pelle a dar as honras ao público para fazer a contagem até à descolagem sonora. Seguiu-se “Come On!”, e sendo esta a última data da leg 1 da tour, os The Hives tiveram a amabilidade de convidar os Yard Act e os Snõõper para cima do palco para berrar ao microfone as palavras de incentivo que dão título à malha.

Mas, como tudo na vida também o concerto dos The Hives tinha os seus segundos contados e foi com “Tick Tick Boom” que a banda explodiu por uma última vez, pelo menos antes do encore. Pelle ainda não estava totalmente saciado da interação com o público. Primeiro foi coroado em palco por uma fã e depois, bem ao estilo de Moisés, abriu um corredor para poder misturar-se com a sua gente. Já com a ponte da música a ser entoada em chamada e resposta, Pelle deu uma corrida desenfreada para as grades e em efeito dominó o corredor foi fechando-se até as metades se voltarem a unir em comunhão.

Já no encore foram desferidas de rajada “Legalize Living”, “Bigger Hole to Fill” e “The Hives Forever Forever The Hives”, esta última com o intuito de elevar e perpetuar uma instituição que tanto tem feito pelo garage rock e pelo punk sem nunca se vergar ao chamado mainstream. É caso para dizer “God Save The Hives!

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