the lemon twigs

The Lemon Twigs no LAV: Quando a Vida Te Der Limões, Toca Umas Malhas Jangle

Review

Voz
9/10
Banda
10/10
Som
7/10
Ambiente
6/10
Overall
8.0/10
My Golden Years
I've Got a Broken Heart
What You Were Doing
The One
In My Head
Church Bells
If You and I Are Not Wise
Flash in the Pan
Any Time of Day
I Wanna Prove to You
Peppermint Roses
They Don't Know How to Fall in Place
I Just Can't Get Over Losing You
Ghost Run Free
Bring You Down
Tired of Waiting for You (The Kinks Cover)
Leather Together
Corner of My Eye
Rock On (Over and Over)
When Winter Comes Around
How Can I Love Her More?
Good Vibrations (The Beach Boys Cover)

Jangle com sabor californiano, saltos estilosos à la Pete Townshend e várias trocas de cadeiras em palco, foi assim o regresso dos The Lemon Twigs a Portugal após a sua estreia em 2024.

A banda de culto do revivalismo power pop voltou a encher o LAV- Lisboa Ao Vivo de boas vibrações e levou-nos numa viagem sonora até ao Laurel Canyon dos anos 60.  Na primeira parte, o português Gorjão apresentou o seu álbum de estreia “E o Espetáculo Continua”.

A arte do revivalismo musical consegue ser matreira. Pegar em algo que já foi feito e conseguir reinventá-lo com alguma contemporaneidade não está, certamente, ao alcance de todos. Que o digam os Greta Van Fleet … Contudo, num circuito mais underground, existe uma banda que está a conseguir levar avante o seu jangle/power pop repleto de referências sonoras e estéticas dos 60s e 70s.

Os The Lemon Twigs podem já ser considerados uma banda de culto. Pouco falada no mainstream, mas com uma legião de fãs fiel e sedenta de malhas que lhes transportem para uma Los Angeles regida por uma contracultura musical, a banda dos irmãos D’Addario reencarna esse espírito sem que pareça algo ridículo, como acontece com algumas bandas que procuram recuperar o cenário musical de LA dos anos 80, e fazem-no porque acima de tudo se apresentam como excelentes músicos, multi-instrumentistas e com uma elevada sensibilidade para a arte de escrever uma boa canção com todas as camadas necessárias.

Já com cinco álbuns na carteira profissional, a banda tem cimentado a sua posição como um dos melhores grupos de harmonias vocais, tendo já recebido palavras de apreço de nomes sonantes como Elton John, Todd Rundgren ou Jack Antonoff. Sem truques, as performances dos The Lemon Twigs são um momento de puro de êxtase. Claro que não movem uma histeria, como ficou documentado na história de grupos como os The Beatles e os The Beach Boys, mas conseguem definitivamente causar um intenso entusiasmo interior a todos aqueles que ainda se deslumbram com a arte de escutar composições simples, mas refinadas.

Gorjão 

Após trilhar o seu caminho na cena indie com o Conjunto Júlio, João Maria Gorjão surge agora com um projeto a solo homónimo. A bordo do selo Cuca Monga, Gorjão editou o seu álbum de estreia “E o Espetáculo Continua”, em Fevereiro de 2025, que se apresenta como uma coletânea de malhas que vão desde o pop progressivo ao pop barroco.

Acompanhado por Tomás Simões no baixo, Martim Seabra na guitarra e João Carriço na bateria, Gorjão subiu ao palco do LAV numa noite onde comprovou que os sonhos tornam-se mesmo realidade. «Eu estive cá no ano passado desse lado e agora estou aqui em cima.», disse o músico numa das suas intervenções. E talvez tenha sido também devido a uma certa pressão de estar abrir para uma referência que o concerto começou com algum nervosismo. A voz algo trémula e o baixo demasiado alto na mistura trouxeram alguma indefinição nas primeiras músicas. Mas, quando chegámos a “Prazer” a confiança começou a subir e nunca mais desceu até ao fim do concerto. A dedilhar o seu teclado Studiologic SL73, Gorjão percorreu temas como “Niguém Está Pior Que Eu”, “Dizer Que Não”, “À Tanta Coisa”, este tocado a solo, e “Formiga” com a participação especial de José Maria Taful no saxofone. A reação do público foi tímida, mas certamente de aprovação para com este jovem-talento que está a conquistar o seu espaço na cena indie com composições arrojadas e orelhudas.

Vale a pena deixar também uma palavra de apreço para a Last Tour e os The Lemon Twigs por terem optado por um projeto local para fazer a primeira parte. Sem estes grandes apoios os nossos artistas independentes nunca poderão alcançar novos públicos e ter o reconhecimento que merecem.

The Lemon Twigs

Com uma estética visual que remete para a época explorada na sua música, os The Lemon Twigs subiram, mais uma vez, ao palco do LAV para apresentar dois trabalhos: o mais recente álbum da banda ” A Dream Is All We Know” (2024) e a estreia a solo de Brian D’Addario com “Till the Morning” (2025).

“My Golden Years”, do primeiro trabalho mencionado, deu o arranque. Saltos com guitarras a tiracolo , riffs jangle e harmonias angelicais estabeleceram a receita padrão para a 1h30m de concerto que os The Lemon Twigs tinham preparado. Aliando uma nostalgia abstrata, pois os elementos da banda nunca viveram durante o período que evocam na sua música, a uma performance explosiva, tornou-se impossível não ficarmos logo contagiados.

De “I’ve Got a Broken Heart” e “The One” a “Flash in the Pan”, o único tema do álbum de Brian D’Addario, sobressaiu a clareza das harmonias a quatro vozes e a articulação das guitarras dos irmãos. Brian teve como guitarra principal uma vistosa Gibson ES-335 de 12 cordas conectada a um Fender Blues Junior, já Michael usou e abusou da sua Rickenbacker 450 também ligada a um Blues Junior. Por sua vez, o baixista Danny Ayala recorreu a um Höfner 500/1, o famoso baixo violino.

Numa demonstração da sua polivalência enquanto multi-instrumentistas a banda presenteou-nos com um autêntico jogo de cadeiras. Danny trocou o baixo pelos teclados, Brian trocou a guitarra pelo baixo e Michael trocou de funções com o baterista Reza Matin e, verdade seja dita, que baterista que Michael é. Aparentemente mais à vontade que Reza, Michael entusiasmou-se nas fills e nos drumstick twirls e entregou uma performance cativante que obrigou Reza a elevar a fasquia. Mas, o jogo de instrumentos ainda não tinha terminado. Mais à frente foi a vez do baixo saltar para as mãos de Michael, enquanto Danny permaneceu nos teclados.

Nas baladas a voz de Brian sobressaiu pela sua riqueza tímbrica repleta de texturas.

Nas baladas a voz de Brian sobressaiu pela sua riqueza tímbrica repleta de texturas. “Any Time of Day” e, já no encore, “When Winter Comes Around”, demonstraram a apetência melódica do músico no falsette, mas também na voz de peito.

Outros momentos de destaque surgiram com a cover de “Tired of Waiting for You” dos The Kinks. Não é das malhas mais esgalhadas da banda britânica, mas tem uma progressão de acordes interessante. Já “Leather Together”, sobressaiu porque é uma música que foge para o campo do garage rock,  destacando-se por isso das demais pela sua agressividade.

No encore, como já tínhamos referenciado, Brian interpretou a solo a folky “When Winter Comes Around”. O tema acústico foi tocado numa Ovation com o músico a mostrar um domínio incrível no dedilhar dos acordes, ao mesmo que entoava uma melodia e letra comoventes, como só os grandes cantautores sabem compor.

Com “How Can I Love Her More?” a ser anunciada como a última música, prontamente ouviu-se do público um pedido para que a banda tocasse “Good Vibrations” dos The Beach Boys, uma das suas principais referências. Dado o recente falecimento do seu líder e compositor, Brian Wilson, a banda não teve como recusar tamanho pedido. E assim foi, rodeados de boas vibrações, os The Lemon Twigs encerraram o concerto com chave de ouro num tributo que certamente deixa Wilson profundamente orgulhoso de um legado que será para sempre preservado. Os The Lemon Twigs podem nunca vir a ter o estatuto dos The Beach Boys, mas só o facto de terem a aprovação de algumas das suas principais influências já é suficiente para que tudo até aqui tenha valido a pena.

PRÓXIMOS EVENTOS