The Police & Turnstile: As Sincronicidades Sonoras de "Never Enough"

The Police & Turnstile: As Sincronicidades Sonoras de “Never Enough”

17/07/2026

Em semana de concerto de Sting em Portugal, e já de olhos postos no regresso dos Turnstile a Lisboa no fim de Agosto, apresentamos aqui uma análise à influência que os The Police tiveram em vários temas do aclamado álbum “Never Enough”.

É verdade que os Turnstile têm no punk hardcore o seu ponto de origem, mas para a banda de Baltimore este género sempre foi apenas uma sugestão de catalogação. O hardcore nunca representou a totalidade do produto sonoro criado pelos Turnstile e a banda nunca o escondeu desde o primeiro álbum. Temas como “Blue by You” e “Love Lasso” de “Nonstop Feeling” (2015) ou os interlúdios “Bomb” e “Disco” de “Time & Space” (2018) já desvendavam um certo inconformismo para com a normas tradicionais do género, mas foi já com o explosivo “Glow On” (2022) que a banda nadou totalmente para fora de pé ao miscigenar o hardcore punk com o rock alternativo e o indie rock, gerando assim todo um novo interesse à volta deste género e subcultura.

Em “Never Enough” (2025), a banda decidiu jogar a mesma cartada, mas com a audácia de explorar ainda mais sonoridades e texturas que à partida não encaixariam na base agressiva dos seus temas. É certo que a influência de bandas pesadas continua presente, como é o caso das referências a Black Sabbath em “Slowdive”e a Bad Brains em “Sunshower”. Mas, nesta última, a banda decidiu contrastar toda a agressividade do tema com um momento de puro relaxamento e de introspeção graças ao solo de shakuhachi tocado por Shabaka Hutchings. Também em “Magic Man”, Turnstile leva-nos por caminhos sonoros etéreos, com sintetizadores atmosféricos capazes de colocar-nos num estado meditativo.

Porém, existe uma banda cuja influência sobressai em mais do que uma faixa de “Never Enough”. Falamos dos The Police, banda de rock britânica que durante a sua curta carreira fundiu géneros como o punk, o reggae, a new wave e a pop, criando assim uma identidade sonora muito própria e facilmente reconhecível. Seja num padrão rítmico reproduzido, num efeito sonoro decalcado ou na entrega vocal com um timbre que não deixa grandes dúvidas, esta é a análise de como os Turnstile homenagearam os The Police num dos álbuns mais impactantes do séc. XXI.

“When the World Is Running Down, You Make the Best of What’s Still Around” / “Seein’ Stars”

Foi com base no groove e na progressão de acordes de “When the World Is Running Down, You Make the Best of What’s Still Around” do álbum “Zenyatta Mondatta” (1980) que os Turnstile escreveram “Seein’ Stars”. O tema segue o mesmo padrão rítmico e apresenta uma progressão de acordes com uma estrutura semelhante. Na música dos The Police a progressão gira à volta de três acordes, com a repetição do terceiro acorde no quarto compasso da sequência. Esta progressão repete-se ao longo de quase todo o tema, dando assim um efeito hipnotizante, que é ainda acentuado pelo guitarrista Andy Summers através do uso do seu famoso pedal de efeitos Electro-Harmonix Electric Mistress, que dá à guitarra aquele efeito flanger tremeluzente com uns pozinhos de delay e chorus. Já na música dos Turnstile, o tema segue a mesma sequência rítmica, mas difere na sua progressão de quatro acordes. À semelhança do tema dos The Police, a progressão estende-se ao longo de quase toda a música, desaparecendo logo após o solo de guitarra. A mesma tipologia de efeitos utilizada por Andy Summers em “When the World Is Running Down, You Make the Best of What’s Still Around” é também aqui utilizada pelos guitarristas Pat McCrory e Meg Mills.

“Walking On The Moon” / “Look Out for Me”

Walking on the Moon” é o segundo single do álbum “Reggatta de Blanc” (1979). A música apresenta-se como um dos temas mais reggae do repertório dos The Police ao seguir uma estrutura rítmica fortemente assente num padrão sincopado e em contratempos. Aqui, além da masterclass de groove lecionada pelo baterista Stewart Copeland e do riff de três notas proveniente do baixo de Sting, o destaque vai novamente para o guitarrista Andy Summers. Mais uma vez, com recurso ao seu Electro-Harmonix Electric Mistress, que foi rebatizado com o titulo da música aquando do lançamento do modelo de assinatura do guitarrista, Summers cria uma textura espacial à volta de apenas um só acorde que nos deixa a levitar. Já em “Look Out for Me”, os Turnstile usam esse mesmo efeito de guitarra e o modelo de um só acorde para criar tensão na introdução da música. A acompanhar a tarola a rufar e o foor on the floor do bombo de Daniel Fang e ainda a nota pedal do baixo de Franz Lyons, temos Pat McCrory que toca o tal acorde isolado de forma espaçada com aquele efeito cintilante tão característico do Electro-Harmonix Electric Mistress. Aqui, a ideia é criar um certo clima de tensão até chegar ao ponto em que o tema extravasa para um riff explosivo, um efeito que ao vivo proporciona reações por parte do público muito interessantes. 

“Bombs Away” / “I CARE”

Quando falamos em timbres vocais distintos o nome de Sting é logo um dos primeiros a vir ao de cima. O músico apresenta uma textura vocal brilhante que consegue ser suave e ao mesmo tempo potente, sem demonstrar qualquer tipo de esforço ou discrepâncias. A sua abordagem afasta-se do vibrato exagerado e privilegia uma ressonância que sobressai ao longo de todo o seu repertório, mas especialmente na sua interpretação de obras renascentistas. Por sua vez, Brendan Yates, vocalista dos Turnstile, vem de uma escola completamente diferente. Não tão dotado tecnicamente, Brendan alterna entre a voz gritada e uma voz melódica reverberante com alguns apontamentos de whaling, uma abordagem vocal que o próprio Sting já explorou, por exemplo, no tema “Reggatta De Blanc” dos The Police. Em “Never Enough”, Brendan aproximou-se do timbre vocal de Sting combinando a sua ressonância com uma facilidade nata em navegar o registo mais agudo da sua voz.

Sting está de regresso a Portugal no dia 17 de Julho, no formato “Sting 3.0”, com um concerto há muito esgotado na Figueira da Foz. Já os Turnstile, regressam a Lisboa a 30 de Agosto para um concerto no festival MEO Kalorama 2026. Os bilhetes para este evento ainda podem ser adquiridos aqui.