(c) @SebastienNagy

The Weeknd: O menino de ouro regressou a Lisboa para encerrar a etapa europeia da tour milionária

07/09/2026

Review

The Weeknd
8/10
Som
8/10
Ambiente
8/10
Overall
8.0/10
Baptized in Fear
Open Hearts
Wake Me Up
After Hours
Starboy
Heartless
Faith
Cry for Me
São Paulo
Until We're Skin & Bones
Take My Breath
Sacrifice
How Do I Make You Love Me?
Eva
Can't Feel My Face
Lost in the Fire
Often
Given Up on Me
I Was Never There
Given Up on Me
The Hills
Timeless
RATHER LIE
Creepin'
Niagara Falls
One of the Girls
Stargirl Interlude
Out of Time
I Feel It Coming
Die for You
Is There Someone Else?
Wicked Games
Call Out My Name
The Abyss
Professional
Save Your Tears
Less Than Zero
Blinding Lights
Adaptation
House of Balloons
Moth to a Flame

The Weeknd regressou a Lisboa com uma versão actualizada e mais alargada do espectáculo apresentado em 2023, mantendo a mesma linguagem visual sombria. Música e cenário conseguem aqui dividir o protagonismo, criando novamente um espectáculo deslumbrante e cinematográfico. Abel Tesfaye voltou a provar porque é um dos artistas mais ouvidos do mundo e porque a “After Hours til Dawn Tour” se tornou numa das digressões mais rentáveis de sempre.

[Não foi permitido a nenhum fotojornalista fazer a habitual reportagem em fotografia]

Em junho de 2023, a primeira passagem europeia da “After Hours Til Dawn Tour” começou em Portugal, como relembrou The Weeknd, com um concerto único no Passeio Marítimo de Algés. Três anos depois, The Weeknd regressou a Lisboa para dois concertos no Estádio do Restelo, a 5 e 6 de setembro, encerrando a etapa europeia de uma das maiores digressões da actualidade. Depois de Lisboa, a “After Hours Til Dawn” segue agora para a Ásia, com passagem por Tóquio, Jacarta, Singapura, Seul, Banguecoque, Hong Kong e Kuala Lumpur, onde termina a 5 de novembro.

Fazia, por isso, sentido que fosse Lisboa a fechar este capítulo. Em 2023, a Arte Sonora esteve presente no início da aventura europeia, num concerto que ficou marcado por uma produção gigantesca, mas também pelas limitações do Passeio Marítimo de Algés para receber um espectáculo daquela dimensão. Em 2026, marcámos novamente presença, mas desta vez no Estádio do Restelo, numa versão actualizada da tour e a comparação tornou-se inevitável.

O concerto de 2026 não é necessariamente melhor ou pior do que o de 2023. É, essencialmente, o mesmo espectáculo, apresentando algumas alterações de cenário, mas com a mesma linguagem visual sombria e enigmática e uma estrutura muito semelhante. A grande diferença está no espaço e na setlist que incluiu, naturalmente, temas do novo álbum “Hurry Up Tomorrow”. Em relação ao espaço escolhido em 2026, o Estádio do Restelo permite que tudo aquilo que foi pensado para um espectáculo desta dimensão funcione com maior eficácia.

@SebastienNagy

Em Algés, a enorme estrutura cénica, a longa passerelle e a dimensão dos elementos visuais faziam com que uma parte significativa do público tivesse dificuldades em acompanhar o que acontecia no palco. Na altura, escrevemos que um estádio, com bancadas e diferentes níveis de visibilidade, teria sido muito mais adequado.

O espectáculo apresentado no Restelo recupera a cidade futurista, os enormes ecrãs, lasers, fogo e restantes estruturas monumentais, mas é a gigantesca escultura, desta vez dourada, de Hajime Sorayama que assume, novamente, o papel de verdadeiro elemento central da cenografia. Encomendada por The Weeknd especificamente para a “After Hours til Dawn Tour”, a obra, com cerca de 12 metros de altura, é considerada a maior peça de arte alguma vez criada por encomenda para uma produção de concerto. Criada pelo artista japonês, célebre pela sua série “Sexy Robot”, a escultura foi esculpida em poliestireno, fundida em Toyama, no Japão, e posteriormente revestida à mão a ouro. Os olhos iluminados por lasers e os efeitos de fumo tornam a figura ainda mais imponente, quase como uma entidade robótica que observa e domina o palco e o público. Mais do que um simples elemento cenográfico, a obra de Sorayama tornou-se numa das imagens mais marcantes da digressão.

@SebastienNagy

A dimensão cinematográfica do espectáculo continua a ser impressionante, com uma produção visualmente deslumbrante, marcada pelos demónios vermelhos dançantes, desta vez sem a presença da lua gigante. Ainda assim, para quem esteve em Algés em 2023, grande parte deste universo visual não constitui propriamente uma surpresa.

Também a presença da banda continua a ser fundamental. Apesar de grande parte dos músicos permanecer integrada na cenografia e de nem sempre estar no centro das atenções, o desempenho ao vivo acrescenta peso e dinâmica às canções. Bateria, guitarras, teclados e electrónica funcionam em conjunto para dar outra dimensão aos temas, sobretudo quando a produção visual deixa espaço para a música assumir o protagonismo.

Também a presença da banda continua a ser fundamental. Apesar de grande parte dos músicos permanecer integrada na cenografia e de nem sempre estar no centro das atenções, o desempenho ao vivo acrescenta peso e dinâmica às canções. Bateria, guitarras, teclados e electrónica funcionam em conjunto para dar outra dimensão aos temas, sobretudo quando a produção visual deixa espaço para a música assumir o protagonismo. E depois há o menino de ouro, Abel. E, respondendo já aos haters, The Weeknd canta ao vivo. Não há aqui lugar para playbacks, há uma voz com poder vocal e presença, capaz de sustentar um espectáculo desta dimensão. Claro que também há falhas, algumas notas menos conseguidas, momentos em que a voz não chega onde deveria, mas é precisamente isso que humaniza uma máquina de espectáculo tão meticulosamente construída.

O concerto arranca com a versão curta de “Baptized in Fear”, seguindo depois para “Open Hearts” e “Wake Me Up”. A máscara mantém a distância habitual da personagem criada para esta fase da carreira. Quando finalmente a retira, a transformação é imediata. O rosto deixa de estar escondido e aparece um The Weeknd mais descontraído, sorridente e comunicativo. É também aqui que o enorme aparato tecnológico encontra uma dimensão mais humana.

Tal como em 2023, Abel fala com o público, brinca, agradece e demonstra uma relação particularmente próxima com a plateia portuguesa. Lisboa e Portugal voltam a ser mencionados várias vezes e o artista mostra-se confortável naquele papel de estrela mundial que, apesar de toda a maquinaria à sua volta, consegue comunicar directamente com quem está do outro lado. «Vocês dão-me sempre muito amor!»

Essa dimensão humana é importante num espectáculo tão rigorosamente produzido e coreografado. Tudo está programado, mas nem tudo parece mecânico. A comunicação de Abel, os sorrisos, as reacções ao público e alguns momentos menos controlados ajudam a quebrar a sensação de estarmos perante uma enorme máquina de entretenimento.

Musicalmente, a viagem percorre “After Hours”, “Dawn FM” e “Hurry Up Tomorrow”, fechando o ciclo que marcou esta fase da carreira. Há espaço para os grandes êxitos, naturalmente, desde “Starboy”, “Can’t Feel My Face”, “The Hills” e “Blinding Lights” até “I Feel It Coming”, “Die for You” e “Save Your Tears”, mas também para temas mais recentes.

Em “São Paulo”, a participação do público na parte de Anitta é inevitável. O estádio responde em força a «bota na boca, bota na cara, bota onde quiser», num daqueles momentos em que a música deixa de pertencer apenas ao artista e passa claramente para a plateia.

O público, bastante participativo, acompanhou Abel com cânticos, gritos e uma presença constante dos telemóveis no ar. É também o retrato de uma geração cada vez mais agarrada ao ecrã, mesmo perante um espectáculo desta dimensão, muitas vezes mais preocupada em registar cada momento para depois o partilhar do que simplesmente em parar, olhar e viver o concerto com os próprios olhos.

O alinhamento também trouxe algumas surpresas. “Adaptation”, de “Kiss Land”, foi particularmente especial por ter regressado ao alinhamento da digressão, sendo apresentada ao vivo pela primeira vez desde 2014. Para quem acompanha a carreira de The Weeknd desde os primeiros anos, foi um daqueles momentos capazes de ligar esta gigantesca produção de 2026 ao artista que existia antes de toda esta dimensão.

O som esteve, de uma forma geral, à altura do espectáculo. Houve momentos em que a mistura pareceu excessivamente alta e em que alguns elementos perderam definição, mas nada que comprometesse seriamente a experiência. A potência sonora é necessária num espaço desta dimensão e, na maior parte do concerto, o equilíbrio funcionou.

Playboi Carti assegurou a primeira parte do espectáculo, num alinhamento que incluiu temas como “FE!N”, “Sky” e “CARNIVAL”. Mas a participação do rapper não ficou pela abertura. Carti regressou ao palco ao lado de The Weeknd para interpretar “Timeless”, antes de os dois recuperarem ainda “RATHER LIE”, tema originalmente de Playboi Carti, aqui apresentado como um dueto entre os dois artistas.

Por um lado, permite ouvir mais temas e atravessar diferentes momentos da discografia. Por outro, para quem prefere ouvir as canções completas, há momentos em que a sequência começa a funcionar quase como um longo medley.

Há ainda uma questão inevitável quando se olha para este alinhamento. Muitas das canções surgem em versões encurtadas, permitindo que The Weeknd percorra uma quantidade impressionante de material em cerca de duas horas. É uma opção que tem vantagens e desvantagens. Por um lado, permite ouvir mais temas e atravessar diferentes momentos da discografia. Por outro, para quem prefere ouvir as canções completas, há momentos em que a sequência começa a funcionar quase como um longo medley.

É uma questão de perspectiva e também de expectativa. Num espectáculo desta dimensão, a prioridade parece ser manter o ritmo e a narrativa visual em movimento, evitando longas pausas e garantindo que cada capítulo da carreira tem o seu momento.

E talvez seja essa a maior diferença entre assistir a este espectáculo agora e em 2023. Não foi propriamente uma reinvenção da “After Hours Til Dawn Tour” foi uma alargamento e uma amostra da evolução musical de The Weeknd nos últimos anos.

The Weeknd não precisa de escolher entre espectáculo e música, consegue fazer com que ambos coexistam, é nesta conjugação entre canção, performance e imagem que reside grande parte da força deste espectáculo.

A própria dimensão da digressão ajuda a perceber o fenómeno. “After Hours Til Dawn” já ultrapassou os mil milhões de dólares em receitas e os 7,5 milhões de bilhetes vendidos, tornando-se a digressão de maior receita de sempre de um artista masculino a solo. Em 2026, a tour continua a crescer antes de terminar na Ásia, depois de ter passado por dezenas de estádios europeus.

Lisboa surge assim num ponto particularmente simbólico. Foi aqui que a primeira etapa europeia começou em 2023 e é aqui que a etapa europeia de 2026 termina. Entre uma coisa e outra, The Weeknd deixou de ser apenas um dos maiores artistas da sua geração para se transformar numa das maiores máquinas de espectáculo da música pop contemporânea.

E há um pequeno detalhe que não passou despercebido em Lisboa. Em vários concertos desta etapa da “After Hours Til Dawn Tour”, incluindo o de Lisboa, elementos da equipa de segurança de The Weeknd estão a usar keffiyehs, tradicional lenço axadrezado que se tornou o principal símbolo da identidade, da unidade e da resistência do povo palestiniano. Um pormenor discreto, mas que acabou por ser notado por muitos fãs.

No encore, “House of Balloons” recupera uma das fases mais marcantes da carreira de The Weeknd, antes de “Moth to a Flame”, dos Swedish House Mafia, encerrar a noite com um gigantesco (e se calhar até excessivo) espectáculo de fogo de artifício. É um final pensado à escala de estádio, exuberante e explosivo, que transforma os últimos minutos do concerto num verdadeiro clímax visual.

Fica, então, a questão perante um espectáculo desta dimensão: será produção a mais, demasiado aparato, demasiados efeitos visuais e cinematográficos para uma noite que deveria, acima de tudo, ser sobre música? Será que as canções ficam em segundo plano perante uma máquina de espectáculo desta escala?

Não nos parece. The Weeknd é dono de um catálogo recheado de composições de qualidade e, ao vivo, essas canções continuam a revelar toda a sua força. A produção visual é gigantesca, sombria em tons de vermelho e azul, extremamente pensada, mas não se sobrepõe à música nem ao músico. Pelo contrário, complementa-a, amplia-a e cria uma dimensão visual para aquilo que estamos a ouvir. The Weeknd não precisa de escolher entre espectáculo e música, consegue fazer com que ambos coexistam, é nesta conjugação entre canção, performance e imagem que reside grande parte da força desta tour milionária.