Provocador, obsceno e chocante, assim foi o regresso de Till Lindemann a Portugal para apresentar a sua Meine Welt Tour 2025-2026. Após a passagem pelo EVIL LIVE 2025, Till reformulou o seu espetáculo a nível estético e performativo, mas sem nunca tocar na identidade artística explícita que tão bem conhecemos.
Quando pesquisamos o conceito de libertino no dicionário encontramos o seguinte significado: “Que ou quem revela um comportamento moralmente desregrado, centrado nos prazeres sexuais.” (PRIBERAM,2025)
Dificilmente encontraríamos melhor definição para descrever a persona artística de Till Lindemann, pois afinal de contas, no seu espetáculo não se aplicam os princípios morais que praticamos na nossa sociedade. Meine Welt, o nome desta tour, traduz-se, precisamente, para “o meu mundo”, o que nos leva a depreender que, com este espetáculo, Till pretende levar-nos numa viagem pelo seu universo degenerado, uma espécie de Nárnia obscura onde reina o libertinismo, a perversidade e a depravação.
Herdeiro da tradição literária de Donatien Alphonse François, Marquis de Sade e do conceito estético/artístico Gesamtkunstwerk (obra de arte total) do seu conterrâneo Richard Wagner, Till Lindemann transforma os seus concertos num espetáculo multissensorial que é hoje em dia muito mais reconhecido pelas suas expressões artísticas transgressivas e bizarras do que propriamente pela sua música.
Talvez tenha sido por isso que a MEO Arena se apresentou completamente despida, sem que meia sala estivesse sequer preenchida. É verdade que Till esteve em Portugal em Junho de 2025 e que muitos dos fãs dos Rammstein não se revêm tanto nesta tipologia de espetáculo mais obscena, mas este foi sem dúvida um balde de água fria para um artista cuja dimensão performativa exige salas lotadas.
Aesthetic Perfection
Liderados por Daniel Graves, os Aesthetic Perfection são uma banda que articula o nu-metal, o industrial e a eletrónica. Apesar do desconhecimento por parte da maioria do público, os Aesthetic Perfection não se estrearam em Portugal com este concerto na MEO Arena. Esse momento teve lugar no festival Entremuralhas 2014. Com a difícil função de aquecer o público para um dos espetáculos mais insanos alguma vez visto, Daniel Graves soube agarrar os fãs de Till com a sua vontade e persona enigmática a remeter para uma espécie de Fred Durst gótico. Muita da energia que passou para o público veio com a componente eletrónica das músicas e com os refrões fáceis de memorizar. Temas como “Rhythm + Control”, “Summer Goth” e “We Bring the Beat” foram ao encontro dessas valências e geraram reações positivas.
Till Lindemann
A ânsia em perceber que tipo de alterações ao espetáculo é que iriam ser feitas face ao concerto do EVIL LIVE era muita. À primeira vista, mal a cortina kabuki caiu, o que ficou evidente foi que Till quis manter o monocromatismo tanto na cenografia de palco como nos figurinos, mas, desta vez, com o vermelho a passar para um preto com apontamentos em dourado.
“Fat”, o primeiro de muitos temas resgatados do projeto Lindemann, um duo formado por Till e Peter Tägtgren, colocou em evidência outra das novidades desta nova produção, a componente da dança com duas freiras obesas, com contornos fantasmagóricos a fazerem strip e a dançarem num varão.
Um som encorpado e bem definido sobressaiu de imediato com os power chords mecanizados das guitarras e as pancadas fortes do baterista Joe Letz, mais uma vez em preparos kinky de cariz sadomasoquista. Na tela de fundo, a crítica social era feita através de imagens obscenas que nos sugavam a vista e a atenção, enquanto Till deambulava de um lado para o outro no seu estilo desvairado levando tripés de microfone à frente. Foi assim em “Und die Engel singen”. Em “Altes Fleisch” percebemos que as duas dançarinas seriam parte integrante de todo o espetáculo com intervenções na dianteira do palco para praticar dança do varão ou ao fundo sobre as plataformas elevatórias.
Apesar de Till não ter proferido qualquer palavra entre músicas, o concerto revelou-se dinâmico e com um encadeamento que prendeu a atenção do espectador como um filme r-rated, que o diga “Golden Shower”, esse tema que retrata exatamente aquele fetiche que estão a pensar. O choque visual da chuva dourada projetada na tela numa imagem dicotómica entre o artístico e o obsceno já tinha sido testado no EVIL LIVE, evento cuja idade mínima de admissão era de seis anos. Desta vez, com um concerto em nome próprio, Till já pode definir melhor a classificação do seu espetáculo que, com todos os momentos NSFW apresentados, só poderia ser mesmo para maiores de dezoito anos.
No meio de tanto deboche, “Sport Frei” e “Tanzlehrerin” até pareceram algo deslocadas, tal foi a sobriedade da sua performance face às restantes.
No meio de tanto deboche, “Sport Frei” e “Tanzlehrerin” até pareceram algo deslocadas, tal foi a sobriedade da sua performance face às restantes. A primeira, com a sua dinâmica upbeat retrata a dureza da vida de um desportista, já a segunda vai buscar elementos ao flamenco trazendo por isso para cima do palco uma dançarina para fazer par com Till num dos momentos mais paradoxais do espetáculo.
Nos concertos de Till Lindemann “Allesfresser” é sempre um dos momentos mais aguardados para aqueles que já sabem que vão chover coisas para o público, mas não para os que são apanhados de surpresa no sítio errado à hora errada. Com base numa projeção que retrata a gula, um dos sete pecados mortais, Till e o resto da banda aproveitam este momento para saciar o público com uma boa dose de tartes voadoras bem ao estilo de Steve Aoki.
Numa incursão pelo seu repertório cantado em inglês, “Praise Abort” trouxe à tona um tema sensível e particularmente polémico na atualidade portuguesa. Sempre com um tom jocoso, Till abordou o refrão da música com a sua postura de alienado incompreendido para gáudio de todos os fãs que, com o seu sentido de humor, conseguem não levar à letra cada palavra proferida. No fim, a transição para o tema seguinte foi feita com o riff da malha a ser tocado numa versão de música de elevador dando assim azo a mais um momento de puro gozo.
De seguida, “Platz Eins” transportou-nos para o ambiente de uma discoteca berlinense com um conjunto de luzes arco-íris. Till aproveitou este momento para dar a sua habitual volta entre o público, desta vez numa bola insuflável gigante, numa ação que fez lembrar os passeios de barco que os Rammstein fazem nos seus concertos.
Já “Skills in Pills” focou o protagonismo em Joe Letz, com o baterista a erguer-se numa plataforma a uns bons metros do solo. Letz não é propriamente o baterista mais técnico, mas é a assertividade das suas pancadas aliada a uma teatralidade única, que faz da sua prestação todo um espetáculo à parte, como aliás comprova “Fish On”, momento em que Letz se colocou de gatas para que lhe fossem retirados alguns peixes de um orifício corporal. De seguida foi a vez de Till enviar umas quantas amostras para o público através de uma catapulta, culminando num arremesso de um pescado de dimensões consideráveis.
Após tamanha demonstração de algo tão asqueroso e fascinante, foi já sem grande aparato que passaram por nós “Übers Meer” e “Knebel”. Para o fim, ficou guardado “Ich hasse Kinder”, esse hino que nos anos 80 seria com toda a certeza travado pelo PMRC (Parents Music Resource Center), assim como todo o restante repertório de Till. Na MEO Arena como não estavam crianças presentes, todos se sentiram à vontade para berrar o seu refrão. Já nos agradecimentos finais notou-se na cara de cada interveniente um certo alívio por terem conseguido cumprir com mais uma data deste exigente espetáculo. Por parte do público veio o merecido reconhecimento com uma longa chuva de palmas, que culminou naquela que foi a única intervenção falada de Till, um sentido «obrigado».





















































































