Tool: 30 anos depois, “Ænima” continua felizmente tão irreverente e refrescante como em 1996

18/09/2026

Muito do que aqui vamos escrever não será novidade para quem conhece bem os Tool. Mas 30 anos de “Ænima” são uma boa desculpa para voltar a um disco que ainda guarda partidas, referências e detalhes para descobrir, felizmente tão fresco como em 1996, uma obra-prima de composição e imagética.

A 17 de setembro de 1996, os Tool editavam “Ænima”, o segundo álbum de estúdio da banda e o disco que consolidaria a sua capacidade de transformar metal, rock progressivo, experimentação e uma boa dose de humor negro numa coisa difícil de catalogar, quanto mais de engavetar. Gravado entre setembro de 1995 e março de 1996 no Ocean Way, em Hollywood, e no The Hook, em North Hollywood, o álbum foi produzido por David Bottrill em conjunto com a própria banda e posteriormente misturado no Larrabee Sound Studios.

Bottrill tinha recentemente colaborado com nomes como Peter Gabriel e King Crimson, enquanto os Tool chegavam ao estúdio depois do impacto de “Undertow”, de 1993. A banda tinha entretanto mudado de baixista, com Justin Chancellor a substituir Paul D’Amour, e estava a entrar numa fase em que as canções começavam a ganhar mais espaço, mais camadas e estruturas ainda mais ambiciosas. O resultado foram 77 minutos de música que podiam ser brutais, atmosféricos, progressivos, desconfortáveis ou meio absurdos, por vezes tudo na mesma faixa.

O estatuto de “Ænima” também se mede pelas listas onde foi parar ao longo dos anos. A Rolling Stone colocou-o em 18.º lugar nos seus 100 Maiores Álbuns de Metal de Sempre, numa lista publicada em 2017, enquanto a Kerrang! colocou-o em 6.º lugar numa lista dos álbuns mais influentes de sempre, publicada em 2003. E há uma distinção particularmente interessante para quem olha para o disco através das guitarras: numa votação da Guitar World/Total Guitar realizada em 2022, “Ænima” ficou em 9.º lugar entre os grandes álbuns de guitarra dos anos 90, numa votação que reuniu mais de 150 mil votos.

“Ænima” também não se limita a ser um álbum para ouvir. A produção, o artwork, os interlúdios, os títulos e os pequenos jogos escondidos no disco fazem parte da experiência. É um trabalho pensado ao pormenor. Trinta anos depois continua a ser um dos grandes álbuns alguma vez gravados.

O próprio título mostra o lado mais criativo dos Tool. “Ænima” junta “anima”, o conceito da psicologia de Carl Jung, com “enema”, o procedimento médico para limpar o intestino. Neste artigo relembramos alguns dos factos mais curiosos do álbum.

Jung, cromossomas e a sombra & Bill Hicks
“Forty Six & 2” é talvez o exemplo mais evidente dessa mistura. O título recupera uma ideia pseudocientífica segundo a qual a humanidade poderia evoluir de 46 para 48 cromossomas: “Forty six and two ahead of me”. A teoria não tem fundamento na genética humana, mas ao que tudo indica serviu aos Tool como ponto de partida para uma ideia muito mais próxima da psicologia de Jung: a “sombra”, o conjunto de aspectos da personalidade que tendemos a esconder, rejeitar ou evitar. Na canção, essa transformação é apresentada como um processo de confronto com essa sombra. Não é propriamente uma aula de biologia, mas uma utilização deliberadamente simbólica de uma teoria que circulava nos universos da metafísica e da espiritualidade.

Se Jung fornece parte do vocabulário psicológico de “Ænima”, Bill Hicks dá-lhe uma espécie de consciência crítica. O comediante norte-americano, que morreu de cancro em 1994, era amigo da banda e uma influência assumida de Maynard James Keenan. Os Tool dedicaram-lhe o álbum e fizeram questão de o manter presente na sua arquitectura.

A ligação é particularmente evidente em duas das faixas mais importantes do disco. “Ænema” recupera a famosa visão de Hicks de uma Califórnia a desaparecer no Pacífico, deixando para trás uma nova “Arizona Bay”. A imagem pode parecer apenas uma piada destrutiva contra Los Angeles, mas a ideia de Keenan parece ser mais abrangente: imaginar o que aconteceria se tudo aquilo que conhecemos fosse destruído e tivéssemos de começar novamente.

É uma diferença importante. A Califórnia de “Ænema” não é apenas um alvo, é uma espécie de símbolo de uma sociedade que precisa de ser desmontada para poder começar de novo. «Learn to swim», repetido na canção, transforma a piada de Hicks numa provocação dos Tool.

Depois em “Third Eye”, a faixa que fecha “Ænima” e uma das experiências mais ambiciosas do álbum. A música começa com a voz de Hicks e transforma a sua ideia de expansão da consciência num longo exercício musical, com a banda a construir lentamente uma viagem de quase 14 minutos.

A relação entre Hicks e os Tool também ajuda a perceber por que razão o humor é tão importante neste disco. Hicks conseguia pegar em assuntos sérios, desmontá-los através do sarcasmo e, no processo, obrigar o público a pensar sobre eles de outra maneira. Os Tool fazem algo semelhante com a música: podem estar a falar de espiritualidade, evolução ou consciência e, poucos minutos depois, transformar uma receita de bolachas numa marcha satânica.

Bill Hicks faleceu antes de “Ænima” chegar às lojas, mas a sua presença no álbum fez com que a sua voz ficasse para sempre associada a uma das fases mais importantes da história dos Tool. A presença de Hicks não é, por isso, apenas um easter egg, faz parte do imaginário de “Ænima”, tanto nas letras como no universo visual que rodeia o disco.

David Bottrill e o salto sonoro
A escolha de David Bottrill para produzir “Ænima” foi importante para a evolução sonora dos Tool. O produtor e engenheiro  já tinha trabalhado com artistas como Peter Gabriel e com os King Crimson, trazendo para o projecto uma experiência particular no tratamento de instrumentos, ambientes e produções complexas. Os créditos do álbum atribuem a Bottrill não apenas a produção, mas também a engenharia e a mistura.

O salto em relação a “Undertow” não está apenas numa produção maior ou mais pesada. Está na quantidade de espaço que os Tool passam a ocupar. A bateria de Danny Carey ganha uma dimensão quase física, o baixo de Justin Chancellor torna-se uma peça central da arquitectura das canções e Adam Jones trabalha riffs que tanto podem funcionar como paredes de som como abrir enormes espaços dentro das músicas.

“Stinkfist”, “Eulogy”, “Forty Six & 2”, “Pushit” e “Third Eye” mostram diferentes lados dessa evolução, mas todos pertencem claramente ao mesmo universo.

“Ænima” foi o primeiro álbum de estúdio dos Tool com Justin Chancellor. O baixista entrou na banda depois da saída de Paul D’Amour, em 1995, e acabou por tornar-se uma das peças fundamentais da identidade sonora que os Tool desenvolveriam a partir daqui.

A transição, no entanto, não significou apagar tudo o que tinha sido construído antes. D’Amour recordou posteriormente que chegou a mostrar a Chancellor alguns dos sons que tinha desenvolvido para a banda, incluindo a utilização de oitavas, Whammy e phasers.

Isso ajuda a perceber por que “Ænima” não soa como uma ruptura completa com “Undertow”.


Um olho que se mexe

É aqui que entra uma das grandes curiosidades visuais de “Ænima”. As edições norte-americanas em CD foram apresentadas numa caixa lenticular, um sistema que permitia criar uma espécie de animação quando a imagem era vista de diferentes ângulos. O trabalho visual partiu de obras do artista Cam de Leon, incluindo “Ocular Orifice”, na qual a pupila de um olho parece deslocar-se dentro da imagem.

E é difícil não pensar mais umas vez em “Third Eye”. A ligação entre o olho da embalagem e a faixa que encerra o álbum nunca foi apresentada pela banda como uma explicação oficial para o efeito visual. Mas a associação tornou-se uma das mais persistentes entre o artwork e o conteúdo de “Ænima”. Inclina-se a caixa, o olho mexe-se. E, de repente, o título da última faixa parece ainda mais apropriado.

“Die Eier von Satan” é provavelmente a piada mais elaborada do álbum
A faixa é declamada em alemão com uma cadência quase militar, criando a sensação de que estamos perante algum manifesto particularmente sinistro. Só que as palavras são, na realidade, uma receita para bolachas com haxixe. O título pode ser traduzido como “Os Ovos de Satanás”, embora “Eier” também possa ser usado coloquialmente em alemão para “testículos”. E existe ainda uma última camada de ironia: apesar do nome, a receita não leva ovos.

É um daqueles momentos em que os Tool conseguem construir tensão, deixar o ouvinte convencido de que percebeu o que está a acontecer e depois puxar-lhe o tapete. Menos sofisticado, mas igualmente eficaz, é “Useful Idiot”. O interlúdio reproduz o som de uma agulha a saltar num disco e, na edição em vinil, foi colocado no final do Lado A. Uma pequena partida para quem estivesse a ouvir o álbum em casa.

Um álbum que chegou ao segundo lugar

“Ænima” estreou no segundo lugar da Billboard 200, vendendo cerca de 148 mil cópias na primeira semana nos Estados Unidos. Em 2003, recebeu a certificação de tripla platina da RIAA. “Ænema” recebeu o Grammy de Melhor Interpretação de Metal em 1998.

O reconhecimento não ficou apenas pela música. O trabalho visual do álbum também foi nomeado para Melhor Embalagem de Gravação, o que acaba por fazer sentido num disco onde a apresentação física fazia parte da experiência.

Musicalmente, “Ænima” reúne alguns dos temas mais duradouros do catálogo dos Tool. “Stinkfist” abre o disco com uma das suas faixas mais reconhecíveis, “Eulogy” e “H.” aprofundam a vertente mais introspectiva, “Forty Six & 2” transforma uma teoria pseudocientífica numa metáfora de transformação, “Hooker with a Penis” dispara contra a relação entre artistas e indústria, “Pushit” ganha nova dimensão em estúdio e “Third Eye” fecha a viagem com uma construção longa e progressiva, acompanhada pelos samples de Bill Hicks.

É um álbum pesado, mas também estranho no melhor sentido, meticuloso sem ser excessivamente explicativo e suficientemente aberto para continuar a provocar novas leituras.

30 anos depois, “Ænima” continua felizmente tão irreverente e refrescante como em 1996.