Neste dia triste para a música portuguesa, recordamos um dos momentos mais bonitos da música enquanto elemento agregador de uma causa: “Timor”, dos Trovante.
Luís Represas deixou a música portuguesa de luto. Fica a voz, a memória e também uma canção que uniu um país a uma causa.
Ao longo de décadas de carreira, a solo e à frente dos Trovante, Luís Represas deixou-nos várias canções icónicas, mas poucas ganharam uma carga simbólica tão forte quanto “Timor”, tema que se transformaria num símbolo do apoio português à causa da independência timorense.
A génese do tema remonta a 1988. Nessa altura, João Gil escreveu um fundo instrumental para “Flores Amargas”, produção de Margarida Gil ligada à situação de Timor. Essa primeira versão resumia-se a uma melodia acompanhada por um coro em tétum, com a frase “Ai Timor, ai Timor”, ainda sem letra própria.
A canção só ganharia forma definitiva dois anos depois, durante as sessões de gravação do disco “Um Destes Dias” (1990). Represas contou várias vezes, em entrevistas, o episódio que motivou a escrita da letra: durante uma viagem do Papa João Paulo II à Indonésia e a Timor, em 1989, o pontífice cumpriu o gesto tradicional de beijar o chão ao desembarcar em Jacarta, mas não o repetiu ao chegar a território timorense. Esse contraste terá sido o estímulo que levou João Monge a compor os versos que dariam à música o seu significado definitivo.
Naquele período, a questão de Timor tinha pouco espaço nos meios de comunicação portugueses. Foi nesse contexto de silêncio mediático que os Trovante decidiram dar voz, através da canção, à resistência de um povo que lutava para preservar a sua identidade e conquistar a autodeterminação.
Mais tarde, o movimento de solidariedade ganharia uma das suas imagens mais marcantes com a formação de um cordão humano em várias cidades portuguesas em apoio a Timor-Leste. Quem esteve presente guarda a memória de avenidas tomadas por multidões de mãos dadas, num raro momento de união nacional em torno de uma causa distante geograficamente mas próxima emocionalmente. Para quem viu pela televisão, ficaram gravadas cenas de grande impacto visual, que ajudaram a transformar aquela mobilização numa referência da memória coletiva portuguesa.
Com o tempo, “Timor” ultrapassou o que os próprios autores alguma vez imaginaram. Tornou-se um dos pontos altos dos concertos da banda, sobretudo depois de novembro de 1991, quando forças militares indonésias dispararam contra manifestantes civis em Díli, no episódio que ficou conhecido como o Massacre de Santa Cruz. A partir desse momento, a canção passou a estar indissociavelmente ligada à luta timorense e ao crescimento da solidariedade internacional para com o território.
Represas sempre fez questão de sublinhar que a intenção original nunca tinha sido criar um hino de intervenção política, mas sim despertar a consciência dos portugueses para uma realidade que passava despercebida. Ainda assim, foi exatamente esse papel que a canção acabou por assumir, tornando-se uma das obras de referência da música de intervenção portuguesa das últimas décadas.
O compromisso do músico com a causa timorense foi muito além da canção. Em 2000, a convite do então Presidente da República Jorge Sampaio, integrou uma comitiva oficial em visita a Timor-Leste. Mais tarde, o Estado timorense reconheceria esse contributo atribuindo-lhe a Medalha da Ordem de Timor-Leste, pela sua ligação à divulgação da causa e pela aproximação entre os dois povos.

No dia da sua morte o governo de Timor-Leste divulgou as suas condolências onde se lê: «Foi com elevada consternação que tomamos conhecimento do falecimento de Luís Represas, um amigo de longa data de Timor-Leste. Luís Represas dedicou a sua vida à música e ao longo de décadas congratulou-nos com uma carreira musical ímpar. No grupo musical “Os Trovante”, o seu caminhou cruzou-se com o caminho dos timorenses. No ano de 1990, com a canção “Timor”, composta por João Monge e João Gil, Luís Represas deu voz aos que não podiam contar ao mundo as atrocidades de que eram vítimas durante o período da ocupação indonésia. Esta canção tornou-se então símbolo da luta pela liberdade e pela autodeterminação do povo timorense, contra a injustiça que lhe era infligida.Foi cantada em manifestações e vigílias, por crianças e adultos, representando a solidariedade com a luta do povo timorense.»
Décadas depois de ter sido escrita, “Timor” continua a ser uma das peças centrais do reportório dos Trovante e um dos maiores símbolos da solidariedade portuguesa com a luta pela independência timorense. Com a morte de Luís Represas, a canção ganha agora um significado renovado, testemunho de como a música pode ajudar a mobilizar consciências e a preservar a memória de um povo.