Os UHF levaram ao Lisboa Ao Vivo um concerto fora do guião habitual, mergulhando no lado menos evidente do seu reportório e provando que, décadas depois, continuam a reinventar a sua própria história em palco.
Dia 21 de março foi o momento escolhido para abrir o baú dos UHF, um arquivo vasto que, como o próprio António Manuel Ribeiro relembrou em conversa com a Arte Sonora, guarda perto de três centenas de canções. Desde o final dos anos 70 a definirem o seu lugar no rock nacional, na primeira fila lia-se num lenço: “o rock nasceu em Almada“, a banda apresentou-se no Lisboa Ao Vivo com uma proposta pouco comum, olhar para dentro, revisitar o menos óbvio, trazer à superfície temas que raramente ocupam o centro das atenções. E que bem que sabe ouvir um alinhamento diferente, antigo, mas fresco em palco.
O concerto esteve, ainda assim, por um fio. Uma lesão obrigou António Manuel Ribeiro a afastar-se da guitarra e a cumprir um período de fisioterapia, chegando a pôr o concerto em causa. Mas, tal como os Queen eternizaram: “The Show Must Go On!“, e por isso mesmo, Ribeiro e a banda optaram por seguir em frente com o concerto. A solução passou pela adaptação, não pelo cancelamento, e em palco ficou evidente a entrega e o profissionalismo que continuam a definir o percurso dos UHF.
E que bem que sabe ouvir um alinhamento diferente, antigo, mas fresco em palco.
Sem recorrer aos caminhos mais previsíveis, o alinhamento construiu-se como um exercício de redescoberta. “O truque é morrer cedo” e “Acende um isqueiro”, com o público a acender as lanternas dos telemóveis em resposta, abriram a noite com força, deixando claro que esta seria uma bela viagem pelo vasto reportório. O alinhamento percorreu décadas da carreira dos UHF, passando por “Geraldine” e “Ébrios (pela vida)” do álbum “À Flor da Pele” de 1981, de onde também saiu a icónica “Rua do Carmo”, guardada para o fecho da noite. Dos discos editados em 1982, surgiram “Concerto”, “Noites lisboetas” e “Estou de passagem”, sendo ainda resgatadas “Quebra-me” e “Persona non grata”, confirmando a força dessa fase inicial da banda.
Não faltaram tesourinhos como “Jorge Morreu”, tema que deu nome à primeira gravação da banda em 1979, e “Puseste o diabo em mim”. Já dos anos 2000, foram disparadas canções sem papas na língua como “Vernáculo (Para Um Homem Comum)”, “Tudo O Que É Nosso” e “Há Rock no Cais”.
“Quero sair vivo (deste mundo menor)” abriu caminho para um encore que devolveu à sala alguma da familiaridade mais esperada. “Caçada”, “Cavalos de Corrida” e “Rua do Carmo” reacenderam a resposta coletiva, antes de “Bora lá” fechar a noite como uma celebração partilhada por verdadeiros fãs.
No final, ficou a sensação de se ter assistido a algo maior do que um simples concerto, uma reafirmação do legado dos UHF e da sua capacidade de reinvenção constante. Entre raridades e alguns clássicos, a banda mostrou que continua a dominar o palco com autoridade, energia e uma entrega que atravessa gerações. Para quem esteve presente, a noite serviu de lembrete de que o rock português não só tem história como mantém a chama viva, ainda que para um público mais underground e intimista, fora do circuito mais popular.













































