Cinco dias após a missão Artemis II ter descolado em direcção à Lua, eis que o alter ego musical de Kevin Parker, Tame Impala, aterrou em Portugal para um espetáculo multi-sensorial com contornos aeroespaciais e psicadélicos.
Foi preciso esperarmos mais de 15 anos para termos, finalmente, Kevin Parker e os seus Tame Impala em nome próprio em Portugal. Após meia dúzia de passagens pelos festivais nacionais, o projeto australiano decidiu adicionar Lisboa e Porto ao roteiro da “Deadbeat Tour”, uma digressão que mais do que de promoção ao novo álbum — que, diga-se de passagem, foi apresentado quase na íntegra, tem servido para posicionar os Tame Impala como uma banda de arena expansível. Na MEO Arena ficou provado que o projecto de Perth está profundamente alinhado em termos criativos com a tipologia de espectáculo que salas como esta exigem. Aliando este elemento à sua música de cariz psicadélico e electrónico, eis que temos o cocktail perfeito para uma das melhores produções que vimos aterrar no nosso país nos últimos anos.
É certo que o espetáculo que os Tame Impala trouxeram a Lisboa se constrói em torno de vários elementos imersivos como o som, a luz e o vídeo, mas há uma peça que os une a todos — o palco. Com um design aeroespacial, semelhante a uma nave, e a fazer lembrar o mítico palco da “Out Of The Blue Tour” de 1978 dos Electric Light Orchestra, este revelou-se como o epicentro da acção ao apresentar os vários músicos dispostos em círculo a encarar o público numa amplitude de cerca de 270º. Originalmente, o palco foi concebido pela TAIT Towers para ter uma configuração de 360º — aliás, na tour norte-americana chegou mesmo a ser posicionado no meio das arenas, mas aqui na Europa parece que a banda optou por posicionar o palco numa das pontas, deixando a perspectiva de 360º para um palco mais pequeno junto à régie que acolhe um momento do espetáculo onde Kevin Parker “brinca” com os seus sintetizadores.
Aliando este elemento à sua música de cariz psicadélico e electrónico, eis que temos o cocktail perfeito para uma das melhores produções que vimos aterrar no nosso país nos últimos anos.
“Deadbeat” (2025) é um álbum que, apesar de manter alguns traços do psicadelismo dos registos anteriores, traz para o ouvinte referências da cena das raves da Austrália Ocidental, particularmente das doof — festas de dança e de música ecletrónica que têm lugar em áreas remotas de floresta e com muita vegetação. Desta forma, não é de estranhar que ao longo de cerca de 2 horas e 20 minutos, os Tame Impala tenham transformado, por vários momentos, a MEO Arena numa daquelas tendas ao estilo do Boom Festival, tal foi a experiência imersiva criada pelo jogo de luzes (que incluiu um imponente conjunto de lasers) e pelos diferentes planos e efeitos de vídeo, que incluíram desde o desfoque psicadélico ao plano de vídeo de proximidade captado em cima de palco por um único cameraman, uma abordagem visualmente muito apelativa que os seus conterrâneos Parcels também utilizam nos concertos. Importa referir que por detrás de toda esta direção criativa está, mais uma vez, a TAIT Towers, mas também a Cour Design, um estúdio criativo especializado em design de palco, iluminação e produções imersivas e tecnologicamente avançadas para concertos.
Mas, o que seria deste espetáculo visual sem os grandes temas que Kevin Parker cunhou ao longo dos últimos 15 anos? “Borderline”, “Breathe Deeper” “Feels Like We Only Go Backwards” e “Dracula” articularam passos de dança com um coro imenso que ecoou por uma MEO Arena a rebentar pelas costuras. Aliás, há quem diga que a plateia esteve sobrelotada. Talvez isso explique as duas ocorrências que conseguimos testemunhar, sendo que numa delas Parker chegou mesmo a interromper o concerto para certificar-se de que a ajuda chegava até à/ao fã. «É esse o espírito português!», disse o músico após o público ter aberto um corredor para facilitar a assistência.
Este foi apenas um dos muitos exemplos que demonstraram que Kevin Parker é uma fiel representação do estereótipo australiano, mas com um talento e uma aura muita acima da média. Sensivelmente a meio do concerto, o músico saltou do palco principal para dirigir-se a um pequeno palco de 360º situado no meio da arena. Sem pressas, afinal de contas este é o seu espetáculo, Parker não hesitou em fazer um desvio até à casa de banho mais próxima para satisfazer as suas necessidades. Até aqui tudo aparentemente normal, o que os fãs não estavam à espera era que Kevin transformasse aquele momento num happening com uma grande pitada de rebeldia rock ao transmitir tudo nos dois ecrãs que ladeavam o palco. Já de mãos lavadas e cabelo ajeitado, o músico lá se encaminhou para o centro da arena para um momento que teve tanto de intimista como de expansivo. Rodeado de sintetizadores, Kevin levou-nos numa sessão de estúdio caseira com passagem por “No Reply”, “Ethereal Connection” e “Not My World”.
No fim, as luzes da MEO Arena acenderam-se como se acendem as luzes de uma discoteca às 6:00. O transe deu lugar a um estado de sobriedade e de processamento. E os indieheads, agora transformados em ravers, saíram de sorriso rasgado no rosto.
De regresso à nave espacial eis que se dá uma explosão de energia com “Let It Happen”. Em uníssono, fãs que se confundem com pequenos pontos reluzentes, entoam o refrão e o riff numa celebração astronómica. Já “Yes I’m Changing” trouxe um momento mais reflexivo, com Parker sentado na berma do palco. A encarar o público, de forma contemplativa, não há como não fazer uma retrospectiva mental de todo percurso percorrido até aqui. «É difícil pôr em palavras, mas isto é bastante mágico», disse mais à frente já de regresso a palco para um encore.
De desejos de feliz aniversário a um autógrafo numa camisola, Parker demonstrou que a sua simpatia e admiração para com os seus fãs não tem limites. Mais uma vez sentado na berma do palco é a “My Old Ways” que a banda se atira. Mas, um pequeno percalço técnico acabou por interromper a malha por breves instantes. Após alguma conversa de circunstância, a banda lá retomou o tema na parte imediatamente antes do drop. Corpos a balançar e braços no ar mergulharam num êxtase coletivo que se prolongou ao longo de “The Less I Know the Better” e da derradeira “End of Summer”. No fim, as luzes da MEO Arena acenderam-se como se acendem as luzes de uma discoteca às 6h00. O transe deu lugar a um estado de sobriedade e de processamento. E os indieheads, agora transformados em ravers, saíram de sorriso rasgado no rosto.


















