bruno pernadas by FabianaTavares
(c) Fabiana Tavares

unlikely, maybe: psicadelismo hipnótico com o toque de Pernadas

24/03/2026

“unlikely, maybe” é uma viagem psicadélica, experimental e jazzística que nos obriga a mergulhar no mundo de Bruno Pernadas e a não querermos sair de lá.

Composto por 9 faixas, o disco – gravado em vários sítios, sem morada concreta – apresenta arranjos cuidadosamente pensados para nos saciar a sede. Conta com Bruno Pernadas como compositor, autor e produtor e participações de Maya Blandy, Margarida Campelo, Leonor Arnaut e Lívia Nestrovski. Na mixagem temos a assinatura de Eduardo Vinhas, em alguns dos temas, e Tiago de Sousa na engenharia de masterização.

Quando pensamos em poesia sonora, “unlikely, maybe” é um dos potenciais candidatos a este cargo.

O título? Diz tudo, sem dizer nada. Conseguimos sentir a profundidade melódica após entrarmos neste espaço hipnótico de 47 minutos. Uma tentativa-e-erro que podia ser pensada. Diz tanto, que acabamos por efetivamente nem compreender bem o quê. Este é o toque de Bruno Pernadas. Um je ne sais quoi de experimentação psicadélica abraçada ao tradicionalismo jazzístico, semelhante a um cobertor musical: tanto nos aquece, como nos deixa com calor.

A ideia inicial não correspondia minimamente ao produto que nos foi oferecido. O esboço de Pernadas era criar uma residência permanente, em qualquer parte do mundo, com os músicos que acabaram por participar no processo de criação do LP. O objetivo era «fazer uma espécie de exploração sonora durante o tempo da residência, onde levava algumas ideias, mas que não iam estar completamente solucionadas e haveria muitos momentos de improvisação e sessões de exploração coletiva», confessa o autor de “unlikely, maybe”. A partir daqui é que iria fazer o disco.

Ora, o sonho não foi concretizado devido a questões de agenda e disponibilidade de todos, mas não foi por isso que Pernadas baixou os braços. Arregaçou as mangas e produziu um trabalho «mais à imagem dos discos anteriores», onde criou algumas músicas em estúdio e outras à medida que o tempo ia passando.

Unlikely, maybe significa o que significa. «É uma expressão que não existe. unlikely porque este não era o disco que queria fazer, embora goste muito do resultado final. maybe porque, ao mesmo tempo, também era o disco que queria fazer», explica o músico em conversa com a Arte Sonora.

«É uma expressão que não existe. unlikely porque este não era o disco que queria fazer, embora goste muito do resultado final. maybe porque, ao mesmo tempo, também era o disco que queria fazer.»

Pressionamos play e ouvimos uma voz feminina que nos confessa, em tom suave “I thought that I was going to miss things like TV, and telephones and everything. But… surprisingly enough, I didn’t”. Nos cinco segundos seguintes somos surpreendidos por um crescendo em ácidos que nos leva logo para o mundo de Bruno Pernadas. Ouvimos “Untitled (raindrops)”. A mensagem é clara: «a dependência do telemóvel e o futuro tecnológico da IA vai acabar por substituir nas piores frentes o mundo humano. Acho que é o início do fim. E deve ser travado», confessa o artista.

“Untitled (raindrops)” é o cartão de visita de “unlikely, maybe” por ter uma sonoridade semelhante à de outros projetos anteriores apresentados pelo músico.

Apesar de ser um tema com aparência reivindicativa, Bruno Pernadas não é sinónimo de música de intervenção e não é este o objetivo do álbum. «Eu nunca faço música de reivindicação ou com fundo político. Eu não misturo as coisas. Esta é só uma temática que penso e por isso acabou por estar presente no disco», esclarece.

Pernadas encara a composição deste longa-duração como uma viagem. Não há fórmulas fixas: cada álbum nasce de uma ideia central, mas cresce organicamente, incorporando influências diversas. O jazz é uma matriz evidente, mas nunca exclusiva. Há psicadelismo, pop, música eletrónica, folk, e até ecos de música erudita.

Partindo da guitarra elétrica, “unlikely, maybe” oferece uma viagem sonora pelas mais diferentes raízes instrumentais. Os saxofones, trompetes e flautas dão corpo às harmonias jazzísticas e criam diálogos entre improviso e melodia. No entanto, são os sintetizadores analógicos que nos oferecem uma atmosfera cósmica que nos leva para o space jazz de Sun Ra.

No segundo tema, surge a colaboração com a cantora luso-britânica Maya Blandy. «Quando conheci a Maya achei que a voz dela ia encaixar perfeitamente. Foram só dois takes, uma manhã, e estava gravado.»

O título, em português, nasceu de uma frase dita em família. «Eu disse isto [“Juro que vi túlipas”] à minha mãe, e a frase fez sentido com a música. Podia ter sido em francês ou noutra língua, mas como foi em português, ficou assim», esclarece.

«A composição desta faixa foi uma improvisação de mais ou menos 40 segundos… adorei tudo aquilo que estava a acontecer. Depois escolhi os melhores momentos da improvisação para criar a estrutura da música. Tenho muitos teclados antigos. Usei samples, como, por exemplo, uma conversa minha com Mindy Kim durante um take»

Um dos singles escolhidos pelo público, numa listening session foi “Steady Grace”. «A composição desta faixa foi uma improvisação de mais ou menos 40 segundos… adorei tudo aquilo que estava a acontecer. Depois escolhi os melhores momentos da improvisação para criar a estrutura da música. Tenho muitos teclados antigos. Usei samples, como, por exemplo, uma conversa minha com Mindy Kim durante um take», explica Bruno Pernadas.

Chegamos ao tema 4 da obra musical e automaticamente viajamos para o Brasil através da composição “Já Não Tem Mais Encanto”. A faixa mistura o melhor da MPB e do Jazz e conta com Lívia Nestrovski na voz.

Pernadas confessa que nunca pensou em ter uma música de samba num disco, mas “aconteceu”. Quando obteve a estrutura deste samba orgânico, convidou a americana Lívia Nestrovski, uma colaboração que «funcionou logo. Se tivesse dado indicações, limitava o caminho mais transparente da interpretação.»

Inspirada por uma viagem de comboio entre Berlim e Utrecht, “Campus on Fire” apresenta uma letra que remete para Fahrenheit 451. «A letra é sobre um sonho que alguém teve depois de ler o Fahrenheit… sobre bombeiros que queimam livros e pessoas que os decoram para não se perder o artigo literário do mundo.»

Surge um dos temas mais longos do disco. Uma faixa com 7 minutos, intitulada “His World”. O tema foi um constante ímpasse. Bruno Pernadas não tinha a certeza se ia incluir a música no LP. Mas com um final que mostra uma jam de improvisação coletiva, solos de guitarra com distorção e Margarida Campelo a solar por cima… era impossível não aparecer. «Foi o que me fez decidir manter a música. Se esse momento final não existisse, a faixa não teria feito parte do disco», diz.

A viagem pelo space jazz chega ao clímax com “Spiritual Spaceman”, uma colaboração com Leonor Arnaut há muito desejada. «Eu e a Leonor já nos conhecemos há algum tempo e sempre quisemos fazer coisas juntos… esta música já tinha sido tocada ao vivo na tour de Private Reasons, e eu tinha a certeza que queria a Leonor a cantar.»

Estamos quase no final do álbum e Bruno Pernadas guardou o melhor para o fim. Inspirada numa constelação e coincidindo com o diminutivo de Leonor, “Leo Minor” é um featuring que coloca novamente por baixo dos holofotes as vozes de Leonor Arnaut e Margarida Campelo.

A faixa foi pensada para ser instrumental, mas o músico acabou por dar destaque às vozes destas artistas e guardá-las para o final da composição. Ao vivo, o tema ganha uma nova dimensão, visto que «todas as pessoas no palco cantam a melodia. Fica assim meio religioso, mas funciona muito bem», afirma Bruno Pernadas.

O longa-duração fecha com “Song in MT65”. A referência ao sintetizador dos anos 80 é o foco central da sonoridade. «Foi num MT65 que fiz a música. Normalmente dá-se nomes com tonalidades, como Missa em Ré Menor. Mas aqui, quis dar a tonalidade como uma coisa que não existe: a referência a um modelo de sintetizador.»

Após escutarmos o mais recente trabalho de Bruno Pernadas, sentimos que levamos um murro no estômago. Viajamos, através do improviso, até a um espaço sonoro experimental que conta com a assinatura do compositor. 47 minutos de um caminho sonoro único, estranho, esquisito e muito improvável? Talvez.

“Unlikely, maybe” é o trabalho mais recente do compositor, autor e produtor Bruno Pernadas e conta com colaborações como Margarida Campelo, Leonor Arnaut, Lívia Nestrovski e Maya Blandy.

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