Vamos Falar De… liberdade artística, mulheres que incomodam e ódio nas redes sociais

04/09/2026

Dois concertos. Três artistas mulheres. E uma avalanche de ódio nas redes sociais. Falemos de liberdade artística, liberdade de expressão e dos limites que não deveriam ser ultrapassados.

Peaches e Lambrini Girls têm algumas coisas em comum, entre elas a forma como usam o palco para falar sobre aquilo que as incomoda à sua volta e no mundo. Não têm medo de gritar, de provocar, de confrontar ou de transformar as suas convicções em matéria artística. Peaches, com perto de 40 anos de carreira, não sobe ao palco apenas para chocar. Existe uma dimensão política muito clara no seu trabalho, com posições antifascistas, feministas e de defesa dos direitos LGBTQ+, entre outros assuntos.

Lambrini Girls, por seu lado, fazem do punk um espaço de confronto, falando abertamente sobre misoginia, desigualdade, política, violência e tudo aquilo que entendem que precisa de ser dito.

Recentemente, ambas estiveram em Portugal para dar concertos em festivais, Lambrini Girls no CA Vilar de Mouros e Peaches no MEO Kalorama e há outra coisa que têm em comum: foram alvo de uma quantidade considerável de comentários insultuosos nas redes sociais depois das suas actuações. Podemos gostar ou não do que fazem. Podemos achar as performances excessivas, provocadoras, brilhantes, necessárias, desnecessárias ou simplesmente não gostar delas. Podemos concordar ou discordar das suas posições políticas. Tudo isso é legítimo numa democracia saudável, onde cada um é livre de ter e expressar a sua opinião.

O que nos parece menos legítimo é aquilo que aconteceu nas nossas redes sociais (e não só) depois destes dois concertos. Por isso, tomámos a decisão de não apagar nem esconder os comentários odiosos, decidimos mostrá-los.

«Puta.» «Prostituta.» «Drogada.» «Doente mental.»

E muitos outros comentários insultuosos que, em vez de criticarem a música, a performance ou as ideias defendidas pelas artistas, escolheram atacar directamente os seus corpos, a sua aparência e sexualizar as mulheres por simplesmente ocuparem aquele palco.

É importante fazer esta distinção. Criticar um concerto, dizer que não se gostou do que se viu/ouviu é uma coisa. Questionar uma mensagem política ou uma opção artística é perfeitamente aceitável. Transformar a discordância em insultos dirigidos a uma mulher porque não gostámos daquilo que fez em palco é outra coisa completamente diferente.

Será que, se fosse um homem, heterossexual, com pouca roupa, igualmente provocador em palco, com o mesmo tipo de espectáculo, receberia exactamente o mesmo tipo de tratamento?

Apostamos que não.

Sabemos que estas reacções dizem muito sobre o caminho que ainda temos pela frente. Não é uma questão de ser de esquerda ou de direita. Não é sequer uma questão de gostar ou não de projectos como Peaches ou Lambrini Girls. É uma questão de liberdade artística, de liberdade de expressão, de igualdade e de respeito. 

E sim, numa sociedade livre, uma artista pode subir a um palco e incomodar-nos. Pode provocar-nos. Pode dizer coisas com as quais discordamos profundamente. E nós, público, podemos responder, podemos criticar, podemos discordar, podemos concordar, podemos aplaudir, podemos assobiar ou podemos simplesmente ir embora.

Na Arte Sonora continuaremos a lutar por uma cultura livre, sem censura, sem medo, sem ódio.