(c) Inês Barrau

Vamos Falar De… Plateias Ruidosas: shiu, que se vai ouvir um concerto!

03/10/2026

Neste “Vamos Falar De…” queremos falar de um fenómeno que temos sentido cada vez mais nas salas de espectáculos portuguesas: as plateias ruidosas, constantemente na converseta. Será assim tão difícil estar sossegado e calado durante 90 minutos? Não estamos a pedir um feito extraordinário, pois não?

Temos notado, nos últimos tempos, um fenómeno cada vez mais difícil de ignorar nas salas de espectáculos portuguesas: as plateias estão cada vez mais ruidosas.

Não estamos a falar do barulho natural de um concerto, cantar, gritar, bater palmas ou reagir ao que acontece em palco. Falamos das conversas paralelas que se prolongam durante boa parte do espectáculo, de pessoas que parecem ter ido ao concerto tanto para socializar como para ouvir a banda e daquele burburinho constante que, em determinados concertos, se torna tão presente como a própria música.

E isto torna-se ainda mais curioso quando olhamos para o preço dos bilhetes.

Os concertos estão cada vez mais caros. Para ver bandas de referência em salas como o Coliseu, o Campo Pequeno, a Super Bock Arena ou a MEO Arena, é cada vez mais difícil encontrar bilhetes abaixo dos 40 euros. Dependendo da zona e do espectáculo, podemos facilmente chegar aos 60, 70 ou 80 euros e, em Golden Circle, primeiras filas ou lugares premium, o preço pode ultrapassar os 100 euros.

Estamos a pagar cada vez mais por um evento que, muitas vezes, não dura mais de duas horas, esperamos meses pelo concerto, organizamos a vida à volta daquela noite, gastamos dinheiro em deslocações e, em alguns casos, viajamos de outra cidade para lá estar. No caso dos concertos que esgotam em poucos dias, há muitos fãs que ficam sem poder assistir.

Chegamos à sala preparados para aquilo que, supostamente, viemos fazer: ouvir/ver um concerto. No entanto, aquilo que parecia uma tarefa simples rapidamente se complica quando descobrimos que as pessoas sentadas ao nosso redor têm outros planos. E é aqui que começa o problema.

Parece haver uma boa parte do público que decide que aquele é também um excelente momento para pôr a conversa em dia. «Ah, mas eu paguei o meu bilhete. Se quiser falar o concerto inteiro, sou livre de o fazer.» Ok, mas quem está ao teu lado também pagou o seu, e supostamente pagou precisamente para ouvir o que se passa em cima do palco, não para ouvir conversas paralelas. É urgente que se perceba que uma sala de espectáculos não é uma sala de estar ou um bar de música ao vivo.

É aqui que entra aquela coisa que parece cada vez mais rara chamada bom senso. A tua liberdade não desaparece quando entras numa sala de espectáculos, mas também não passa a ocupar todo o espaço acústico disponível.

É aqui que entra aquela coisa que parece cada vez mais rara chamada bom senso. A tua liberdade não desaparece quando entras numa sala de espectáculos, mas também não passa a ocupar todo o espaço acústico disponível.

Reforçamos: não pedimos silêncio absoluto, uma plateia não é uma biblioteca. Ouvir pessoas a cantar, a rir, a gritar, a bater palmas, a reagir faz parte da experiência de um concerto. Uma coisa é trocar alguns comentários com quem está ao nosso lado, outra é passar a duração do espectáculo na palheta, ou nos camarotes com o teu copo de gin, como se estivesses num sunset. Nesse caso, pensa que podias estar a fazer isso no bar, na rua ou onde quiseres, menos ali.

Num concerto de rock ou pop, até podemos ter alguma sorte. O som vindo do palco é suficientemente alto para engolir boa parte destas conversas e, em concertos de pé, ainda existe a possibilidade de mudar de lugar e procurar vizinhos menos ruidosos. Mas em espectáculos de plateia sentada com lugares marcados, essa hípotese não é possível.

Mas pensemos nos concertos recentes dos Sigur Rós com orquestra e de “A Night of Mellon Collie and Infinite Sadness Featuring Billy Corgan”, dois espectáculos que exigem outro nível de atenção e silêncio por parte da audiência.

A título de exemplo, a Arte Sonora esteve presente nos dois concertos dos Sigur Rós, em Lisboa e no Porto, e houve uma diferença que nos pareceu particularmente interessante. No Porto, o público soube estar. Quando alguém fazia mais barulho do que devia, não era preciso chamar um segurança nem iniciar uma discussão, bastaram alguns olhares reprovadores.

Precisamos de mais “polícias de plateia”, não daqueles que passam o concerto inteiro a mandar calar toda a gente porque alguém tossiu ou abriu uma garrafa de água, mas de pessoas capazes de perceber quando o ruído começa a incomodar quem está à volta. Às vezes, basta um olhar reprovador, se não chegar, também não custa dizer: «Desculpem, paguei demasiado caro por este concerto e não foi para vos ouvir. Obrigado.»

E já que estamos a falar em “etiqueta” nas salas de espectáculos, entramos noutra questão que pode parecer pequena, mas que é bastante irritante para quem está concentrado no concerto: as saídas constantes para ir buscar bebidas ou ao WC.

E já que estamos a falar em “etiqueta” nas salas de espectáculos, entramos noutra questão que pode parecer pequena, mas que é bastante irritante para quem está concentrado no concerto: as saídas constantes para ir buscar bebidas ou ao WC.

Obviamente, há situações que não se controlam e, tendo em conta o calor desconfortável que muitas vezes se faz sentir nas salas de concertos, é compreensível que seja necessário ir buscar uma bebida. Mas deixamos uma sugestão, também ela de bom senso. É mesmo necessário interromper uma canção para ir buscar uma bebida? Será que não podes esperar mais três ou quatro minutos e aproveitar o pequeno intervalo entre o fim de uma canção e o início da outra? Assim, vais buscar a tua bebida ou vais fazer o teu xixi sem interromper a experiência de quem está a assistir.

E sim, somos oficialmente os polícias da etiqueta dos concertos! Mas há aqui uma coisa curiosa: passamos anos a ensinar crianças e adolescentes a estar sossegados numa sala de aula, a não interromper quem está a falar e, sempre que possível, a ir à casa de banho antes da aula ou durante o intervalo. Depois chegamos à idade adulta, pagamos 50, 60 ou 100 euros por um concerto e parece que duas horas de atenção se transformaram numa missão impossível.
Nos próximos concertos, façam uma experiência: oiçam e vejam o concerto, guardem a conversa para depois. Shiu!

 

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