Várias bandas cancelam concerto no Resurrection Fest e Viña Rock devido a ligação a fundo pró-Israel

24/05/2025

Os festivais espanhóis Viña Rock e Resurrection Fest enfrentam uma vaga de críticas e cancelamentos por parte de artistas, na sequência da aquisição da promotora Superstruct Entertainment pelo fundo de investimento norte-americano KKR, associado a empresas envolvidas em assentamentos ilegais nos territórios palestinianos ocupados.

De 25 a 28 de junho, Viveiro acolherá uma nova edição do Resurrection Fest, que voltará a ser um dos maiores festivais de música ao vivo de Espanha e um dos grandes eventos de referência do rock e do metal a nível mundial. Contará com grandes nomes do panorama internacional como Judas Priest, Korn, Falling In Reverse e Slipknot. No entanto, a edição de 2025 que conta com os passes já esgotados tem estado envolta em polémica.

A polémica começou após a compra da Superstruct Entertainment pelo fundo norte-americano KKR, em 2024, por mais de 1,3 mil milhões de euros. A KKR é acusada por movimentos sociais e ativistas de financiar empresas envolvidas em violações de direitos humanos nos territórios palestinianos ocupados, o que levou o ministro da Cultura espanhol, Ernest Urtasun, a afirmar que o fundo «não é bem-vindo na cultura espanhola».

Entre as bandas que já anunciaram a sua retirada do Resurrection Fest estão os grupos espanhóis Gigatron e Crossed, que alegam motivos de consciência e solidariedade com o povo palestiniano.

“Sentimos que temos o privilégio e a obrigação de ser coerentes. Força, Palestina”, escreveu a banda Crossed nas redes sociais.
Gigatron justificou a sua decisão como “um ato de objeção de consciência”.

No Viña Rock, vários artistas como El Niño de la Hipoteca, Reincidentes, Sons of Aguirre e Fermín Muguruza também cancelaram as suas atuações, declarando que não participarão em eventos com qualquer tipo de ligação a empresas envolvidas em violações dos direitos humanos. Um grupo de cerca de 70 artistas e DJs ligados ao festival Sónar também exigiu publicamente o afastamento da KKR.

Em resposta à crescente polémica, os dois festivais divulgaram comunicados nas suas redes sociais. O Viña Rock afirmou que o fundo KKR «não tem qualquer influência sobre a programação ou valores» do festival. «O Viña Rock não financia nenhuma causa violenta ou que viole os direitos humanos. Afirmar o contrário é falso e profundamente injusto», lê-se no comunicado, que reforça o compromisso do evento com causas sociais, incluindo a palestiniana.

Já o Resurrection Fest, que decorre em Viveiro, Galiza, foi mais direto: «Condenamos o massacre do povo palestiniano e expressamos a nossa solidariedade nesta crise humanitária. O festival não financia nenhuma guerra. Queremos deixar claro que não estamos vinculados às ações de potenciais investidores dos nossos parceiros e mantemos a nossa total independência.» A organização garantiu ainda que a gestão do festival continua nas mãos de empresas galegas e locais, com autonomia plena desde a sua fundação.

A polémica em torno dos dois festivais insere-se num contexto mais amplo de condenação internacional à ocupação da Faixa de Gaza por Israel. Desde o agravamento do conflito, com milhares de civis palestinianos mortos e uma crise humanitária sem precedentes, têm-se multiplicado boicotes culturais e apelos ao desinvestimento em empresas ligadas a interesses israelitas. A presença do fundo KKR — associado a investimentos em assentamentos ilegais nos territórios ocupados — reacendeu o debate sobre a responsabilidade ética dos eventos culturais, colocando os festivais espanhóis no centro de uma discussão que ultrapassa fronteiras e chega ao coração do conflito israelo-palestiniano.

O debate também se intensificou entre os fãs, com opiniões divididas. Enquanto alguns elogiam a posição crítica dos artistas, outros consideram injusto responsabilizar os festivais. Acusações de que os organizadores estariam a usar Inteligência Artificial para responder a críticas nas redes sociais também surgiram nos comentários.

A polémica promete manter-se nos próximos meses, com a discussão centrada na ética dos financiamentos culturais e na responsabilidade social dos grandes eventos musicais.