O regresso ao anfiteatro natural de Vilar de Mouros mostrou porque este é um festival único no calendário português.
Durante quatro dias, a pequena aldeia minhota de Vilar de Mouros voltou a ser um ponto de encontro intergeracional. Famílias com crianças, grupos de amigos, veteranos de festivais e curiosos que vinham pela primeira vez cruzaram-se num ambiente de partilha e descontração.
A organização, embora eficiente em aspetos habituais como os acessos fluidos, a limpeza constante e a diversidade gastronómica, das opções tradicionais às propostas mais modernas — mostrou fragilidades em pontos cruciais, sobretudo na gestão do shuttle, que gerou longas esperas no regresso a casa.
À medida que o sol se punha sobre o rio Coura, a música erguia-se como fio condutor de uma experiência que uniu passado e presente, sempre alimentada pela energia calorosa do público, que deu vida ao espaço.
Dia 1: Entre veteranos e novas apostas, a força esteve com o público.
Os Altered Images deram o pontapé de saída para grande parte da plateia, num concerto que começou com algumas falhas técnicas, mas rapidamente se recompôs, quando Clare Grogan, enérgica e elegante, assumiu o centro das atenções. Embora a formação atual ser quase toda renovada, a essência oitentista mantém-se intacta, sustentada pelo carisma natural da vocalista. O público não resistiu a clássicos como “I Could Be Happy e Happy Birthday“, que transformaram o recinto num revival eletrizante. Foi um início nostálgico e cheio de charme, a provar que certas canções mantêm intacta a sua capacidade de contagiar gerações.
De seguida entraram os Starsailor, assinando um dos momentos altos da tarde. Com um som bem equalizado desde os primeiros acordes, James Walsh mostrou uma voz em excelente forma, capaz de encher o recinto com emoção e sobriedade. O alinhamento percorreu êxitos como “Four To The Floor” e “Good Souls”, recebidos com entusiasmo por um público que, embora mais contido nos gestos, não resistiu a acompanhar em coro os refrões. O concerto destacou-se pela elegância e pelo equilíbrio, conquistando pela consistência e pela entrega genuína da banda.
Os The Stranglers soaram fenomenais. Coesos, crus e fiéis àquela mistura inconfundível de ameaça e melodia que os distingue. Foi tão bom, que elevou as expectativas para o resto da noite. O som, a presença de palco, a participação do público e o visual cuidadosamente produzido foram de excelência. Com Jean-Jacques Burnel, o último membro original ao comando, a banda arrasou com um repertório que abrange toda a sua ilustre carreira. “Peaches”, “Duchess”, “Skin Deep” e, claro, “Golden Brown” fizeram as suas aparições merecidas, cada uma delas recebida com fervorosos coros. Esta última, com a sua cadência quase de valsa, continua a ser uma anomalia no universo punk, lembrando a capacidade única do grupo de desafiar expectativas.
Os The Stranglers soaram fenomenais. Coesos, crus e fiéis àquela mistura inconfundível de ameaça e melodia que os distingue. Foi tão bom, que elevou as expectativas para o resto da noite.
Embora seja perceptível algum vazio, principalmente pelas perdas de Jet Black e Dave Greenfield, a banda manteve-se sólida e profissional. Baz Warne, agora um veterano há 26 anos nos Stranglers, voltou a provar porque era o sucessor certo de Hugh Cornwell: vocais incisivos e guitarra afiada que unem perfeitamente o passado e presente. Quando os acordes finais soaram e a plateia, agora um pouco mais velha, um pouco mais grisalha, mas não menos apaixonada, se espalhou pela noite, uma coisa ficou clara: os Stranglers ainda são, por incrível que possa parecer, uma força a ter em conta.
Os James não deram apenas um concerto, promoveram uma verdadeira catarse coletiva no recinto. Tudo foi ainda amplificado com performances individuais espetaculares dos músicos no palco. Tim Booth dispensa comentários, mas continua a impressionar pela forma como canta divinamente bem. David Baynton-Powe e a excelente percussionista Deborah Knox-Hewson, não tinham terminado a segunda música e já estavam a presentear o público com um lindo solo percussivo conjunto ao finalizar a bonita “Beautiful Beaches”. Em seguida, veio “Tomorrow”, onde Saul Davies emocionou a plateia ao soltar o violino em sintonia com Jim Glennie. E Chloë Alper esteve incrível e revelou-se peça central, alternando entre guitarras, percussão e uma voz delicada, mas firme, sempre com enorme presença em palco.
Em Portugal, os James dão-se ao luxo de escolher parte do alinhamento em cima de palco, sem terem uma setlist rígida. A espontaneidade resultou numa sequência em que várias músicas novas, como “Way Over Your Head” e “Is This Love”, intercalaram-se com clássicos intemporais, sem nunca quebrar a entrega do público. O fecho foi apoteótico: “Sit Down”, “Getting Away With It (All Messed Up)”, “Sound” e “Laid” sucederam-se numa catarse final, com o público em coro absoluto. Muitos já disseram, e a noite em Vilar de Mouros voltou a comprovar, que os James são a “banda inglesa mais portuguesa” de todas.
A encerrar a noite subiram a palcos os The Kooks, com muita energia e profissionalismo, mas a fasquia deixada por James e Stranglers era quase intransponível. Luke Pritchard demonstrou a habitual entrega, com boa interação com o público e uma presença em palco cheia de vitalidade. A secção rítmica soou coesa e bem oleada, sustentando um concerto sólido, ainda que menos arrebatador do que os anteriores. Para muitos, serviu de banda sonora para o regresso a casa, mas quem ficou até ao fim encontrou uma atuação divertida e bem executada, digna de uma noite que já tinha dado muito ao público.
No fim do primeiro dia de CA Vilar de Mouros, a música prevaleceu sobre os percalços, mas ficou o alerta: a experiência em Vilar de Mouros, que celebra 60 anos de história, não se mede apenas em grandes concertos. Depende também de uma logística à altura da sua dimensão e legado.






































