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Papa Roach (c) Sara Hawk

Vilar de Mouros 2025 | Dia 3: Do manifesto punk à celebração nu metal, uma noite intensa em palco

26/08/2025

O regresso ao anfiteatro natural de Vilar de Mouros mostrou porque este é um festival único no calendário português.

Durante quatro dias, a pequena aldeia minhota de Vilar de Mouros voltou a ser um ponto de encontro intergeracional. Famílias com crianças, grupos de amigos, veteranos de festivais e curiosos que vinham pela primeira vez cruzaram-se num ambiente de partilha e descontração.

Depois de revisitarmos o que aconteceu no primeiro e segundo dia de festival, agora contamos o que vimos e ouvimos no penúltimo dia do CA Vilar de Mouros.

Os Girl Scout ainda não têm álbuns gravados, apenas singles e EPs, mas o concerto soou como se já fossem uma banda madura e com muitos anos de estrada… e isso tem uma explicação. A vocalista Emma Jansson é músico de jazz na sua cidade natal, na Suécia, e ainda dividiu o Royal College of Music com o guitarrista Victor Spasov, que esbanja criatividade nas suas performances.

Ao contrário dos dias anteriores, esta foi a abertura com mais público e bastante participativo. A banda apresentou uma boa mistura de pós-punk, pop, indie rock e até algumas influências de jazz. Foi um bom concerto e ficámos a saber, que em breve teremos o primeiro longa duração da banda, que já está em produção, segundo Emma.

Logo a seguir vieram os Hybrid Theory, tributo aos Linkin Park que mais uma vez confirmaram a fama de serem a melhor banda de covers do mundo da banda original, que regressou em 2024, com nova vocalista. O sucesso dos Hybrid, na ausência dos Linkin Park, foi de tal forma assinalável que ainda hoje continuam a atrair multidões. Em Vilar de Mouros, conseguiram reunir uma grande plateia e criar o ambiente perfeito para que os restantes nomes do alinhamento dessem continuidade ao espetáculo.

Os belgas Triggerfinger abriram a noite com a elegância ruidosa que lhes é marca registada. Hoje em formato de dupla, fizeram um concerto competente e energético. Ruben Block, alternando entre a sua Gretsch Anniversary e a excêntrica Gretsch Princess, liderou o palco com boa voz, presença e riffs carregados de blues e atitude rock’n’roll. Mario Goossens destacou-se pela imponência na bateria. Sem precisar de “aquecer” o público antes do peso que viria com Refused e Papa Roach, mostraram porque continuam a ser uma das bandas mais respeitadas do rock europeu. O público reagiu bem e com entusiasmo a temas como “All This Dancin’ Around” e “Is It”, celebrando um concerto intenso e preciso.

Os Refused roubaram a cena! Fizeram um concerto à altura da despedida que se aproxima. Que todos os integrantes são excelentes músicos já não é novidade; mas, por mais chamativos que sejam o guitarrista Mattias Bärjed e o baixista Magnus Flagge, e por mais envolvente que seja ver o cofundador David Sandström na bateria com mudanças de ritmo inesperadas, é Lyxzén quem verdadeiramente cativa. Com uma camisa justa, jeans skinny e uma enorme fivela prateada no cinto, dificilmente se adivinharia nele o vocalista punk que é.

Mas falar dos Refused como apenas uma banda furiosa seria injusto: os Refused foram, e ainda são, um acto político. A sua música é manifesto, chamado às armas, é confronto. Com o álbum marcante de 1998, “The Shape of Punk to Come”, não reinventaram apenas o som do punk rock, desnudaram a sua ideologia, estrutura e futuro.

Os êxitos foram tocados um a um e isso trazia uma sensação agridoce, que ficava entre a satisfação em vê-los e a expectativa da despedida, talvez definitiva. Foi emocionante ouvir “New Noise” e “Summerholidays vs. Punkroutine”. Foi divertido quando Matias inseriu “Raining Blood”, dos Slayer, na parte lenta de “The Deadly Rhythm”. Foi profético escutar “Refused Are Fucking Dead”. Mas o mais marcante foi ouvir ao vivo “Tannhäuser / Derivé”, provavelmente pela última vez. É difícil acreditar que este terá sido o último concerto da banda em Portugal. Talvez façam apresentações únicas ou novos álbuns no futuro… Quem sabe? Só sei que quem esteve em Vilar de Mouros assistiu a um concerto incrível e para guardar na memória.

Mas, a noite ainda guardava mais emoções. Os Papa Roach trouxeram ao palco uma apresentação imponente, com muitos efeitos visuais e uma performance soberba de uma banda extremamente entrosada. A participação do público foi tão intensa que chegou a emocionar Jacoby Shaddix.

Sobreviventes do declínio original do nu metal, provaram não apenas ter superado altos e baixos, como também continuaram a produzir sucessos. Há um entusiasmo contagiante quando os Papa Roach disparam o seu arsenal. Por melhores que sejam músicas como “Even If It Kills Me” e “Blood Brothers”, são os pesos pesados como “To Be Loved” e “Getting Away With Murder” que tornam o set fenomenal, com milhares de fãs a cantar os refrões.

O concerto ainda trouxe homenagens e uma importante mensagem. Os Papa Roach tocaram “California Love”, de 2Pac, e mais adiante um medley de clássicos do nu metal que incendiou o público com “Blind” (Korn), “My Own Summer (Shove It)” (Deftones), “Break Stuff” (Limp Bizkit) e “Chop Suey!” (System of a Down). Foi comovente quando apresentaram “Forever / In the End”, em tributo ao falecido Chester Bennington. Logo depois, Jacoby fez um longo discurso sobre saúde mental, acompanhado de um vídeo exibido para uma plateia que aplaudiu e apoiou o gesto. Grande atitude da banda.

Ao fim da noite, onde fomos brindados com concertos memoráveis, ficou uma mensagem essencial: o rock pode ser intelectual. A raiva pode ser visionária. E a música ainda pode ser revolucionária e sentimental.

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