O regresso ao anfiteatro natural de Vilar de Mouros mostrou porque este é um festival único no calendário português.
Durante quatro dias, a pequena aldeia minhota de Vilar de Mouros voltou a ser um ponto de encontro intergeracional. Famílias com crianças, grupos de amigos, veteranos de festivais e curiosos que vinham pela primeira vez cruzaram-se num ambiente de partilha e descontração.
Depois de contarmos o que se passou no primeiro dia de festival, mostramos o que se passou no dia 21 de Agosto no recinto do CA Vliar de Mouros.
Se há um talento que os amantes da música valorizam, é a capacidade de criar refrões memoráveis. Quando isso se mistura a arranjos frescos, quase inocentes, o resultado torna-se mágico. As GIRLBAND! abusam dessas duas qualidades. O concerto foi tão fácil de se gostar que parecia familiar logo à segunda canção. Ao segundo refrão já dava vontade de começar a cantarolar, como num espetáculo de arena. O power trio feminino encanta e surpreende, sobretudo pelo set de bateria incrivelmente reduzido de Jada: apenas prato de choque, tarola e bombo. Haja criatividade! A voz de Georgie impressiona pela afinação impecável e a baixista Kay sustenta tudo em sintonia com Jada. Uma grande surpresa e uma aposta ganha da curadoria do festival.
Os Godfathers subiram ao palco cheios de energia e entregaram um concerto honesto. O público ainda era reduzido e muitos não conheciam bem os seus êxitos, mas sempre que pediam apoio a resposta era imediata. Despediram-se com boa aclamação.
Já os Palaye Royale trouxeram a estética exuberante do novo art-rock, que tem vindo a aproximar gerações nos festivais. Pela primeira vez nesta edição, as grades do fosso encheram-se com uma pequena, mas ruidosa legião de fãs, que assentou arraiais e não arredou pé até à hora do concerto. A actuação foi carregada de energia e alguns temas, como “Death or Glory”, “Fever Dream” e “Showbiz “, foram entoados em coro. “Remington Leith” é um verdadeiro showman e sabe conduzir uma plateia, mesmo perante um público que já aguardava impaciente pelo punk setentista que se seguiria.
Às 22h30 os The Damned entraram em cena para revisitar um repertório vasto e influente, referência para nomes tão diferentes como Guns N’ Roses ou Offspring. Dave Vanian e Captain Sensible mantêm intacta a ferocidade que os tornou lendários, com Monty Oxymoron a completar o trio de membros constantes. Paul Gray e Rat Scabies, figuras do início humilde da banda, regressaram após longas ausências e mostraram estar em plena forma. O concerto teve pontos altos em “New Rose”, celebrizada mais tarde pelos Guns, e em “Neat, Neat, Neat”, acompanhada pelo humor peculiar de Captain Sensible e pelas aparições do seu cão, que roubava sorrisos à plateia. Para o encore, escolheram uma versão intensa de “White Rabbit”, dos Jefferson Airplane, e fecharam em grande com “Smash It Up Pts 1 & 2”, tema que viria a ganhar nova vida anos depois pelas mãos dos Offspring.
Na noite em que o festival homenageou o género, ficou a constatação: o tempo passa, mas a chama do punk continua acesa.
Os Sex Pistols (ou o que resta deles) surgiram em palco acompanhados por Frank Carter, sob olhares curiosos, divididos entre a expectativa e as críticas recentes a esta reunião. Para alguns, tratava-se do regresso de uma lenda com energia renovada; para outros, apenas mais uma turné movida a dinheiro. O próprio John Lydon nunca escondeu o pragmatismo, quando dizia nos anos 90, na altura da primeira reunião após a separação nos anos 70, algo como «Of course it’s for the money – no one else will give it to us» [tradução livre: “Claro que é pelo dinheiro — mais ninguém nos vai dar isso.”). A festivaleira Ana Sofia, veterana de Vilar de Mouros e que já tinha visto os Pistols com Lydon, resumiu bem a noite: «Estamos em 2025, não em 1977, quando tocavam por uma caixa de whisky e mais umas cenas. Eu gostei do concerto. O Frank Carter encarnou bem o punk dos Pistols». E de facto foi um bom concerto. O trio Glen Matlock, Paul Cook e Steve Jones por si só justificaria o bilhete, mas foi Frank Carter quem trouxe frescura e energia. Carismático, interagiu com o público, foi abraçado pela banda e transmitiu a sensação de alegria renovada. O som esteve à altura e a guitarra de Jones manteve o timbre icónico que ajudou a moldar a história do punk. Foi impossível não nos arrepiar com os clássicos, como “God Save The Queen” e “Anarchy in The UK” cantada pelos pulmões de Frank Carter.
Na noite em que o festival homenageou o género, ficou a constatação: o tempo passa, mas a chama do punk continua acesa. Sempre que é preciso sangue novo, há músicos prontos a assumir o posto. Para quem os acompanha há décadas, noites como esta são um lembrete do motivo pelo qual nos apaixonámos pelo punk rock. Vida longa aos artistas que criaram e mantêm essa história, para que a chama nunca se apague.







































