O Vodafone Paredes de Coura de 2025 recebeu mais de 120 mil pessoas que encheram a vila minhota para quatro dias de espírito bucólico e irreverente que faz do festival um dos mais icónicos e antigos do País.
A história do festival fala por si. Talvez o de maior êxito entre os festivais do Norte, o Vodafone Paredes de Coura carrega sempre a responsabilidade de se superar, e voltou a consegui-lo em 2025.
Conciliar nomes novos e consagrados da música num só festival pode parecer tarefa fácil na cabeça dos fãs, mas não é. O olhar de um dos fundadores e principal voz do festival, João Carvalho, que também assume a curadoria, parece estar sempre um passo à frente. Como o próprio disse em conferência de imprensa: «Já estou em 2026!». Que seja tão bonito como foi em 2025.
Na sua 33.ª edição, o anfiteatro natural de Coura voltou a oferecer a habitual organização sem falhas a apontar: o lugar acolhedor e bonito da praxe, com limpeza cuidada e um ambiente harmonioso entre famílias com crianças, jovens e veteranos de festivais. O público mostrou-se participativo e, mesmo com filas consideráveis nas horas de maior afluência, a qualidade e variedade gastronómica de comidas e bebidas compensaram a espera.
Dia 1 | Emoção francesa, indie vibrante e a energia sempre marcante dos Vampire Weekend
No cenário principal, MJ Lenderman abriu a noite com um concerto prejudicado por algum desequilíbrio na equalização e por uma banda menos enérgica do que o esperado. Ainda assim, para os conhecedores, momentos como “Knockin”, “She’s Leaving You” e “SUV” foram pontos altos. No palco secundário, Don West brilhou com uma técnica vocal irrepreensível, presença carismática, rosas distribuídas à multidão e um espaço completamente lotado.
De regresso ao palco principal, Zaho de Sagazan protagonizou a actuação mais intensa e emocionante da noite. Conquistou o público com a sua energia, levando-o ao canto coletivo em “La Symphonie des Éclairs” e na belíssima “Old Friend“, onde a plateia entoou em uníssono a parte de Tom Odell. Num súbito corte de ambiente, chamou todos para dançar e emendou “Hab Sex” com uma arrebatadora versão longa de “Dansez”. Fechou o concerto com uma delicada interpretação de “Modern Love“, de David Bowie.
O encerramento do arranque da edição de 2025 ficou a cargo dos Vampire Weekend, que entregaram um espetáculo vibrante do início ao fim. Entre danças e coros, houve espaço para momentos memoráveis como “Step”, “Capricorn” e uma divertida “A-Punk”. Já na reta final, “Harmony Hall” e uma longa e graciosa “Hope” tornaram-se banda sonora para muitos que deixavam o recinto. Assim, os Vampire Weekend inscreveram de vez o seu nome no Couraíso.
Dia 2 | A festa do rock português, música latina, punk e pop
A abrir o palco principal, os Linda Martini continuam a superar expectativas. O sol castigava a plateia, mas a banda transformou a adversidade em intensidade, num concerto que mergulhou no novo álbum “Passa-Montanhas”, sem perder a ligação visceral com o público. Na minha opinião, uma das melhores, senão a melhor banda de rock português em actividade, contou com apoio total da audiência, que reagiu com entusiasmo a cada tema. “Corações Rápidos” destacou-se como representante da nova fase, e a ausência de “A Cantiga É” foi compensada pelas também recentes “Uma Banda” e “Faz-se de Luz“. A já clássica “Boca de Sal“ fez vibrar o recinto, como tem sido habitual. O encerramento, fiel à tradição, ficou com “Cem Metros Sereia“, recebida com uma ovação que ecoou mesmo depois de o grupo deixar o palco. Vida longa a esta banda que tanto orgulha Portugal.

Ainda no palco principal, os brasileiros Terno Rei fizeram um concerto honesto e sentido, mostrando a maturidade adquirida ao longo da sua crescente experiência internacional. Segundo o vocalista, esta foi já a terceira passagem da banda por Portugal.
No palco mais alternativo, LA LOM transformou o espaço numa celebração digna de Carnaval. O competente Zac Sokolow e a sua National Val-Pro Semi-Acústica dos anos 60 foram um espetáculo à parte, num concerto em que a música latina foi a estrela. Chamaram a atenção as prestações do baterista e do baixista, este último alternando com um contrabaixo acústico de timbre encorpado e distinto.
Perfume Genius, no Palco Principal, conseguiu a primeira lotação total do dia. Os poucos que permaneciam sentados levantaram-se para um espetáculo que conciliou êxitos de carreira com temas do seu novo álbum, num registo envolvente e emotivo.
O segundo palco voltou a roubar atenções com os Soft Play (ex-Slaves), que assinaram, para mim, o melhor concerto da noite: visceral, espontâneo, pesado e incrivelmente cativante. O duo mostrou que dois músicos podem criar um som tão completo quanto uma banda inteira. Com riffs criativos e energia para dar e vender, transformaram o espaço numa grande festa improvisada, com a participação ativa e entusiasmada do público.

Como uma das principais atrações da noite, Lola Young apresentou um espetáculo cheio de energia e emoção, com a plateia a cantar quase todas as músicas. A sua voz poderosa brilhou em êxitos como “Not Like That Anymore” e, especialmente, “Messy”, transformando o recinto num coro coeso e vibrante. A saída da artista com lágrimas nos olhos, resumiu bem o que foi concerto.
A fechar, os Portugal. The Man ofereceram um concerto bonito e competente, sustentado por uma voz marcante e um alinhamento que manteve a atenção do público do início ao fim.
Coura não é apenas música. É encontro, é cumplicidade, é pertença. É um lugar onde cada canção ecoa mais fundo, onde cada abraço parece mais sincero, onde o tempo corre de outra forma, e até o céu se transforma inesperadamente.
Dia 3 | Contrastes vocais, punk combativo e a densidade magnética de King Krule
A tarde começou no palco secundário com os Bar Italia, que apresentaram um concerto cru e divertido. A postura punk, a solidez da secção rítmica e a resposta imediata do público construíram um espetáculo direto e envolvente, confirmando o lugar da banda entre as mais interessantes do circuito alternativo atual.
No palco Vodafone, os Black Country, New Road ofereceram um dos momentos artísticos mais distintos do festival até então. Tyler Hyde, Georgia Ellery e May Kershaw, com intervenções ocasionais de Lewis Evans, teceram um mosaico vocal de rara riqueza tímbrica. Cada voz encontrou espaço próprio, carregada de uma intensidade quase teatral, transformando versos em pequenos monólogos. O concerto deixou uma marca profunda pela forma como equilibrava fragilidade e força em doses quase cinematográficas.
De regresso ao segundo palco, as Lambrini Girls provocaram um autêntico terramoto punk. Foram irreverentes e frontais, trazendo protestos, discursos inflamados, empatia social e um entrosamento arrebatador com a plateia. Entre mosh pits, wall of death e Phoebe Lunny a cantar no meio da multidão, o espetáculo tornou-se numa catarse coletiva. Lilly Macieira, firme e intensa no baixo, sustentou a energia que atravessou todo o concerto.
O grande destaque do dia, King Krule, trouxe densidade e magnetismo ao palco principal. A sua voz grave e inconfundível moveu-se entre o hip-hop e o indie rock com naturalidade, criando um ambiente de tensão e libertação. Dum Surfer incendiou a audiência e preparou terreno para um final apoteótico: “Easy Easy” e “Out Getting Ribs” foram recebidas como hinos geracionais, cantados em conjunto por uma multidão que parecia não querer despedir-se.

Dia 4 – Recordes, frescor ao sol e despedidas antecipadas
Coube aos Cassete Pirata inaugurar a tarde no palco secundário, e a escolha não podia ter sido mais certeira. O concerto rapidamente se transformou numa celebração, com a plateia a cantar e a dançar cada tema como se fosse um hino. “A Próxima Parada”, “Só Mais uma Hora” e “Tanta Vida pra Viver” foram entoadas colectivamente, criando um ambiente de comunhão tão intenso que quase soava a uma despedida antecipada do festival. No palco principal, logo a seguir, Ana Frango Elétrico inaugurou a programação com o recinto já em lotação máxima. A artista brasileira apresentou-se com uma segurança notável, aliando a sua voz delicada e expressiva a arranjos ricos, onde a sofisticação harmónica nunca abafou a leveza pop das composições. Entre guitarras coloridas, groove tipicamente brasileiro e letras que oscilam entre ironia e ternura, Ana conquistou Coura com um espetáculo coeso, refinado e envolvente.
Em contraste, o palco secundário recebeu as Chastity Belt, que ofereceram um concerto intimista e delicado. Funcionou quase como um respiro após a intensidade de Ana Frango Elétrico. Entregaram um espetáculo bem executado, marcado pela melancolia discreta das guitarras e pelas harmonias vocais cúmplices das americanas.
Pouco depois, os DIIV confirmaram a sua ligação natural ao espírito do festival com um concerto maduro e seguro. A banda nova-iorquina regressou a Coura com outra confiança. Embora Zachary Cole-Smith tente, por vezes, afastar o grupo da etiqueta de shoegaze, as guitarras líquidas continuam a ser a marca da sua identidade sonora. O momento alto chegou com “Doused”, capaz de transportar o público para uma festa perdida nos anos 80, onde melancolia e celebração se encontraram em perfeita sintonia. A seguir, foi a vez das Hinds trazerem uma lufada de ar fresco ao palco. O seu rock alternativo, cheio de leveza e alegria, mostrou porque continuam a ser uma das bandas mais queridas do circuito indie europeu. Guitarras cruas, refrões luminosos e uma cumplicidade contagiante entre as integrantes transformaram o concerto numa celebração permanente, em que o público se sentiu parte da própria banda.

Sharon Van Etten & The Attachment Theory subiram ao palco principal com um som visivelmente mais baixo do que o dos DIIV, mas isso não foi suficiente para ofuscar a intensidade da atuação. Sharon brilhou do início ao fim, com uma entrega vocal que, embora não seja estritamente lírica, carrega uma técnica próxima desse registo: notas prolongadas, ressonância plena e um legato envolvente. Essa dimensão vocal quase erudita criou uma harmonia natural com o público, que acompanhou desde os primeiros instantes, transformando o concerto num dos momentos mais emocionantes da noite.

Logo depois, os Air fizeram chover… literalmente. Durante a canção “Highschool Lover”, uma chuva breve caiu sobre a multidão, que celebrou o momento como se fosse parte do espetáculo. Foi um regresso memorável ao Vodafone Paredes de Coura, marcado por um concerto envolvente, delicado e cheio de texturas sonoras que hipnotizaram o público.
Coube aos Franz Ferdinand encerrar a edição de 2025. Escolhidos pela organização como responsáveis pelo fecho, ofereceram um concerto arrebatador, com direito a celebração do aniversário de Bob Hardy em palco. Revisitaram os principais êxitos da carreira e cativaram o público do início ao fim. “No You Girls”, “Walk Away”, “Take Me Out” e, finalmente, “This Fire” (em anos anteriores retirada dos alinhamentos devido a incêndios), simbolicamente e com o perdão do trocadilho, incendiaram o recinto, que parecia resistir em despedir-se.
Ao fim de quatro dias intensos, a sensação era paradoxal: felicidade imensa por ter vivido tudo aquilo e tristeza por saber que terminava. «Paredes é Paredes», como gostam de dizer Rui Oliveira e Sérgio Rodrigues, festivaleiros de longa data que conheci em edições passadas deste evento. Uma frase simples e absoluta, que resume o festival melhor do que qualquer texto poderia
Coura não é apenas música. É encontro, é cumplicidade, é pertença. É um lugar onde cada canção ecoa mais fundo, onde cada abraço parece mais sincero, onde o tempo corre de outra forma, e até o céu se transforma inesperadamente.
Entre estreias históricas, regressos aguardados e momentos de pura comunhão, a edição de 2025 foi, sem dúvida, uma das melhores experiências de festival da minha vida. E a saudade começou antes mesmo do regresso a casa.
Porque Coura é Coura. Sempre!
