Quase vinte anos depois do primeiro concerto em Portugal, precisamente no mesmo anfiteatro, os Bloc Party voltaram a Paredes de Coura como cabeça de cartaz.
O início do concerto dos Block Party em 2026 no Vodafone Paredes de Coura não foi o esperado. Durante cerca de vinte minutos, tocaram diante de uma plateia que parecia ter ido ver outra banda. Não era propriamente desinteresse, mas faltava reconhecimento, movimento e aquela resposta imediata esperada de um nome colocado tão alto no cartaz. Tudo mudou com “Song for Clay (Disappear Here)”. Foi nesse momento que o público pareceu finalmente reconhecer os Bloc Party diante de si e o concerto começou realmente a crescer.
Isso não significa que a primeira parte tenha sido fraca. “Coming on Strong”, uma das canções do próximo álbum, “Anatomy of a Brief Romance”, mostrou uma banda com mais peso, com uma sombra eletrónica próxima de Depeche Mode. O baixo, a bateria e os sintetizadores deram-lhe um corpo muito convincente. “Love Bombs” também ajudou a apresentar esta nova fase, enquanto “Mercury”, “Rough Justice”, “So He Begins to Lie”, “Blue” e “I Still Remember” recordaram que o percurso dos Bloc Party não termina no disco de estreia.
O início mais contido da plateia também coincidiu com alguns problemas técnicos de Russell Lissack. Durante várias canções, o guitarrista tentou perceber o que se passava com os pedais, chegou a substituir equipamento e acabou por continuar o concerto sem que a situação parecesse totalmente resolvida. Ainda assim, não permitiu que o contratempo quebrasse a atuação. As guitarras mantiveram a tensão e o recorte característicos da banda, mesmo quando era evidente que Lissack trabalhava com menos recursos do que o previsto.
Kele Okereke e Russell Lissack são hoje os únicos elementos da formação original, mas a renovação não diminuiu a qualidade instrumental do grupo. Harry Deacon alternou entre baixo e teclados, chegando por momentos a tocar ambos, e acrescentou espessura a um repertório que cruza guitarras nervosas, eletrónica e pulsação dançável. Louise Bartle destacou-se ainda mais. Precisa como um relógio e extremamente poderosa, dominou as batidas com uma segurança impressionante. O seu trabalho torna-se especialmente importante nas músicas mais recentes, cujas linhas rítmicas estão longe de ser simples.
Mas reduzir a resposta do público às canções de “Silent Alarm” seria ignorar muito do que aconteceu perto do palco.
A partir de “Song for Clay”, o concerto encontrou outra velocidade. “Banquet” provocou a primeira grande explosão coletiva. Mas reduzir a resposta do público às canções de “Silent Alarm” seria ignorar muito do que aconteceu perto do palco. “Traps” foi recebida com entusiasmo, “The Love Within” surgiu numa versão mais acelerada e levantou uma nuvem de pó, enquanto “Ratchet” encerrou a atuação com a pulsação física e dançável que fez do dance rock uma das assinaturas da banda.
“Hunting for Witches” encontrou uma plateia já completamente envolvida, “Positive Tension” reforçou a pressão e “Helicopter” voltou a provocar uma reação enorme. Ainda assim, um dos momentos mais bonitos pertenceu a “This Modern Love”. Kele pareceu ligeiramente surpreendido ao perceber que a canção continuava conhecida por praticamente todos. As vozes ergueram-se em conjunto e devolveram-lhe uma dimensão emocional que ultrapassou a simples nostalgia.
Kele Okereke continua vocalmente no ponto e conduziu a atuação com energia e segurança. Depois de quase três décadas marcadas por separações, alterações na formação e pequenos hiatos, a qualidade do conjunto permanece evidente. A formação atual mostrou competência técnica, entrega e capacidade para defender diferentes momentos do repertório sem recorrer a uma sucessão previsível de clássicos.
Ficou apenas uma ausência difícil de ignorar. “So Here We Are”, uma das canções mais bonitas dos Bloc Party, não entrou no alinhamento. Teria sido o complemento perfeito para o encerramento. Mesmo sem ela, e duas décadas depois daquela primeira passagem por Coura, a atuação foi excelente e mostrou que o passado da banda pode ser incontornável sem precisar de aprisionar tudo o que se seguiu,