O segundo dia do Vodafone Paredes de Coura fez do Palco Vodafone um lugar de contrastes, entre a força da palavra, a estranheza, a languidez e a beleza instrumental. A Garota Não, Aldous Harding, Kurt Vile e Hermanos Gutiérrez deram corpo a um dos blocos mais diversos da tarde, sem nunca seguir pelo caminho mais óbvio.
O segundo dia do Vodafone Paredes de Coura não começou propriamente em modo contemplativo no Palco Vodafone. A Garota Não entrou em alta, com palavra combativa, presença firme e um concerto que fez da canção uma forma de intervenção, como já nos tem habituado. Depois, sim, o palco principal foi abrindo espaço para outros tipos de escuta, com a delicadeza estranha de Aldous Harding, a languidez pouco inflamável de Kurt Vile e a elegância instrumental dos Hermanos Gutiérrez. Nem tudo teve o mesmo impacto, mas o bloco ajudou a desenhar um dia em que o Palco Vodafone viveu mais de contrastes do que de uma única linha de força.

A Garota Não abriu a tarde com um concerto de intervenção, afeto e confronto. A sua música não separa a canção da palavra dita, nem a beleza da urgência política, e em Coura isso ganhou uma força especial. Houve momentos de delicadeza, palavra cantada, raiva justa e uma ligação muito direta com um público ainda a compor-se àquela hora, mas atento ao que vinha do palco. Não foi apenas uma abertura simpática de tarde, foi uma tomada de posição.
Esse momento resumiu bem a natureza do concerto, com música como corpo, palavra como arma e palco como espaço de confronto. Num festival muitas vezes associado à descoberta e à comunhão, A Garota Não lembrou que a canção também pode ser uma forma de dizer não.
A certa altura, ao abordar a privatização das praias, a artista convocou José Saramago e transformou “Privatize-se Tudo” num grito de resistência que encontrou eco imediato no recinto. Esse momento resumiu bem a natureza do concerto, com música como corpo, palavra como arma e palco como espaço de confronto. Num festival muitas vezes associado à descoberta e à comunhão, A Garota Não lembrou que a canção também pode ser uma forma de dizer não.
Aldous Harding surgiu depois como uma mudança quase total de temperatura. O seu concerto viveu menos da afirmação frontal e mais de uma espécie de suspensão. Foi bonito, sensível e muito bem tocado, com uma voz aveludada que, em alguns momentos, podia lembrar a suavidade melódica de Dido, embora conduzida para um território mais estranho e menos previsível. Harding tem uma presença difícil de resumir. Não procura dominar o palco pela força, mas pela forma como obriga quem a vê a prestar atenção aos detalhes. Um gesto, uma pausa, uma inflexão vocal ou uma pequena alteração de expressão bastavam para mudar o peso de uma canção.
Essa delicadeza não significou fragilidade. Pelo contrário, havia no concerto uma segurança muito própria, quase silenciosa, assente na contenção e na subtileza. Aldous Harding não ofereceu um momento de festival feito para grandes coros ou explosões fáceis. Ofereceu antes uma escuta mais íntima, mesmo em palco grande, onde a beleza parecia vir sempre acompanhada de uma estranheza discreta. Foi uma atuação que talvez não tenha prendido todos da mesma forma, mas que deixou uma marca clara pela qualidade da interpretação e pela forma invulgar como ocupou o espaço.

Kurt Vile & The Violators trouxeram outro tipo de suspensão, mais ligada à guitarra e a um rock americano de andamento lânguido. O alinhamento passou por temas como “Hey Like a Child”, “Bassackwards”, “Rock o’ Stone”, “99 BPM”, “Girl Called Alex”, “Chance to Bleed”, “Pretty Pimpin” e “Waking on a Pretty Day”, num concerto coerente com o universo do músico norte-americano. A banda mostrou competência, boas guitarras e uma linguagem bem definida, entre folk-rock, psicadelismo leve e rock alternativo de baixa combustão.
Ainda assim, foi o momento que menos se impôs neste bloco do dia. Kurt Vile move-se num espaço curioso entre o rock e o pop, mas em Coura essa mistura ficou numa zona intermédia pouco estimulante. Tem alguma sujidade, mas faltou-lhe sal. Tem sentido melódico, mas raramente chega ao refrão que fica colado. Tem deriva, mas nem sempre encontra destino. Para quem já estava dentro daquela frequência, o concerto terá funcionado como uma viagem relaxada e fiel ao seu mundo. Visto de fora, pareceu sobretudo correto, agradável em partes, mas sem grande capacidade de transformar o anfiteatro.


Hermanos Gutiérrez ofereceram a versão mais depurada e cinematográfica da guitarra no Palco Vodafone. O duo suíço-equatoriano trabalha num território instrumental de enorme elegância, entre ecos de western, música latina, deserto imaginário e banda sonora para viagens que não precisam de palavras.
Mais tarde, Hermanos Gutiérrez ofereceram a versão mais depurada e cinematográfica da guitarra no Palco Vodafone. O duo suíço-equatoriano trabalha num território instrumental de enorme elegância, entre ecos de western, música latina, deserto imaginário e banda sonora para viagens que não precisam de palavras. São suntuosos nos instrumentos que tocam, quase perfeitos na forma como deixam cada nota respirar, e há uma beleza evidente naquela economia de gestos. Nada sobra, nada parece apressado, tudo encontra o seu lugar.
Talvez por isso o horário tenha levantado uma dúvida. A música dos Hermanos Gutiérrez parece feita para abrir horizontes, não necessariamente para carregar o peso de uma noite já avançada. Teriam sido perfeitos ao fim da tarde, talvez até no momento do eclipse, quando o festival olhava para o céu e pedia uma banda sonora sem pressa. O som é lindíssimo e seria fácil passar uma tarde inteira a ouvi-los à beira-mar, ou uma noite com vinho e boa conversa. Em palco principal, naquele ponto do dia, a beleza manteve-se intacta. Só foi pena que, durante os primeiros minutos, o som vindo do Palco Coura Sem Paredes, onde o concerto anterior ainda terminava, tenha atrapalhado um pouco a audição. Ainda assim, ficou a sensação de que aquele universo teria brilhado ainda mais noutro enquadramento.
Este bloco do Palco Vodafone acabou por mostrar uma das virtudes e uma das dificuldades de Paredes de Coura. A programação arrisca contrastes, coloca artistas muito diferentes em sequência e nem sempre procura a eficácia mais óbvia. Às vezes o resultado é magnético. Outras vezes fica num equilíbrio mais irregular. Mas foi precisamente nessa irregularidade que o segundo dia encontrou parte da sua identidade. Entre a palavra combativa de A Garota Não, a delicadeza estranha de Aldous Harding, a languidez de Kurt Vile e a elegância instrumental dos Hermanos Gutiérrez, o palco principal mostrou que nem só de catarse vive um festival.
