Vodafone Paredes de Coura 2026: Amyl and the Sniffers fecham o festival com o último grito
(c) Hugo Lima

Vodafone Paredes de Coura 2026: Amyl and the Sniffers fecham o festival com o último grito

17/08/2026

Review

Amyl and the Sniffers
10/10
Ambiente
10/10
Som
9/10
Overall
9.7/10

Os Amyl and the Sniffers fecharam o Vodafone Paredes de Coura em modo de ataque, num concerto sempre a abrir e com energia suficiente para transformar o cansaço de quatro dias numa última explosão.

Conheci os Amyl and the Sniffers há alguns anos, numa daquelas sugestões do Instagram que às vezes acertam mesmo. Fui acompanhando o crescimento da banda à distância até vê-los pela primeira vez em 2024, em Londres, durante uma visita a um amigo. O concerto foi numa sala de dimensão média, suficientemente perto para sentir que aquilo ainda pertencia a quem tinha chegado cedo à festa. Depois do que se viu no último dia do Vodafone Paredes de Coura, esse privilégio dificilmente se repetirá da mesma forma.

A banda australiana chegou a Coura para fechar o palco principal e tocou como se ainda fosse preciso convencer alguém. Não era preciso, mas essa é precisamente uma das forças dos Amyl and the Sniffers. Mesmo quando o nome já cresceu, mesmo quando o estatuto já mudou, mesmo depois de várias actuações em Portugal, continuam a tocar com a urgência de quem não quer deixar nada por dizer. Foi um concerto enérgico, poderoso e quase sem pausas, fiel ao lado mais honesto da história do punk, aquele que vive de corpo, suor, velocidade e frontalidade.

A ausência de Gus Romer notava-se para quem conhecia a formação habitual da banda. O baixista encontra-se temporariamente afastado da digressão para descansar, com regresso previsto mais à frente, e o lugar em palco foi ocupado por Lakota Vella. A substituição, em vez de retirar força ao concerto, acabou por lhe dar um brilho diferente em alguns momentos. A presença de Lakota nos refrões e nas respostas vocais trouxe uma energia que fazia lembrar a linhagem de bandas como L7, Bikini Kill ou The Runaways, não como citação direta, mas como memória de um rock feminino desempoeirado, insolente e sem vontade de bater à porta para entrar.

Amy Taylor continua a ser o centro magnético da tempestade. Canta como quem cospe verdades curtas, corre o palco com uma energia quase imprudente e transforma cada tema numa pequena explosão de atitude. Não há pose estudada no sentido frio da palavra, há instinto, velocidade, humor, agressividade e uma estranha alegria no meio do caos. A sua presença faz com que o concerto nunca pareça apenas música tocada alto, mas antes uma ordem para acordar.

O alinhamento ajudou a manter essa sensação de avanço constante. “Control” abriu caminho, “Do It Do It” aumentou a pressão e “Freaks to the Front” confirmou logo cedo que a noite não seria de gestão. “Capital”, “Security”, “Doing in Me Head” e “Guided by Angels” mantiveram a banda em modo ataque, com guitarras secas, bateria em combustão e baixo a empurrar tudo para a frente. A cada entrada, a sensação era menos de sequência de canções e mais de rajada.

Amyl and the Sniffers não são banda para despedidas em tom solene. São banda para deixar a última palavra em forma de grito. Coura precisava de fechar vivo, não arrumado. E os australianos fizeram exatamente isso. Ligaram as guitarras, aceleraram o pulso e lembraram que, às vezes, o melhor fim possível é aquele que não sabe baixar a voz.

Pelo meio, a banda também mostrou que o punk continua a ser mais interessante quando não se limita à caricatura da fúria. “Big Dreams” abriu outra respiração, “Me and The Girls” trouxe esse lado de pertença e afirmação que atravessa o universo da banda, e “Chewing Gum” e “Tiny Bikini” mostraram como os Amyl and the Sniffers conseguem cruzar sarcasmo, desejo, provocação e refrões imediatos sem perder nervo. A música deles pode soar simples ao primeiro impacto, mas essa simplicidade é trabalhada com uma inteligência muito própria.

A reta final foi uma sequência de desgaste feliz. “U Should Not Be Doing That” já chegou como hino de uma banda em plena afirmação, “Jerkin’” levou a provocação mais longe, “Hertz” manteve o corpo do público em movimento e “Some Mutts (Can’t Be Muzzled)” funcionou como despedida natural de uma atuação que nunca abrandou de verdade. Mesmo sem encore, o concerto teve sensação de encerramento completo. Não faltou prolongamento porque a descarga já tinha cumprido a função.

O mais impressionante foi perceber como aquela energia, que em sala pequena já parecia enorme, ganhou outra escala sem perder o cheiro a suor. Em Londres, em 2024, os Amyl and the Sniffers ainda podiam parecer um segredo a crescer depressa. Em Paredes de Coura, já eram outra coisa. Uma banda pronta para fechar festivais, comandar multidões e transformar o cansaço acumulado de quatro dias numa última explosão coletiva.

O festival terminou com um concerto sem cerimónia sentimental, e ainda bem. Amyl and the Sniffers não são banda para despedidas em tom solene. São banda para deixar a última palavra em forma de grito. Coura precisava de fechar vivo, não arrumado. E os australianos fizeram exatamente isso. Ligaram as guitarras, aceleraram o pulso e lembraram que, às vezes, o melhor fim possível é aquele que não sabe baixar a voz.