O eclipse fez o Vodafone Paredes de Coura parar para olhar para o céu, no entanto era necessário chamar o público de volta. CMAT tratou disso no Palco Vodafone, entre humor, teatralidade e canções que transformaram rapidamente a suspensão do dia numa festa. Depois de alguns minutos a olhar para cima, Coura voltou a olhar para o palco.
Depois do eclipse, havia um pequeno problema para resolver no Vodafone Paredes de Coura. Como é que se devolve um festival à terra depois de o público inteiro ter passado alguns minutos a olhar para o céu? A resposta apareceu no Palco Vodafone de vestido vermelho, humor afiado, uma banda exuberante e uma noção bem afincada de espetáculo. CMAT não entrou apenas para tocar depois do fenómeno do dia, entrou como quem percebeu que a noite precisava de mudar de energia. E mudou!
Quando CMAT subiu a palco, o concerto encontrou rapidamente o seu tom. Humor, energia imediata, dramatismo e uma espécie de descontrolo muito bem controlado. “The Jamie Oliver Petrol Station” abriu a noite como porta de entrada perfeita para aquele mundo de títulos absurdos, refrões com personalidade e teatralidade sem medo do ridículo. Ainda no arranque, “I Don’t Really Care for You”, do primeiro álbum, de 2022, confirmou que CMAT não precisa de escolher entre canção pop, ironia e melodrama. Junta tudo no mesmo gesto, como se fosse a coisa mais natural do mundo. E “When a Good Man Cries” puxou mais para esse lado country que nela nunca soa a fantasia americana importada, mas antes a um idioma emocional próprio, com botas na lama, coração partido e mão no peito, tudo com um sorriso ao canto da boca.
Tudo nela parece maior do que a vida. Os gestos, as expressões, as poses, a forma como segura o palco, a teatralidade quase operática com que transforma cada pausa num pequeno número.
Ciara Mary-Alice Thompson, nome completo por trás das iniciais CMAT, tem essa capacidade estranha de parecer simultaneamente exagerada e verdadeira. Tudo nela parece maior do que a vida. Os gestos, as expressões, as poses, a forma como segura o palco, a teatralidade quase operática com que transforma cada pausa num pequeno número. Mas o truque, se é que se pode chamar truque, é que nada soa vazio. Por trás da comédia, do excesso e da pose calculadamente desarrumada, há canções muito bem escritas e uma voz que segura o espetáculo inteiro sem pedir permissão à personagem.

Ao vivo, CMAT funciona porque nunca separa totalmente a piada da ferida. Está sempre a brincar com o público, a comentar, a exagerar, a criar pequenas cenas entre músicas, como se o concerto também fosse conversa de balcão, confissão exagerada e cabaré emocional. A certa altura, ao recordar o primeiro álbum e a ligação a Portugal, prestou homenagem à Super Bock bebendo uma lata inteira rapidamente. Marketing? Talvez. Ou talvez apenas CMAT a perceber que, num festival português, uma cerveja pode ser mais eficaz do que três frases decoradas sobre o país. Disse que amava Portugal, claro. No entanto, naquele momento, mostrou-o à sua maneira, meio absurda, meio teatral, totalmente convincente.
A banda ajudou muito a dar escala a tudo isto. E não apenas musicalmente. Todos os músicos surgiram de vestido ou com trajes femininos, reforçando aquela ideia de espetáculo onde identidade, humor, liberdade e performance andam de mãos dadas. Não era cenário vazio, era parte do mundo CMAT. Uma banda que se apresenta como família alternativa, colorida, desempoeirada, sem vontade nenhuma de obedecer à imagem convencional do country ou da pop de grande palco. Guitarras calorosas, baixo firme, bateria a empurrar a festa, teclados a abrir espaço e violino a puxar a música para uma zona onde a folk irlandesa, o country-pop e o dramatismo de festival se encontram sem pedir desculpa.
“Have Fun!” entrou algures pelo caminho como uma daquelas canções que explicam bem a forma como CMAT trabalha. A leveza nunca é totalmente leve, a festa nunca é só festa, e há sempre qualquer coisa por baixo do brilho. “Take a Sexy Picture of Me” foi um dos momentos centrais da atuação, não apenas pelo impacto imediato ou pelo lado já reconhecível que carrega, mas pela forma como transforma insegurança, exposição e amor-próprio numa canção luminosa sem apagar o que está por baixo. É pop com sorriso aberto, sim, mas não é pop sem sombra. CMAT sabe escrever refrões que parecem fáceis e depois deixam uma espécie de nó atrás.
É pop com sorriso aberto, sim, mas não é pop sem sombra. CMAT sabe escrever refrões que parecem fáceis e depois deixam uma espécie de nó atrás.
“EURO-COUNTRY” trouxe outro peso. Não no sentido de volume, mas de identidade. Há qualquer coisa naquela canção que parece explicar muito do projeto, entre a Irlanda, a Europa, a vergonha herdada, a vontade de pertencer e de fugir ao mesmo tempo, tudo filtrado por uma escrita que não tem medo de ser dramática. Em Coura, esse drama funcionou bem precisamente porque nunca veio sozinho. Havia humor antes, festa depois, e pelo meio uma artista capaz de rir de si própria sem transformar a própria dor numa caricatura.
Pelo meio, ainda houve espaço para um gesto que se repetiu praticamente em todas as apresentações do dia. «Free Palestine» ao ritmo da bateria, um grito curto que a percussão ajudou a segurar no ar mais tempo do que uma simples palavra de ordem costuma durar. Não foi caso isolado de CMAT, avistou-se várias camisolas com a mesma mensagem pelo recinto, sinal de que aquele não era um gesto isolado dentro de um concerto, mas antes uma presença constante no festival inteiro.
O concerto foi crescendo nessa alternância entre espetáculo e confissão. CMAT fala com o público como se estivesse numa sala mais pequena, mesmo quando tem diante de si o Palco Vodafone e um anfiteatro natural já completamente disponível para entrar no jogo. Há artistas que tentam conquistar festivais pela força, CMAT conquistou pela cumplicidade. Faz uma piada, exagera uma expressão, atira o corpo para uma pose impossível, deixa a banda brilhar, volta ao centro, canta como se aquela frase tivesse acabado de lhe acontecer. É tudo muito pensado, claro. Mas também parece vivo. E não é fácil encontrar esse equilíbrio.
Depois do fenómeno no céu, podia ter sido difícil recentrar o festival. CMAT e os seus companheiros de festival conseguiram-no com inteligência, humor, voz, teatralidade e canções suficientes para justificar a subida de divisão que parece cada vez menos uma promessa e cada vez mais um facto.
Houve ainda algo especialmente eficaz na forma como o concerto surgiu naquele ponto do dia. O eclipse tinha criado uma suspensão coletiva, a música, durante alguns minutos, tinha ficado em segundo plano. CMAT fez o movimento contrário e trouxe a multidão de volta ao corpo. Voltaram os sorrisos, os refrões, a dança, os braços no ar, aquela leve desorganização feliz que só um bom concerto de festival consegue provocar. Depois de tanta gente olhar para cima, a artista lembrou que também havia muito para ver em frente.
A reta final confirmou tudo. “I Wanna Be a Cowboy, Baby!” trouxe essa mistura perfeita entre brincadeira, desejo de reinvenção e festa sem vergonha que atravessa o universo do projecto, “Stay for Something” fechou com o lado mais emocional da noite, uma despedida que não parecia querer fechar completamente a porta. A canção ganhou outra dimensão quando CMAT deixou de aceitar a distância natural entre palco e plateia. Saltou as grades, desceu ao público e foi engolida por aquela massa feliz que já a tinha acompanhado durante todo o concerto.

Foi o momento mais bonito da atuação. Há gestos que podem parecer truques quando não são merecidos. Aqui não. Aqui foi consequência. O concerto tinha sido construído nessa proximidade, nessa ideia de que artista, banda e público estavam todos dentro da mesma brincadeira séria. Quando ela se meteu no meio da plateia, apenas levou essa promessa até ao fim. A certa altura, já não era apenas uma artista a atuar para uma multidão. Era uma espécie de festa com banda, refrões, cerveja, vestidos, humor e um sentido muito próprio de comunidade.
CMAT foi das primeiras grandes actuações do Vodafone Paredes de Coura 2026, não por ter sido impecável no sentido frio da palavra, mas por ter percebido exatamente o que aquele palco, aquela noite e aquele público pediam. Depois do fenómeno no céu, podia ter sido difícil recentrar o festival. CMAT e os seus companheiros de festival conseguiram-no com inteligência, humor, voz, teatralidade e canções suficientes para justificar a subida de divisão que parece cada vez menos uma promessa e cada vez mais um facto.
O eclipse tinha roubado merecidamente o primeiro grande momento do dia. CMAT não tentou competir com ele. Fez melhor. Esperou que a luz voltasse, bebeu Portugal de uma golada e tomou conta da festa.
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