Vodafone Paredes de Coura 2026: Da delicadeza de Patrick Watson e Cate Le Bon ao sopro coletivo dos Meute
©Hugo Lima

Vodafone Paredes de Coura 2026: Da delicadeza de Patrick Watson e Cate Le Bon ao sopro coletivo dos Meute

17/08/2026

Review

Patrick Watson
8/10
Cate Le Bon
8/10
Meute
9/10
Som
8/10
Ambiente
8/10
Overall
8.2/10

No último dia do Vodafone Paredes de Coura, Patrick Watson, Cate Le Bon e MEUTE foram fazendo o Palco Vodafone crescer aos poucos. Entre a delicadeza de Patrick Watson, a sofisticação de Cate Le Bon e a energia dos MEUTE, a tarde ganhou progressivamente mais corpo e movimento, preparando o palco para a reta final do festival.

O último dia do Vodafone Paredes de Coura começou no Palco Vodafone com uma sequência particularmente curiosa. Antes da descarga final de Amyl and the Sniffers e da viagem técnica de Thundercat, o palco principal abriu espaço para três formas muito diferentes de ocupar a tarde e o início da noite. Patrick Watson reduziu tudo ao piano, à voz e à exposição total. Cate Le Bon trouxe uma elegância pop mais oblíqua, finalmente com banda a dar corpo ao início do dia. MEUTE apareceram depois como a exceção mais física do bloco, uma formação de metais e percussão a transformar a lógica da eletrónica numa festa respirada por instrumentos.

Patrick Watson entrou quase como continuação natural do que Noiserv tinha feito no Palco Coura Sem Paredes. Depois de um homem só mostrar, no palco secundário, como a solidão também pode encher um recinto quando existe imaginação suficiente, o canadiano apresentou-se com a mesma ideia para o Palco Vodafone, agora ao piano e com outro tipo de delicadeza. Houve uma pequena falha de som logo na primeira música, mas o contratempo passou praticamente ao lado da essência do concerto. Watson não precisa de grande aparato para se impor. Tem voz, tem domínio dos instrumentos e tem aquele jeito de fazer a fragilidade parecer construção, não acidente.

O momento mais emotivo chegou com a entrada de November Ultra, cantora franco-portuguesa que trouxe outra luz ao concerto. A presença dela fez a tarde abrir-se um pouco mais, não por quebrar a intimidade, mas por lhe acrescentar uma respiração diferente. As duas músicas em que participou receberam aplausos mais efusivos da plateia e confirmaram que aquele início de dia funcionava melhor quando aceitava a sua própria escala. Não era um concerto para levantar pó, nem para inaugurar a noite em modo festa. Era uma entrada de pés descalços, bonita, sensível e muito bem conduzida, daquelas que pedem silêncio antes de pedirem entusiasmo.

Vodafone Paredes de Coura 2026: Da delicadeza de Patrick Watson e Cate Le Bon ao sopro coletivo dos Meute
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Cate Le Bon manteve a tarde num registo de sofisticação discreta, mas com outra densidade. A voz surgiu limpíssima, a banda mostrou-se coesa e expressiva, e o concerto teve a vantagem de já não viver apenas da figura solitária em palco. Depois de Noiserv e Patrick Watson, essa presença coletiva fez diferença. A artista galesa não procura a eficácia mais óbvia, nem entrega canções moldadas para reação fácil. Trabalha antes num território em que a pop se inclina para a estranheza, sem perder elegância. A ligação a nomes como St. Vincent ajuda a situar esse universo, mas ao vivo Cate Le Bon afirmou-se por mérito próprio, com uma atuação precisa, bem tocada e alinhada com o ritmo mais contemplativo do fim da tarde.

Foram uma lembrança de que a música instrumental, quando tocada com precisão e alegria física, também consegue falar diretamente ao corpo.

MEUTE mudaram a temperatura do Palco Vodafone. Depois de dois concertos mais recatados, o coletivo alemão entrou como uma pequena comunidade em movimento, feita de sopros, percussão, coordenação e fôlego. A proposta é simples de explicar, mas difícil de executar com aquela eficácia: pegar na linguagem do techno e retirá-la do domínio das máquinas, entregando-a a corpos, pulmões, braços e instrumentos acústicos. Em Coura, resultou. O público percebeu depressa o convite e respondeu com uma disponibilidade física que talvez tenha surpreendido quem ainda os via como curiosidade de cartaz.

O mais interessante nos MEUTE é que a música não precisa de tradução. Não há vocalista a conduzir a narrativa, não há refrão para segurar a multidão e não há computador a esconder imperfeições. Há arranjos de grande competência, metais a abrir espaço, percussão a empurrar tudo para a frente e uma sensação de celebração globalizada, como se uma fanfarra, uma pista de dança e uma rua em festa se encontrassem no mesmo sítio. Pode não ser uma fórmula para ouvir durante horas sem perder impacto, mas durante aquele bloco funcionou com clareza. Quando se tem música feita por gente tão competente, por vezes não é preciso dizer nada.

A ligação dos MEUTE à rua também ajuda a perceber melhor o projeto. Depois de Paredes de Coura, o coletivo anunciou concertos gratuitos no Jardim do Morro, em Gaia, e no Jardim da Cerca da Graça, em Lisboa, mantendo viva a tradição que esteve na origem da banda. Faz sentido! A música deles parece nascer tanto do palco como do passeio, tanto da disciplina de ensaio como do impulso de juntar pessoas num espaço aberto. Em Coura, essa ideia ganhou escala de festival. Os MEUTE não foram apenas uma anomalia simpática no alinhamento. Foram uma lembrança de que a música instrumental, quando tocada com precisão e alegria física, também consegue falar diretamente ao corpo.