Do escritório dos Carolina Durante à liturgia eletrónica de M.I.A., passando pelo universo quase celestial de Benjamin Clementine, o Palco Vodafone atravessou diferentes linguagens e estados de espírito. Três concertos muito distintos, unidos pela capacidade de transformar o palco num lugar com identidade própria, entre o indie rock direto, o piano de uma intensidade rara e uma celebração pop-religiosa completamente imprevisível.
Os Carolina Durante abriram a programação do Palco Vodafone ao terceiro dia do Vodafone Paredes de Coura com o seu cenário tão curioso quanto trabalhoso, preenchido por secretárias, computadores antigos, monitores de tubo, impressoras e móveis vindos de outro tempo. A decoração criava uma espécie de escritório abandonado, embora a música avançasse com uma energia bem mais imediata. O indie rock do grupo espanhol recebe boas doses de pop e punk, numa combinação simples, direta e suficientemente contagiante para animar o anfiteatro desde o início da tarde.
A banda não procura complicar aquilo que funciona. As canções partem de estruturas básicas, facilmente imaginadas ainda em voz e guitarra, e ganham em palco o impulso necessário para chegar ao público sem grandes desvios ou experiências. Essa falta de risco também define os limites da atuação, mas nunca chegou a torná-la desinteressante. Nem a interferência sonora do palco secundário, audível nas duas primeiras músicas e novamente no final, conseguiu estragar um concerto bastante agradável.

Benjamin Clementine mudou por completo a aparência e a temperatura do palco. Uma produção quase inteiramente branca envolvia o piano e criava um espaço de grande impacto visual, provavelmente o mais cuidado do festival até então. Com os pés descalços, óculos escuros e um sobretudo aberto sobre o corpo, o músico britânico ocupava aquele cenário luminoso com uma presença difícil de classificar. A sua música pode soar bucólica, espiritual, teatral ou solene, muitas vezes dentro da mesma composição.
Ao piano, Clementine foi como sempre extraordinário. A técnica nunca surgiu como exibição gratuita, servindo antes uma voz lindíssima, ampla e capaz de passar da delicadeza ao assombro em poucos segundos. O público conhecia as canções e cantou vários dos temas mais celebrados, confirmando uma ligação muito particular entre o artista e Portugal. No seu 26.º concerto no país, voltou a ser recebido com uma devoção que talvez não encontre com a mesma intensidade noutros lugares.
Clementine caminhava, gesticulava, ensinava versos à plateia e conduzia as respostas com uma autoridade quase cerimonial. Por vezes, o espetáculo aproximava-se de um ritual. Noutras, parecia teatro construído por um único protagonista.
A força de “Nemesis”, “Adios”, “I Won’t Complain”, “Condolence” e “Cornerstone” transformou o anfiteatro num espaço de celebração, sem retirar humanidade à atuação. Clementine caminhava, gesticulava, ensinava versos à plateia e conduzia as respostas com uma autoridade quase cerimonial. Por vezes, o espetáculo aproximava-se de um ritual. Noutras, parecia teatro construído por um único protagonista. O resultado foi um concerto belíssimo, produzido ao detalhe e sustentado por duas qualidades impossíveis de encenar: uma voz arrebatadora e um domínio absoluto do piano.

M.I.A. levou o Palco Vodafone para um território completamente diferente. A componente sonora era assumidamente mecânica, apoiada em bases eletrónicas, enquanto a artista parecia cantar efetivamente e com uma voz segura. Dançarinos entravam e saíam, as roupas prateadas reforçavam uma estética futurista e as primeiras músicas recuperavam a energia provocadora que fez dela uma das figuras mais marcantes da música popular dos anos 2000.
A certa altura, o espetáculo mudou de natureza. Um coro de nove pessoas ocupou o palco, as luzes desenharam uma cruz cristã e a atuação assumiu a forma de uma celebração religiosa eletrónica. A fé recentemente assumida por M.I.A. ocupou o centro do espetáculo entre alumínio, trance, gospel e imagens religiosas. A passagem entre as duas partes foi tão radical que quase parecia dividir a noite em apresentações distintas. A primeira pertencia à artista combativa e dançável que o público conhecia. A segunda revelava uma evangelizadora empenhada em apresentar a sua nova identidade.

“Paper Planes” acabou por reunir novamente todos no mesmo lugar. Uma parte considerável do público levantou os telemóveis para registar o maior sucesso de M.I.A., encerrando uma atuação musicalmente eficaz, visualmente forte e frequentemente insólita. Entre a plateia, vários fãs exibiam chapéus de alumínio numa brincadeira com as teorias da artista sobre o 5G e a Covid-19. A imagem resumia bem o ambiente. Ninguém precisava de partilhar as suas convicções para entrar no espetáculo. Bastava aceitar que, durante aquela hora, a fronteira entre concerto, provocação, culto religioso e delírio pop ficaria completamente baralhada.