O primeiro dia do Vodafone Paredes de Coura 2026 teve um cabeça de cartaz inesperado. Entre guitarras, vozes e os primeiros concertos da edição, foi o céu que acabou por roubar todas as atenções, com um eclipse solar a mergulhar o recinto numa escuridão quase total. Em Coura, onde a música se mistura com a paisagem, houve durante alguns minutos um espetáculo que não estava no alinhamento, mas que ninguém quis perder.
Alguns festivais anunciam-se pelo cartaz. O Vodafone Paredes de Coura é um pouco diferente. Anuncia-se também pelo caminho, pelo rio, pela relva e por aquele anfiteatro natural que, pela forma como abraça o recinto, parece sempre ter estado ali à espera de mais uma edição.
Voltar a Coura é regressar a um daqueles lugares onde a música não parece apenas programada, mas instalada. Há palcos, horários, escolhas difíceis e sobreposições inevitáveis, claro. Mas há também uma espécie de pacto silencioso: quem vem sabe que vai descobrir alguma coisa. Às vezes uma banda. Às vezes uma canção. Às vezes amores. E, especialmente nesta edição, até um eclipse. Sim, como se também fizesse parte do cartaz do primeiro dia do festival.
Os concertos importantes do festival terão o seu espaço, com o respeito que merecem. Mas seria desonesto não começar esta edição de 2026 por outro lado. No primeiro dia, antes de qualquer cabeça de cartaz musical, houve um instante em que o festival inteiro mudou de direção e olhou para cima. E, curiosamente, teve até bandas a fazer a primeira parte.
A “Primeira Parte”
O dia começou com essa sensação boa de festival ainda a abrir os olhos. O recinto a compor-se, o público a chegar aos poucos, a relva ainda com espaço para respirar e o Palco Vodafone entregue aos Westside Cowboy. A banda de Manchester foi uma bela escolha para abrir a edição: guitarras barulhentas, mas bem entrosadas, vozes muito harmoniosas e aquele espírito de grupo em que todos parecem acrescentar qualquer coisa ao corpo das canções. O baterista, criativo e sempre atento, deu músculo ao concerto, e o final, com todos reunidos à volta de um único microfone, numa canção de sabor tradicional irlandês, deixou uma imagem bonita de comunhão antes de o dia começar verdadeiramente a acelerar.
Pouco depois, Greg Freeman trouxe outro peso ao Palco Coura Sem Paredes. No papel, pode ser arrumado no folk rock, com aquela figura de songwriter norte-americano que facilmente chama à memória Bob Dylan e outras sombras da canção de estrada. Ao vivo, porém, a coisa foi bem mais densa. Tanto Greg como o guitarrista ao seu lado puxavam as partes mais fortes para um território mais elétrico, quase abrasivo, dando às músicas uma espessura que escapava à ideia mais confortável de folk. Foi um concerto com raiz, sim, mas também com dentes.
Só que, por volta dessa altura, já se percebia que havia outro espetáculo a disputar a atenção no festival. Entre uma música e outra, um copo e uma conversa, as cabeças começaram a inclinar-se para cima. Óculos especiais circulavam de mão em mão, muitos distribuídos pelo festival, e de repente havia milhares de pessoas a fazer a mesma coisa: olhar para o céu. Num festival habituado a orientar corpos para os palcos, foi estranho e bonito ver o público virar-se todo na direção contrária.
Em Paredes de Coura, a Lua chegou a tapar quase por completo o Sol. Restava apenas um fio de luz, uma linha fina a resistir no céu, e foi o suficiente para transformar a tarde em outra coisa. O dia escureceu a sério, de uma forma que nenhuma nuvem consegue imitar, como se alguém tivesse baixado devagar o brilho do mundo até quase o apagar.
O “Cabeça de Cartaz”
Em Paredes de Coura, a Lua chegou a tapar quase por completo o Sol. Restava apenas um fio de luz, uma linha fina a resistir no céu, e foi o suficiente para transformar a tarde em outra coisa. O dia escureceu a sério, de uma forma que nenhuma nuvem consegue imitar, como se alguém tivesse baixado devagar o brilho do mundo até quase o apagar. Não ficou noite completa, mas ficou perto disso. Houve uma suspensão. Aquele instante em que toda a gente percebe que está a ver algo raro, sem precisar de o exagerar, porque a própria luz já estava a fazer esse trabalho. O recinto continuava ali, os palcos continuavam ali, a música continuava a existir, mas durante alguns minutos pareceu que tudo tinha ficado em segundo plano.
Foi impossível não filmar, fotografar, tentar guardar. Mesmo sabendo que há coisas que o telemóvel nunca apanha bem. A câmara regista a luz, talvez o escurecimento, talvez a multidão de olhos levantados, mas não guarda completamente a sensação. Não guarda aquele silêncio estranho misturado com comentários, risos, exclamações, pequenas partilhas entre desconhecidos. Não guarda a felicidade simples de alguém emprestar uns óculos a quem não tinha. Não guarda a expressão de espanto de quem, por segundos, parece voltar a ser criança diante de uma coisa enorme e inexplicável.
E houve qualquer coisa de profundamente certa em isto acontecer em Coura. Noutro festival, talvez fosse apenas uma interrupção curiosa. Ali, naquele anfiteatro natural, com a relva cheia de gente e as montanhas à volta, o eclipse pareceu encaixar no lugar.
E houve qualquer coisa de profundamente certa em isto acontecer em Coura. Noutro festival, talvez fosse apenas uma interrupção curiosa. Ali, naquele anfiteatro natural, com a relva cheia de gente e as montanhas à volta, o eclipse pareceu encaixar no lugar. Como se o próprio recinto tivesse sido desenhado também para isto: não só para olhar para palcos, mas para lembrar que há espetáculos que não precisam de produção, alinhamento ou encore. O céu fez a sua parte. O público fez a sua também. Aplaudiu, comentou, gravou, apontou, sorriu, ficou quieto por momentos. Raramente se vê tanta gente num festival tão concentrada no mesmo silêncio.
Para quem estava em palco naquele período, a tarefa era ingrata. Salvador Sobral e os First Breath After Coma atuavam à hora em que o fenómeno atingia o centro das atenções, e não há voz, banda ou arranjo que vença facilmente a passagem da Lua diante do Sol. Não por falta de mérito musical, mas porque há acontecimentos que simplesmente mudam a hierarquia do dia. Durante alguns minutos, o cabeça de cartaz não estava no Palco Vodafone nem no Palco Coura Sem Paredes. Estava acima de todos.
Talvez seja essa a memória que ficará do arranque do Vodafone Paredes de Coura 2026. O primeiro grande momento coletivo do festival não veio de uma guitarra, de uma voz ou de um refrão. Veio da luz a desaparecer devagar sobre Coura. E foi lindo. Durante alguns minutos, o festival deixou de se medir em palcos, nomes e horários. Mediu-se em silêncio, espanto e cabeças levantadas. A música continuava, mas era o céu que comandava o recinto. E, sem precisar de encore, levou a primeira grande ovação da edição.