Vodafone Paredes de Coura 2026 | Palco Coura Sem Paredes: as descobertas que deram corpo ao festival
© Hugo_Lima

Vodafone Paredes de Coura 2026 | Palco Coura Sem Paredes: as descobertas que deram corpo ao festival

19/08/2026

O Palco Coura Sem Paredes voltou a justificar o nome. Não como palco de espera, nem como simples alternativa ao Palco Vodafone, mas como espaço onde o festival pôde respirar de outra maneira.

Ao longo dos quatro dias de Vodafone Paredes de Coura, algumas das melhores descobertas passaram pelo Palco Coura Sem Paredes, longe da obrigação de confirmar estatutos maiores e perto daquela sensação que sempre fez parte do ADN de Paredes de Coura. Chegar sem certezas, ficar por curiosidade e sair com uma banda nova na cabeça. Greg Freeman foi um bom exemplo desse território. À primeira vista, podia parecer apenas mais um nome encostado à tradição folk-rock norte-americana, com ecos de Dylan na escrita, na voz ligeiramente desalinhada e naquela forma de cantar que nunca procura polimento excessivo. Mas o concerto teve mais corpo do que essa descrição deixaria prever. As guitarras trouxeram peso, a banda deu densidade às canções e a entrega puxou tudo para fora do registo puramente acústico ou contemplativo. A desafinação clássica do estilo, quando aparecia, não incomodava. Fazia parte daquela imperfeição que aproxima a música de quem está ali apenas a ouvir, sem pedir brilho artificial.

Horsegirl trouxeram outro tipo de sonoridde. O trio norte-americano apareceu com um som cru, guitarras fortes e distorcidas, vozes bem encaixadas e uma forma de tocar que ainda guarda qualquer coisa de formação em andamento, mas já com identidade clara. As referências ao indie rock de guitarras dos anos 90, ao noise pop e a uma certa escola universitária americana estão lá, no entanto, o concerto não viveu apenas de reverência. Ficou a sensação de uma banda jovem, segura da sua própria estranheza, capaz de transformar rugosidade em encanto. O som podia ser áspero, por vezes quase seco, mas nunca pareceu vazio. As guitarras compensavam qualquer fragilidade com presença e tensão.

No segundo dia, TOMODE mudaram a temperatura do palco com uma proposta muito mais luminosa. A banda sueca trouxe disco, funk, guitarras limpas, bateria e baixo perfeitamente casados e uma energia contagiante que se espalhou pelo público com facilidade. Era difícil encontrar um corpo parado diante daquele balanço. O som tinha leveza, mas não era descartável. Havia boa escrita pop, groove suficiente para prender a atenção e uma alegria de palco que ajudava a transformar a atuação num momento cativante. A descoberta funcionou pelo ritmo, pela competência e pela vontade de pôr o recinto a mexer.

Friko foram a melhor descoberta deste grupo, com vantagem clara. A banda norte-americana entrou talvez ainda como curiosidade para muitos e rapidamente mostrou outro tamanho. Bons músicos, canções fortes, guitarras carregadas e uma intensidade que fazia o concerto crescer de tema para tema. O indie rock dos Friko tem nervo, mas também tem ambição. Não se limita a repetir fórmulas de guitarra. Procura contraste, mudança, explosão e detalhe, sempre com a sensação de que a banda está a empurrar as músicas para um ponto mais alto.

Friko foram a melhor descoberta deste grupo, com vantagem clara.

Essa diferença sentiu-se sobretudo na forma como o grupo alternava energia e construção. As guitarras podiam soar exaltadas, quase a rasgar, mas a atuação nunca pareceu apenas barulho bem tocado. Havia dinâmica, transições trabalhadas e um sentido de drama que dava às canções uma escala maior do que o palco poderia sugerir. Friko tocaram como banda em crescimento rápido, mas já com matéria para lugares maiores. Entre todas as descobertas do Palco Coura Sem Paredes, foram a banda que mais deixou a impressão de futuro imediato.

Os terraplana chegaram de Curitiba, no Brasil, com o peso simbólico de uma estreia europeia e com um shoegaze de contornos reconhecíveis. Guitarras densas, vozes suaves, camadas de distorção e uma melancolia difusa aproximavam o som de nomes como Slowdive, The Jesus and Mary Chain ou My Bloody Valentine. A sonoridade estava lá, bem construída e coerente, e serviu como boa porta de entrada para um público mais jovem que talvez esteja agora a descobrir esse universo. Ainda assim, ficou a sensação de que a banda pode crescer mais, sobretudo na escrita. As letras e a identidade emocional ainda parecem pedir amadurecimento para tocarem o mesmo lugar que a textura sonora já procura.

Isso não impediu o concerto de funcionar como descoberta válida. Os terraplana têm bom som, entendem o vocabulário do shoegaze e sabem criar uma massa instrumental envolvente sem se perder completamente dentro dela. Faltou talvez um momento individual mais marcante, uma canção que puxasse o concerto para outro patamar ou uma frase que ficasse para além da névoa das guitarras. Mas a base é interessante, o caminho está aberto e a estreia em Coura mostrou uma banda com espaço para crescer. Num palco dedicado também a esse risco, fazia todo o sentido.

E houve ainda outro sinal importante. Mesmo quando não era possível ver tudo com a atenção necessária, os nomes do Palco Coura Sem Paredes continuavam a circular no dia seguinte, nas conversas do recinto, nas filas, junto ao rio e sobretudo entre quem vivia o festival a partir do campismo. Julia Mestre, Sophia Stel, Vendredi Sur Mer, Strawberry Guy, Getdown Services e University foram alguns desses nomes que apareciam de boca em boca, como pequenas pistas deixadas por quem tinha apanhado um momento que outros perderam. Esse passa-palavra também conta. Nem sempre uma descoberta se mede apenas pelo concerto visto do princípio ao fim. Às vezes mede-se pela forma como continua a aparecer nas conversas de quem ficou dentro do festival durante quatro dias.

No conjunto, estas descobertas confirmaram que o Palco Coura Sem Paredes não serviu apenas para preencher horários. Nem todos chegaram ao mesmo patamar, no entanto, todos ajudaram a cumprir uma das promessas mais bonitas do festival, a de entrar num concerto sem saber exatamente o que esperar e sair dali com alguma coisa nova a acompanhar o caminho de volta.