A música de Sérgio Godinho continua a apontar o dedo ao sistema sem perder a capacidade de abraçar quem a escuta.No Palco Vodafone, diante de um anfiteatro cheio e atravessado por várias gerações, esse equilíbrio entre confronto e afeto transformou o concerto num dos momentos mais intensos do Vodafone Paredes de Coura. Não consigo resumir a experiência de outra forma. Amei cada momento.
Aos 80 anos, Sérgio Godinho não subiu ao palco para receber uma homenagem passiva a uma carreira iniciada há mais de meio século. Foi o centro de um espetáculo vivo, musicalmente exigente e ainda profundamente ligado ao presente. As canções não surgiram como peças de museu, protegidas pelo prestígio acumulado. Voltaram a ganhar corpo, urgência e sentido nas vozes de muitos jovens que conheciam as letras e lhes respondiam como se tivessem sido escritas para aquele fim de tarde.
Os Assessores foram decisivos para que isso acontecesse. A banda esteve perto da perfeição, alternando o peso elétrico, os arranjos acústicos e os momentos mais contidos com uma segurança que impressiona. Cada mudança de ambiente parecia natural. Quando as canções pediam força, os músicos empurravam-nas para a frente sem as tornar excessivas. Quando basta uma voz, uma guitarra ou uma percussão discreta, sabiam recuar e deixar as palavras ocupar todo o espaço.

Essa inteligência musical acompanhou um repertório que atravessou épocas diferentes sem perder coerência. “Grão da Mesma Mó”, “Cuidado com as Imitações”, “Maré Alta” e “Dancemos no Mundo” ajudaram a mostrar a amplitude de uma escrita capaz de juntar observação social, ironia, inquietação e uma humanidade muito própria. Samuel Úria, Manuela Azevedo, Ana Lua Caiano e Capicua foram entrando numa celebração cuidadosamente construída, sem que o desfile de convidados retirasse unidade ao concerto.
Um dos momentos mais bonitos chegou com “Balada da Rita”, interpretada por Milhanas e A Garota Não. As duas vozes apropriaram-se da canção com sensibilidade, respeitando a sua história sem tentarem reproduzir o passado. A presença de A Garota Não estabeleceu ainda uma ligação perfeita com a abertura do palco no dia anterior. A palavra de intervenção que levara sozinha a Coura encontrava agora uma das suas raízes maiores na obra de Sérgio Godinho.


A política esteve sempre presente, não como discurso colocado artificialmente entre músicas, mas como matéria inseparável das próprias canções. “Democracia” trouxe aquela que foi a melhor frase ouvida durante todo o dia no festival: «A democracia é o pior de todos os sistemas, com exceção de todos os outros.» A formulação vem de longe, mas na voz de Sérgio Godinho recuperou a força de uma advertência dirigida ao nosso tempo. A democracia pode ser imperfeita, cansativa e contraditória. Continua, ainda assim, a exigir defesa perante tudo o que pretende substituí-la.
O concerto atingiu outro nível com “Os Vampiros”, de José Afonso, imediatamente antes de “Liberdade”. Todos os convidados regressaram ao palco e o anfiteatro inteiro pareceu juntar-se a eles. A palavra foi cantada em coletivo, recebida com aplausos vindos de todos os cantos do recinto e devolvida como uma afirmação comum. Não era apenas o público a acompanhar um refrão conhecido. Era uma multidão a reconhecer o peso daquela letra e a reclamar para si o que ela representa.
O concerto atingiu outro nível com “Os Vampiros”, de José Afonso, imediatamente antes de “Liberdade”. Todos os convidados regressaram ao palco e o anfiteatro inteiro pareceu juntar-se a eles. A palavra foi cantada em coletivo, recebida com aplausos vindos de todos os cantos do recinto e devolvida como uma afirmação comum. Não era apenas o público a acompanhar um refrão conhecido. Era uma multidão a reconhecer o peso daquela letra e a reclamar para si o que ela representa.
Num festival frequentado por pessoas de idades tão diferentes, o momento ganhou uma dimensão especial. Muitos dos que cantavam ainda não eram nascidos quando várias daquelas canções foram escritas. Mesmo assim, compreendiam-nas e respondiam-lhes. Essa continuidade talvez seja uma das maiores vitórias de Sérgio Godinho. A sua obra permanece porque não ficou presa às circunstâncias que a originaram. Mudam os governos, as crises e as formas de exercer o poder, mas a liberdade, a democracia e a justiça continuam a precisar de voz.

“O Primeiro Dia” encerrou o concerto num registo mais sereno, depois de toda a exaltação coletiva. A canção devolveu-nos à dimensão íntima de uma obra que nunca separou completamente o indivíduo da sociedade. Cada gesto pessoal contém uma escolha e cada começo transporta consigo a possibilidade de fazer diferente.
Sérgio Godinho deixou o Palco Vodafone depois de uma atuação musicalmente irrepreensível e politicamente necessária. Não viveu da reverência devida a um nome histórico, embora essa reverência fosse evidente. Preferiu mostrar por que motivo continua a merecê-la. Em Coura, as suas canções voltaram a apontar o dedo, a fazer perguntas e a recusar o silêncio. O público respondeu com o nome dele, com aplausos e, sobretudo, com uma palavra cantada por milhares de vozes… Liberdade.