Thundercat levou ao último dia do Vodafone Paredes de Coura um espetáculo onde o baixo foi protagonista absoluto. Entre jazz, funk, R&B e psicadelismo, Stephen Lee Bruner mostrou que o virtuosismo também pode ser dançável, divertido e acessível.
Thundercat entrou no último dia do Vodafone Paredes de Coura como um daqueles nomes que parecem deslocar imediatamente o centro de gravidade do palco. A música pode vir envolvida em jazz, funk, R&B, eletrónica e psicadelismo, mas tudo começa e acaba naquele baixo. Empunhando uma Ibanez de seis cordas, Stephen Lee Bruner mostrou em Coura que o instrumento não é apenas base rítmica, nem suporte harmónico, nem lugar discreto dentro da banda. Nas suas mãos, o baixo é melodia, impulso, arquitetura e espetáculo.
Não se trata apenas de virtuosismo, embora esteja lá em quantidades absurdas. Já vi, por exemplo, Victor Wooten ao vivo, outra divindade do instrumento, e isso ajuda a perceber o tamanho do que Thundercat faz. A comparação não serve para transformar a música numa competição de dedos, mas para sublinhar outra coisa. O concerto de Thundercat parece maior em quase tudo. Maior na forma como o baixo ocupa o espaço, maior na maneira como a voz suaviza a complexidade das composições, maior na capacidade de fazer música difícil sem a tornar hostil ao público.
O trio que o acompanha foi essencial para essa sensação. Teclados e bateria não estão ali para preencher espaços à volta do protagonista, mas para entrar no mesmo jogo de elasticidade rítmica, desvios súbitos e pequenas explosões controladas. A música de Thundercat vive desse equilíbrio entre precisão e liberdade. Num instante parece encaminhar-se para uma canção soul ou funk mais reconhecível, no seguinte abre uma curva inesperada, muda o chão rítmico e deixa o público a tentar perceber onde ficou o compasso anterior.
Empunhando uma Ibanez de seis cordas, Stephen Lee Bruner mostrou em Coura que o instrumento não é apenas base rítmica, nem suporte harmónico, nem lugar discreto dentro da banda. Nas suas mãos, o baixo é melodia, impulso, arquitetura e espetáculo.
Esse risco poderia afastar parte da plateia, sobretudo num festival em horário nobre. Aconteceu o contrário. Coura acompanhou a viagem com atenção e entusiasmo, aceitando que aquele concerto não se oferecia sempre de forma imediata. O prazer estava precisamente na dificuldade, na forma como o trio entrava e saía de zonas mais densas sem perder o sentido de groove. Mesmo quando a música parecia apontar para territórios mais técnicos, havia sempre qualquer coisa a puxar pelo corpo.
A voz de Thundercat teve um papel importante nesse equilíbrio. O falsete, leve e quase flutuante, contrastava com a agilidade vertiginosa do baixo e dava às músicas uma dimensão mais melódica. Essa combinação impede que o concerto se transforme apenas numa demonstração de domínio instrumental. Por baixo da técnica, havia canções. Por baixo das canções, havia uma pulsação dançável. E por baixo de tudo, claro, aquele baixo a ocupar o lugar de protagonista absoluto.
O concerto cresceu especialmente quando essa dimensão mais acessível apareceu sem abdicar da estranheza. “Funny Thing” trouxe um dos momentos mais reconhecíveis e contagiosos, com o público a entrar numa vibração mais direta. “Them Changes” fechou com a elegância melancólica e funky que continua a ser uma das melhores portas de entrada no universo de Thundercat. Foram canções suficientes para lembrar que a sofisticação não precisa de se esconder da festa.
Em Paredes de Coura, Thundercat confirmou que a música complicada só assusta quando é tocada sem prazer. Cada desvio parecia ter brilho, cada excesso parecia necessário e cada frase de baixo carregava uma espécie de sorriso técnico. Foi um concerto de músico extraordinário, sim, mas também de artista completo. O baixo comandou tudo, no entanto nunca esteve sozinho. À volta dele havia voz, banda, canções e uma multidão disposta a seguir uma viagem que, mesmo quando exigia mais atenção, devolvia sempre alguma forma de recompensa.