Os Underworld fecharam o segundo dia do Vodafone Paredes de Coura com um concerto construído para prolongar a noite, suspender o cansaço e transformar a repetição em movimento.
Underworld não deram uma atuação assente na surpresa, nem precisavam de o fazer. Karl Hyde e Rick Smith sabem exatamente que máquina têm em mãos e apresentaram-na no Palco Vodafone com a segurança de quem já atravessou várias gerações de público sem perder a capacidade de impor uma pulsação comum. Durante pouco mais de uma hora, a atuação funcionou como uma sequência contínua, mais interessada em acumular tensão do que em destacar canções de forma isolada. A música dos Underworld vive muito dessa insistência, motivos que regressam, batidas que se prolongam, vozes que entram quase como fragmentos rítmicos e uma construção eletrónica que prefere a expansão ao impacto imediato. Em Paredes de Coura, essa lógica encontrou um recinto disponível para ser conduzido sem grandes explicações.
O alinhamento passou por temas como “Pearl’s Girl”, “Dark & Long (Dark Train)”, “Kittens”, “Two Months Off”, “and the colour red”, “Arp12” e “Moaner”, cruzando diferentes fases da carreira sem transformar o concerto num exercício nostálgico. Havia memória, mas não havia museu. As músicas foram surgindo como partes de uma engrenagem maior, com transições pensadas para manter a pressão e evitar que a energia se dispersasse.

Visualmente, o espetáculo acompanhou essa ideia de funcionamento contínuo. O palco não precisava de grande aparato cénico para se impor. Bastaram luzes, fumo, projeções e a presença física de Karl Hyde, inquieto e disponível para puxar o concerto para a frente. Rick Smith permaneceu mais discreto, concentrado na construção sonora, sem que essa diferença de exposição quebrasse o equilíbrio da atuação. Os Underworld não funcionam, naturalmente, como uma banda tradicional, funcionam antes como um sistema montado para que o público deixasse progressivamente de ouvir a música como sucessão de temas e passasse a habitá-la como ambiente. Para quem entrou nessa frequência, o concerto foi um dos grandes momentos da noite. Mesmo visto com maior distância, era difícil negar a precisão com que tudo estava organizado.
O contexto mudou, o público mudou, mas a lógica essencial manteve-se intacta, assente na batida, na repetição, no corpo e na resposta.
A frase “From Romford to Paredes de Coura”, projetada no fundo do palco, resumiu bem a travessia. Uma linguagem nascida da cultura eletrónica britânica encontrou eco num anfiteatro natural do Alto Minho, décadas depois de ter ajudado a definir uma parte importante da música de dança dos anos 90. O contexto mudou, o público mudou, mas a lógica essencial manteve-se intacta, assente na batida, na repetição, no corpo e na resposta.
“Moaner” trouxe peso à reta final e preparou o terreno para o momento que a maioria esperava. Quando “Born Slippy .NUXX” apareceu, a reação foi imediata. Popularizada por “Trainspotting”, a canção atravessou décadas sem perder o efeito de reconhecimento instantâneo, e em Coura bastaram os primeiros sinais para o anfiteatro responder em coro.
Foi o ponto de maior comunhão da atuação. Karl Hyde dedicou a música ao público, o refrão espalhou-se pelo recinto e o famoso “lager, lager, lager” cumpriu o seu papel de senha coletiva, condensando numa sequência de minutos a euforia e a memória de uma noite que, de repente, pareceu pertencer a todos ao mesmo tempo.
No final, Hyde e Smith agradeceram longamente, abraçaram-se e receberam a resposta de uma plateia claramente satisfeita. Não houve reinvenção radical nem tentativa de provar algo novo. Houve antes a demonstração de competência, a de saber exatamente o que se é, aceitar essa identidade e executá-la com rigor.
Os Underworld deram em Paredes de Coura um concerto eficaz, físico e muito bem controlado. Talvez não tenha sido a atuação mais emocional do dia, nem a mais surpreendente, mas foi uma das mais funcionais. Fechou a noite no palco principal, segurou o recinto e confirmou que, nas mãos certas, a repetição não é falta de ideias, é método. E quando o método funciona, uma colina inteira acaba por responder ao mesmo pulso.
