©Hugo Lima

Vodafone Paredes de Coura 2026 | Wet Leg, o anfiteatro a levantar pó

13/08/2026

Review

Banda
10/10
Som
9/10
Ambiente
10/10
Overall
9.7/10

Depois de CMAT transformar o Palco Vodafone numa festa de humor, teatralidade e coração aberto, o primeiro dia do Vodafone Paredes de Coura ainda guardava uma descarga elétrica maior.

As Wet Leg chegaram já com a noite instalada e fizeram aquilo que as grandes bandas de festival fazem quando estão no ponto certo. Não pediram espaço, ocuparam-no. Sem grandes explicações, sem discursos a mais, sem precisar de convencer ninguém de que pertenciam ali.

O concerto teve logo no arranque uma força invulgar. “catch these fists”, “Oh No”, “Wet Dream”, “Supermarket” e “liquidize” formaram uma sequência inicial de impacto, daquelas que não dão tempo ao público para se ajeitar. Foi entrar e levantar terra. Literalmente! A certa altura, havia tanto pó no ar que se tornava difícil perceber onde acabava o fumo habitual de palco e onde começava a resposta física do anfiteatro. Coura tem destas coisas, quando o público entra mesmo num concerto, o chão também participa.

E as Wet Leg fizeram o chão participar. Já não são as mesmas de há uns anos. Ao núcleo de Rhian Teasdale e Hester Chambers juntam-se hoje mais três músicos, e essa diferença sente-se em palco. O som vinha cheio, seco quando precisava, elástico quando queria brincar, sempre com aquela capacidade muito britânica de transformar guitarras aparentemente simples em pequenos ataques de personalidade. Não havia ali peso gratuito nem pose de banda a tentar parecer mais dura do que é. Havia canções bem compostas, riffs certeiros, refrões que entram e uma energia que parecia crescer de música para música, ajudada por um corpo sonoro que só o formato alargado permite. O indie, quando tocado assim, deixa de parecer género, passa a ser corpo.

Rhian Teasdale foi o centro desse movimento. Não pela lógica óbvia da vocalista em frente à banda, mas porque tem uma presença que altera o ar à volta. Parece descontraída, quase divertida com o próprio caos, no entanto está sempre no comando. Canta, provoca, sorri, avança, recua e mantém o concerto numa tensão muito própria entre ironia e domínio. Basta vê-la em palco para perceber que há ali força, humor e controlo suficiente para puxar uma multidão inteira.

Hester Chambers joga noutro registo, menos expansivo, ainda assim essencial para a identidade da banda. A forma como trabalha os riffs vem daquela linhagem britânica em que as guitarras não precisam de ser complicadas para ficarem gravadas no corpo. Há ecos de Elastica e de uma certa escola noventista, mas sem a sensação de exercício de estilo. Dá às músicas uma coluna vertebral. Às vezes corta, às vezes arredonda, às vezes deixa a guitarra parecer quase insolente. E é nesse equilíbrio entre precisão e descaramento que boa parte do som das Wet Leg ganha forma.

davina mccall” e “pillow talk” prolongaram a sensação de crescimento visível de uma banda que hoje soa mais ampla, mais solta e mais capaz de ocupar o palco sem depender apenas do impacto imediato das canções mais conhecidas.

O mais interessante é que o concerto nunca se perdeu numa só expressão. Podia ser direto e físico, mas também sabia abrir pequenas zonas de estranheza. “Ur Mum” e “Too Late Now” trouxeram esse lado mais torto, onde o sarcasmo e a tensão emocional se cruzam sem que a banda precise de sublinhar nada. “davina mccall” e “pillow talk” prolongaram a sensação de crescimento visível de uma banda que hoje soa mais ampla, mais solta e mais capaz de ocupar o palco sem depender apenas do impacto imediato das canções mais conhecidas.

© Hugo Lima | instagram.com/hugolimaphoto | hugolima.com

“u and me at home” deixou entrar outra luz no concerto, uma leveza estranha, quase doméstica, antes de “Angelica” devolver aquele brilho enviesado que continua a ser uma das melhores armas das Wet Leg. A banda tem essa graça de parecer divertida sem ser menor. Há humor, sim, no entanto não há facilitismo. Há canções que brincam com desejo, embaraço, absurdo e pequenas derrotas pessoais, mas que ao vivo ganham músculo suficiente para não ficarem presas à piada. O riso vem com guitarra.

Quando “Chaise Longue” chegou, já não vinha salvar nada. Isso foi talvez o mais importante. Naturalmente, o público recebeu-a como se recebe uma senha coletiva, dessas que toda a gente reconhece antes mesmo de pensar. Mas a atuação já estava ganha antes. A canção apareceu integrada num concerto coeso, não como monumento isolado. Foi mais uma explosão dentro de uma noite que já vinha a arder.

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A reta final com “CPR” e “mangetout” levou tudo para o sítio certo. O final foi apoteótico, não por causa de um truque específico, mas porque a banda tinha construído o concerto com uma precisão quase física. Entraram fortes, mantiveram o ritmo, deixaram o som engrossar, puxaram pelo público e terminaram com o anfiteatro completamente dentro daquilo. O pó, as guitarras, os corpos, a noite e aquela sensação de que uma banda em crescimento pode, de repente, parecer muito maior do que o horário que ocupa.

Wet Leg foram uma das melhores atrações do primeiro dia de Paredes de Coura. Talvez a mais completa, pela forma como juntaram som, presença, repertório e resposta do público num concerto sem quebras. Não precisaram de contexto, nem de defesa, nem de nota de rodapé sobre o lugar que ocupam no indie britânico atual. Chegaram grandes. Tocaram grandes. Saíram maiores. Depois de o céu roubar o primeiro grande momento coletivo do dia e de CMAT devolver o festival à festa, as Wet Leg fizeram outra coisa. Puseram Coura a levantar pó!