Em jeito de aquecimento para o evento principal, o Warm Up Evil Live 2026 trouxe até à Sala Tejo três propostas distintas do panorama da música pesada: os nacionais Okkultist, os lendários Cavalera e os habitué Trivium.
Com a reformulação em 2026 do formato do festival Evil Live, que passou de três dias outdoors para um dia indoors, a Prime Artists foi à procura de oferecer ao público do festival outro evento que pudesse atenuar algum descontentamento que se gerou em torno não só do novo formato, mas também do cartaz apresentado. O resultado foi então a criação do Warm Up Evil Live 2026, um pré-evento que decorreu no dia anterior ao evento principal e que teve lugar na Sala Tejo, a sala adjunta à sala principal da MEO Arena onde vai decorrer o evento principal.
Para este warm up surgiram três sugestões: os Okkultist, um projeto nacional já com raízes bem vincadas e que tem vindo a crescer no panorama nacional e internacional, os Cavalera, um regresso há muito aguardado e que trouxe consigo a celebração do álbum clássico de Sepultura “Chaos A.D.” (1993) e os Trivium, uma banda muito acarinhada e que no seu périplo europeu tem sempre paragem assegurada em Portugal.
Quanto ao público, esse acabou por comparecer, não na sua máxima força, mas com vontade suficiente para combater o calor atmosférico com algum calor humano.
Okkultist
Recém chegados do Resurrection Fest, em Espanha, o maior feito, até à data, da sua carreira, os Okkultist apresentaram-se em Lisboa, na Sala Tejo, para fazer o que projetos como Toxikull e Seventh Storm já tinham feito – darem-se a conhecer para lá do circuito underground. Prejudicados pelo mau tratamento do som, um elemento transversal aos três concertos, os Okkultist tiveram o seu grande trunfo na bruxaria vocal de Beatriz Mariano. Face à última vez que vimos a banda, em 2022 a abrir para Jinjer no LAV-Lisboa Ao Vivo, notámos uma boa evolução na voz de Beatriz, estando agora com mais vigor e projeção nos seus fry screams. Em cima do palco reparámos ainda numa alteração na sua formação base, mas que não foi oficializada pela banda. No lugar do guitarrista Leander Sandmeier esteve Jorge Ferreira, um detalhe que em nada comprometeu a entrega da banda perante um público que estava ainda a entrar a conta-gotas. Entre temas como “Meet Me in Hell” ou “Sixpounder”, a cover dos Children of Bodom, a curiosidade esteve essencialmente na performance de “Teeth of the Hydra”, o mais recente single que conta com a colaboração de Fernando Ribeiro dos Moonspell. Apesar da reação morna, nos instantes finais a banda lá conseguiu incentivar às primeiras movimentações da noite, saindo do palco de sorriso rasgado e com o sentimento de missão cumprida.
Fotos (c) Inês Silva
Cavalera
Os Cavalera, ou Cavalera Conspiracy, são um dos casos mais interessantes de uma banda que se apresenta como um projeto familiar. Isto porque além dos lendários irmãos Max e Igor, no baixo está, desde 2022, Igor Amadeus Cavalera, um dos filhos de Max. Desta forma, apenas o lugar de guitarrista solo está entregue a um elemento externo ao clã, o norte-americano Travis Stone.
Criado inicialmente como um projeto de originais, rapidamente os irmãos perceberam que esta também seria uma banda para honrar o passado e todo o legado dos Sepultura, afinal de contas ainda existem muitos fãs que continuam a proferir que sem Max e sem Igor não há Sepultura. Recuando no tempo, as suas duas primeiras passagens por cá, em 2016 e 2019, foram precisamente nesse contexto de celebração, com a primeira a dedicar-se ao álbum “Roots” (1996) e a segunda aos álbuns “Beneath The Remains” (1989) e “Arise” (1991). Desta vez, o álbum homenageado foi “Chaos A.D.” que, naturalmente, foi tocado na íntegra. Porém, tal não aconteceu segundo as regras tradicionais. Em vez de ser tocado do princípio para o fim ou vice-versa, foi apresentado com uma ordem aparentemente aleatória.
Para muitos dos presentes, os irmãos Cavalera apresentavam-se como os verdadeiros cabeça de cartaz deste warm up. Aliás, tal tornou-se evidente quando de forma espontânea abriu-se uma enorme clareira aquando da entrada dos músicos em palco. Aí não havia como enganar, a descarga iria mesmo ter início com o groove explosivo de “Refuse/Resist”. Com as palavras de ordem bem articuladas em uníssono e a “porrada” no mosh pit a não dar tréguas, tudo virou um caos até ao final do concerto.
Mas, mais uma vez, o som deixou muito a desejar. As guitarras embrulhadas, assim como um excesso de distorção no microfone de Max deixavam muitas letras impercetíveis, assim como várias falas entre músicas. Já no que diz respeito à forma dos músicos, Igor pareceu-nos em melhor forma que Max. Apesar de aparentemente aparecer numa condição física mais saudável, após um processo de emagrecimento, Max parece apresentar-se agora em palco com alguma debilidade e já sem a chama de outros tempos. É certo que a idade e os anos de estrada já pesam e muito, mas a nós pareceu-nos algo contra-natura esta relação entre a sua nova aparência e a sua postura em palco.
No fim, ver os dois irmãos Cavalera abraçados no centro do palco certamente que foi um momento de bastante emoção para toda uma geração que cresceu com este álbum e com a formação clássica dos Sepultura.
Ainda assim, o profissionalismo e a experiência estiveram sempre lá de mãos dadas com temas como “Slave New World”, “Propaganda”, “Manifest” e “Clenched Fist” a passarem a sua mensagem repleta de uma relevância assustadoramente atual. Perante tamanha sessão de agressividade, foi fundamental arranjar momentos para algum repouso e hidratação. Felizmente, os irmãos Cavalera não deixaram de fora da setlist o instrumental acústico com contornos étnicos “Kaiowas”. Um momento que permitiu recuperar energias para uma segunda metade do set que trouxe “We Who Are Not as Others”, “Biotech Is Godzilla” e “Polícia”, a cover dos Titãs que os Sepultura lançaram como faixa bónus na edição norte-americana do álbum.
Por esta altura, as atenções já estavam canalizadas para “Territory”, um dos grandes hinos do repertório dos Sepultura. «Unknown man/Speaks to the world/Sucking in your trust/A trap in every word/War for territory/War for territory» são palavras que descrevem na perfeição a situação atual da Palestina e da Ucrânia. É impossível ficar indiferente quando ouvimos um coro de vozes a condenar através da música as atrocidades que assistimos diariamente na Europa de Leste e no Médio Oriente.
Numa breve passagem pelos primórdios dos Sepultura na forma de “Troops of Doom”, o encerramento deu-se com um cheirinho de “Chaos B.C.”. No fim, ver os dois irmãos Cavalera abraçados no centro do palco certamente que foi um momento de bastante emoção para toda uma geração que cresceu com este álbum e com a formação clássica dos Sepultura. Já sabemos que o futuro próximo vai ditar o fim dos Sepultura de Andreas Kisser. Mas, poderão os Sepultura continuar a existir sob a designação Cavalera? Tudo indica que sim.
Fotos (c) Inês Silva
Trivium
Os Trivium são uma das bandas de metal mais acarinhadas pelo público português. Com passagens recorrentes por cá desde 2012, a sua relação com o nosso país intensificou-se em 2019 quando colaboraram com Toy numa versão metal do tema “Coração Não Tem Idade”. Desde então, não há tour europeia deles que não passe por cá.
Quando existe um caso destes, de uma banda que frequenta o mesmo país regularmente, deve haver um cuidado redobrado na construção das setlists. É certo que há clássicos que não podem faltar, mas também há certos álbuns que não devem ser ignorados ou esquecidos a favor de outros. Em 2025, os Trivium passaram pelo Campo Pequeno com a sua tour de celebração do 20º aniversário de “Ascendancy” onde tocaram o álbum por completo. Desta forma, estranhámos com algum descontentamento a escolha de quatro temas deste álbum para integrar a setlist desta tour de verão, acabando assim por deixar de fora qualquer representação de álbuns menos rodados como “Ember To Inferno” (2003) e “The Crusade (2006), assim como outras passagens por “In Waves” (2011) sem ser apenas a sua faixa título.
No que diz respeito à produção em cima do palco e à performance dos músicos, os Trivium continuam a demonstrar que a sua relevância na cena está longe de ter os dias contados.
Deixamos a ressalva que esta opinião remete-se apenas e só à setlist. No que diz respeito à produção em cima do palco e à performance dos músicos, os Trivium continuam a demonstrar que a sua relevância na cena está longe de ter os dias contados. “Pull Harder on the Strings of Your Martyr” e “Strife” não pediram licença para os primeiros circle pits do concerto. Acompanhadas de um elemento extra, intensas labaredas, que por desespero dos presentes aqueciam ainda mais um ar que já registava temperaturas desérticas, foram recebidas por uma legião de fãs extremamente fiel.
Para o cabeça de cartaz o som melhorou ligeiramente, mas, ainda assim não se mostrou ao nível expectável. Os solos de Corey Beaulieu estiveram sempre escondidos, a voz de Matt mostrou-se com várias discrepâncias nas partas berradas e cantadas e os coros de Paolo nunca conseguiram furar em momentos chave como em “Until the World Goes Cold” e “In Waves”. Por sua vez, quem se mostrou em grande destaque e com um som muito equilibrado foi o novo baterista Alex Rüdinger. Com um currículo invejável o músico mostrou-se à vontade e muito confortável a tocar algumas das malhas mais exigentes dos Trivium como “The Sin and the Sentence”, “Throes of Perdition” e “Catastrophist”.
Desta vez, devido a outros compromissos profissionais, Toy não pôde comparecer no concerto para se juntar aos Trivium, não só em “Coração Não Tem Idade”, mas também em “Until the World Goes Cold” e “Dying in Your Arms”, temas que interpretou em 2019 na MEO Arena e em 2025 no Campo Pequeno respetivamente. Apesar do concerto ter decorrido numa sala fechada, este esteve inserido numa tour de festivais. Desta forma, Matt também se mostrou mais contido nas suas intervenções para com o público, não se aventurando em grandes discursos em português como tanto gosta de fazer quando os Trivium passam por cá.
Feitas as contas, foi um concerto extremamente competente, mas sem o fator surpresa que tanto desejávamos. Para um fã acérrimo de Trivium, certamente que foi mais uma experiência memorável. Para nós, que temos vindo a acompanhar os concertos da banda em Portugal de um ponto de vista mais distante e menos apaixonado, sentimos mesmo que, provavelmente, está na hora dos Trivium começarem a adotar a tão famosa tática de construção de setlists de uns Metallica, por exemplo.
Fotos (c) Inês Silva