O M.Ou.Co e a Casa Capitão receberam os Wavves em Portugal. A Arte Sonora esteve em ambos os concertos.
Há bandas que descobrimos no momento certo. Outras descobrimos tarde e, ainda assim, parecem ter estado sempre ali, à espera. Com os Wavves foi isso que me aconteceu. Um encontro tardio com um som que cheira a verão, mas soa a ansiedade. Que tem sol na superfície, mas inquietação por baixo.
Regressar ao subsolo do M.Ou.Co um ano depois de ter ali visto os The Pains of Being Pure at Heart foi quase simbólico. O espaço é o mesmo: íntimo, acústica generosa, proximidade física que elimina qualquer barreira entre palco e plateia. Mas a energia prometia outra temperatura. Se antes houve melancolia cintilante, agora havia expectativa elétrica. Menos contemplação. Mais urgência.
Turbulência Antes da Maré
Antes da onda principal, houve turbulência. A abertura ficou por conta dos Caustic, Babe!, banda de Coimbra que trouxe ao palco uma espécie de new wave nervosa, quase caótica, mas com estrutura. Bateria muito competente, pulsante, linhas que cantavam e eram casadas perfeitamente com o baixo bem groovado. Guitarras ruidosas num registo que piscava o olho ao universo dos Sonic Youth, enquanto uma teclista acrescentava camadas e intervenções vocais que enriqueciam o conjunto. Energia crua, mas controlada. Daquelas bandas que encaixariam sem esforço num festival de verão português.
A Onda Que Ainda Não Quebrou
Não houve grandes apresentações. Não houve discurso inicial. “Way Too Much” entrou como uma porta arrombada. E, de repente, já estávamos dentro da onda a surfar. Wavves nunca foi virtuosismo técnico, nunca foi precisão clínica. Wavves é nervo exposto, é transformar três acordes, distorção saturada e refrões pegajosos num delírio coletivo. Ao vivo, isso fica ainda mais evidente. Mas há uma diferença importante: o som impressionou pela organização. Todos os instrumentos audíveis, bem separados, claros, mas sem perder o impacto do conjunto. Um caos controlado, agora mais sólido.
“Idiot” e “King of the Beach” vieram como hinos de uma geração que cresceu entre blogs de música, Facebook e crises existenciais, embaladas por lo-fi solar. Há algo de curioso em ouvir essas canções hoje. 2009 já parece distante, quase arqueológico em termos digitais. E, no entanto, aquelas melodias continuam a funcionar. Talvez porque nunca foram apenas sobre uma época, mas sobre um estado de espírito.
Wavves nunca foi virtuosismo técnico, nunca foi precisão clínica. Wavves é nervo exposto, é transformar três acordes, distorção saturada e refrões pegajosos num delírio coletivo.
Entre o passado e o presente, o concerto também respirava o impacto de “Spun”, o mais recente álbum da banda. Produzido em parte por Travis Barker, lendário baterista dos Blink-182, o disco trouxe uma camada rítmica mais pulsante, mais direta. Isso sentiu-se especialmente em temas como “Goner”, “Spun”, talvez minha preferida, e a recente “Bozo”, gravada pelo próprio Travis. Há mais peso na base, mais consistência, mas sem perder o desleixo calculado que sempre definiu a identidade do grupo.
E aqui vale a pena destacar: Ross Traver, baterista que acompanha a banda ao vivo, é um verdadeiro motor. Seguro, intenso e preciso sem ser mecânico. O baixista Stephen Pope revelou ser peça fundamental, não apenas pelas linhas firmes, mas pela presença em palco e pelos vocais que reforçam a espinha dorsal das canções. O guitarrista Alex Gates é discreto, quase invisível em termos performativos, mas essencial na construção da parede de distorção que dá textura à experiência. E Nathan conduz tudo com naturalidade. Toca bem, canta com convicção e quase não precisa falar. Sem cerimónias, faz o que tem a fazer. Tocar e manter a energia em alta. A meio do concerto ainda tentou organizar um wall of death improvisado, momento espontâneo que trouxe uma descarga extra de adrenalina ao subsolo.
À medida que o concerto avançava, a onda crescia. “Post Acid” trouxe aquele equilíbrio perfeito entre melodia e ruído. “Demon to Lean On” foi cantada com intensidade pela plateia envolvida, como se cada verso ainda fosse pessoal. O público, uma mistura de trintões nostálgicos e curiosos mais novos, parecia saber exatamente quando saltar, quando gritar, quando apenas fechar os olhos e deixar o feedback envolver tudo.
E então veio o pico.
“Nine Is God”.
“No Shade”.
“Green Eyes”.
Aqui já não havia análise possível. Só impacto. A distorção deixou de ser som e passou a ser pressão física. O suor condensava-se no ar do subsolo. Cada refrão era devolvido à banda com a mesma força com que fora lançado. Não era perfeição. Era intensidade. E intensidade honesta raramente precisa de polimento.
O mais interessante é que, ao contrário de outras bandas da mesma década que hoje soam domesticadas pelo tempo, os Wavves ainda parecem confortáveis no desequilíbrio. Há pequenas imperfeições, micro-desalinhamentos, momentos em que tudo ameaça sair do trilho, mas é exatamente essa tensão que mantém o concerto vivo.
Quando a última nota ecoou e as luzes se acenderam, o M.Ou.Co parecia menor. Ou talvez fôssemos nós que tínhamos ficado maiores por dentro. A maré começava a recuar, mas a sensação permanecia.
Wavves não é maturidade impecável. É juventude persistente. É sobre essa fase da vida que nunca soube envelhecer direito e talvez nem precise. Durante aquela hora no Porto, a onda formou-se, cresceu e quebrou com força suficiente para lembrar que algumas emoções não passam. Apenas mudam de forma.
E, felizmente, continuam a rebentar.












































