Integrada na comitiva da WHY Portugal, a Arte Sonora esteve no Trans Musicales, festival que se tornou sinónimo de descoberta, para perceber como é que projectos como MAQUINA. e Fidju Kitxora continuam a expandir a sua presença internacional e a explorar novos mercados.
O Trans Musicales, em Rennes, França, é um festival que, desde 1979, se tornou um verdadeiro laboratório de descoberta musical. Conhecido por antecipar tendências e lançar carreiras internacionais, tem sido palco de artistas que mais tarde se tornariam referências globais, reunindo programadores, jornalistas e profissionais da indústria de todo o mundo. Mais do que espaço de concertos, é um ponto de encontro onde se experimenta música nova, se fazem contactos estratégicos e se observam as futuras direções da cena musical internacional.
Antes de se tornarem referências mundiais, Kurt Cobain e Krist Novoselic eram apenas uns putos de Seattle a fazer “barulho” nas garagens dos amigos. Em 1991, já com Dave Grohl na bateria, fizeram as malas e rumaram ao velho continente. Dois meses antes de atuarem no festival francês Trans Musicales, os Nirvana lançavam o lendário “Nevermind” e davam início a uma grande digressão europeia. O concerto em Rennes foi uma das primeiras datas do grupo de Seattle em França.
Em 1994, no ano em que editaram o seu álbum de estreia, os Portishead davam um dos primeiros concertos fora do Reino Unido, na abertura do Trans Musicales, e nessa mesma edição actuaram ainda os Massive Attack. No ano seguinte, os Daft Punk subiam ao palco do festival ainda sem os famosos capacetes e foi precisamente aí que foram descobertos pela editora Virgin, iniciando a meteórica ascensão de Guy-Manuel de Homem-Christo e Thomas Bangalter.
Outros nomes, como Sonic Youth, Lenny Kravitz, Ben Harper, Björk ou mais recentemente, Justice, Benjamin Clementine, também passaram por Rennes. Antes de se tornarem grandes nomes globais, todos pisaram este palco fora do seu circuito habitual, onde pudessem ser vistos por programadores, jornalistas e agentes. É exatamente neste contexto que projectos portugueses como MAQUINA. e Fidju Kitxora se apresentaram neste festival em 2025, a prova de que a música nacional procura abrir portas a novos mercados e a novos públicos. No fundo na mesma dinâmica que, anos antes, lançou bandas e artistas que são hoje referências musicais e mundiais.
É nesta senda que festivais como o Trans Musicales são tão importantes, e onde plataformas como a WHY Portugal desempenham um papel crucial: abrir portas, criar oportunidades e ajudar projetos musicais a navegar neste mundo.
É nesta senda que festivais como o Trans Musicales são tão importantes, e onde plataformas como a WHY Portugal desempenham um papel crucial: abrir portas, criar oportunidades e ajudar projetos musicais a navegar neste mundo.
A convite da WHY Portugal, a Arte Sonora integrou a comitiva portuguesa e voou até Rennes para perceber exatamente como funciona este processo de exportação da música nacional. Entre encontros com programadores, conversas informais com agentes e observação dos concertos – incluindo dos portugueses MAQUINA. e Fidju Kitxora – tornou-se evidente que levar a música portuguesa para o estrangeiro envolve muito mais do que tocar em palco: é um trabalho estratégico, que combina preparação, networking e promoção, onde cada passo é pensado para maximizar oportunidades e abrir as portas certas.
Mas afinal, como é que um projeto musical português pode chegar ao Trans Musicales?
Da preparação à presença: a estratégia da WHY Portugal no festival que revela talentos
A WHY Portugal é uma plataforma sem fins lucrativos que funciona como gabinete de exportação da música portuguesa. O seu papel é claro: apoiar a internacionalização de projetos nacionais. A sua presença em festivais como o Trans Musicales não se resume a acompanhar os concertos: envolve preparação estratégica, relações com programadores, agentes e jornalistas, e toda a logística necessária para que as bandas possam concentrar-se apenas e só na música.
Trata-se de uma estrutura financiada de forma sustentada pela Fundação GDA e pela Audiogest, duas entidades que representam os direitos dos artistas e dos produtores fonográficos. Para além deste financiamento contínuo, a WHY Portugal conta também com apoios pontuais através de concursos, como o da DGArtes. Uma máquina estruturada, pensada e implementada para dar cartas lá fora.
Como explica Guilherme Dourado, da WHY Portugal e que nos acompanhou no Les Trans: «Neste festival em particular, todo o trabalho prévio foi essencial para promover os dois concertos portugueses. Contratámos um serviço de PR francês que contribuiu muito para garantir entrevistas constantes e visibilidade nos media. Sendo o Trans Musicales um festival trend-setter, especialmente na altura do ano em que acontece, esta exposição faz realmente diferença.»
Reforçando ainda a importância da presença física da WHY Portugal: «Como participamos regularmente no festival, procuramos ajudar as bandas a perceberem como tirar o melhor partido do evento. Além disso, o simples facto de estarmos presentes tem um enorme valor – há sempre muitos profissionais da indústria, e apesar de não ser um festival de showcases com conferências formais, acontecem muitos encontros informais importantes. Falar, aprender, trocar ideias e manter relações é muito mais eficaz presencialmente do que por email ou videochamada.»
Acompanhar esta comitiva é compreender como se constrói a internacionalização: as reuniões improvisadas, as conversas nos corredores, as interações com agentes e programadores, os olhares atentos nas plateias. Há estratégia, mas também há instinto, e é nesse equilíbrio que se criam oportunidades reais.
Este ano, MAQUINA. e Fidju Kitxora foram os nomes nacionais seleccionados para marcar presença no festival francês. Dois projectos distintos, mas igualmente alinhados com o espírito exploratório do festival. Acompanhar esta comitiva é compreender como se constrói a internacionalização: as reuniões improvisadas, as conversas nos corredores, as interações com agentes e programadores, os olhares atentos nas plateias. Há estratégia, mas também há instinto, e é nesse equilíbrio que se criam oportunidades reais.
«O primeiro passo é ter estrutura: um manager e um agente são essenciais para montar uma estratégia de internacionalização a três anos. Depois, começar pelos showcases em Portugal — MIL, Westway, MATE — é um excelente passo. A seguir, Espanha costuma ser o caminho natural, pela proximidade e pelo interesse crescente dos programadores.» explica Guilherme, resumindo a forma como um projeto musical pode iniciar a sua internacionalização.

A experiência dos MAQUINA. & O que uma banda precisa de saber antes de dar o salto da internacionalização
Os MAQUINA. são um dos exemplos mais sólidos da nova vaga de bandas portuguesas a aproveitar festivais de networking e showcases para se internacionalizar. Já passaram por variados palcos em vários pontos da Europa e até pela Coreia do Sul no festival Zandari Festa. Aproveitámos esta vinda ao Trans Musicales para perceber melhor como tem sido este caminho, e que conselhos deixam a quem quer seguir rota semelhante.
Halison Peres, baterista e vocalista dos MAQUINA. não tem dúvidas: ir para um festival destes sem estrutura é meio caminho andado para correr mal. «O primeiro festival em que participámos foi o Monkey Week, e fomos só nós os três. Eu fui como representante da banda e percebi na hora que não tem como uma banda ir para um festival de networking sem ninguém a representar. O músico tem de se preocupar em tocar… e ao mesmo tempo estar nos speed meetings a falar com o pessoal. Esquece, impossível.»
A banda safou-se porque a espontaneidade jogou a seu favor. «A nossa sorte é que até consegui algumas coisinhas. Tocámos uma música de cinco minutos numa rádio – era chegar, montar, tocar e bazar. Como houve pessoal que viu, veio falar com a gente. Mas estavam sempre a perguntar: “Com quem posso falar? Quem é o vosso representante?”. E eu: “Sou eu! .» Halison ri, mas admite: a reação geral era de estranheza. Uma banda sem representante, a montar e desmontar material, e ao mesmo tentar marcar entrevistas e concertos… não funciona ou não é ideal. Por isso, quando surge a oportunidade de tocar no Eurosonic, a primeira decisão foi óbvia: arranjar representação a sério.
Neste arranque, a gig.ROCKS! foi fundamental. Uma conversa no Discord abriu portas e levou-os até Francisco Cabrita, da Pointlist, que viria a tornar-se essencial no processo. «Uma banda que vai tocar, principalmente num festival de networking, precisa de um representante. Contrata alguém que te represente bem, que tenha as mesmas ideias. Essa pessoa vai abrir mais portas e falar com quem realmente importa.»
A partir da Pointlist vieram datas em Espanha, por exemplo, e pouco depois, mais um contacto-chave: José Roberto, da Lovers & Lollypops e dos Cobra Fuma, apresentou-os ao Ricky da Swamp Booking – outro passo decisivo para os MAQUINA. para entrar na roda de festivais e salas internacionais.
Mas foi um concerto em particular que mudou tudo. «Abrimos para os A Place to Bury Strangers, no Musicbox. Uns meses depois, estou no trabalho e recebo mensagem do João Moda, da Pointlist: “Estás sentado?” Eu sentei-me. “Os A Place to Bury Strangers querem que sejam vocês abrir a tour.”» Halison lembra-se bem: foi a primeira grande porta internacional. E não foi só boa… foi gigante.
O primeiro contacto com a WHY Portugal deu-se no Eurosonic nos Países Baixos: «Sabíamos que era um festival importante, mas não tínhamos conhecimento nenhum das plataformas que podiam ajudar. Zero à esquerda, mesmo. Mas depois, com a ajuda da Pointlist, o pessoal começou-nos a orientar, a pôr em contacto e a explicar como funciona o apoio à volta disto», explica Halison. Foi aí que perceberam que existe um ecossistema que trabalha para facilitar a vida das bandas – do agenciamento ao acesso a programadores, passando pelo trabalho de PR. «Facilitou muito. Percebemos que há uma ajuda extra que facilita o trabalho da banda e permite entregar um concerto melhor.» É aqui que entra a leitura mais ampla do sector.
E os resultados chegam quando essa estrutura existe – mesmo que não seja imediatamente sob a forma de datas.
Guilherme Dourado reforça: «O erro mais frequente dos projectos musicais é irem sem estrutura: manager, road manager, técnico de som e de luz. O papel da banda é tocar e, quando necessário, dar entrevistas. Mas toda a logística, networking e organização não deve recair sobre os músicos. Talvez não seja o erro mais comum, mas é o mais importante a evitar.» E os resultados chegam quando essa estrutura existe – mesmo que não seja imediatamente sob a forma de datas. «Depois do Eurosonic, os Travo marcaram cerca de quatro festivais, e os MAQUINA. chegaram aos oito [entre eles o Linecheck em Itália e Dour Festival, na Bélgica]. No Monkey Week também houve vários concertos agendados posteriormente. Nem sempre os resultados são imediatamente concertos – por vezes garantir representação num determinado país também é um resultado. Um agente holandês, por exemplo, pode facilitar o acesso a vários concertos na Holanda, e isso aplica-se a muitos outros mercados.»
Fidju Kitxora & os desafios de quem está a dar os primeiros passos lá fora
Para o mentor do projecto Fidju Kitxora, a internacionalização é um processo onde a estrutura importa tanto quanto a criatividade. Quando perguntamos sobre o papel da WHY Portugal, a resposta é direta: há coisas que simplesmente não se consegue fazer sozinho. «Em termos de PR e especialmente em conexão com a nossa agência [Produtores Associados], dão um tipo de fluidez em contextos que, se não houver uma certa destreza e know-how de como circular, é muito difícil. Em festivais, como aqui no Trans Musicales, ou em showcases como o Eurosonic, é necessário ter sempre intermediários que tenham capacidade de ação – pivôs, digamos assim. Há movimentos e contactos que os músicos e até as agências não têm, e nem têm que ter.»
Para além da necessidade de ter uma estrutura e uma agência que saiba navegar nestes circuitos, como os MAQUINA. e Guilherme Dourado referiram, Fidju Kitxora aponta para outro lado do problema: as dificuldades práticas da circulação internacional. «É muito desafiante. Estamos a falar de uma circulação que implica despesas, implica retenções por causa de impostos. Mesmo tendo uma agência nacional, essa agência tem de trabalhar com outras, criar protocolos… e isso traz novas retenções.» As comissões tornam-se facilmente um bloqueio para um projeto emergente: «Especialmente para projetos como o nosso, que agora estão a começar lá fora. Pode ser um ponto de partida para contornar a falta de conhecimento que promotores e venues ainda têm sobre o projeto.»
Daí também o reforço na importância de ter uma agência sólida e de plataformas como a WHY Portugal: são elas que garantem a fluidez que falta aos artistas quando começam a circular fora do país, permitindo que se concentrem no que realmente lhes compete – fazer música e dar concertos – enquanto alguém trata do terreno onde essa música precisa de chegar.
É por isso que festivais como o Trans Musicales têm um valor tão determinante. Para além de definirem tendências, funcionam como um verdadeiro selo de confiança para quem programa salas e circuitos internacionais. No caso do Les Trans, a própria curadoria é uma garantia de qualidade, e a oportunidade de tocar ali deve ser aproveitada ao máximo. «Os promotores que vêm cá, ou mesmo os que nem chegam a vir mas acompanham a curadoria, sabem que houve uma escolha. Isso dá-nos confiança para arriscar.», explica Fidju Kitxora.
Mas esta circulação tem outras camadas: emocionais, sociais, até psicológicas. «Existe um ambiente muito bonito e frutuoso entre artistas. Mas quando queres conectar com outras camadas – promotores, agentes – já é muito difícil, porque não é a mesma gramática. Há outra ansiedade. Os artistas sentem-se muitas vezes inferiorizados. Há projectos incríveis que vêm cá só para fazer speed meetings sem sequer tocar, e isso pode ser muito ingrato.»
Para Fidju Kitxora, este é um dos grandes paradoxos da internacionalização: pede-se aos artistas que sejam artistas… e simultaneamente relações-públicas, estrategas, gestores. «O artista dedicou a vida inteira à música. E de repente tem de ser também comunicador, vendedor, negociador. É desafiante. Muito desafiante.» Daí também o reforço na importância de ter uma agência sólida e de plataformas como a WHY Portugal: são elas que garantem a fluidez que falta aos artistas quando começam a circular fora do país, permitindo que se concentrem no que realmente lhes compete – fazer música e dar concertos – enquanto alguém trata do terreno onde essa música precisa de chegar.

WHY Portugal e o futuro da internacionalização musical
Mais do que simplesmente acompanhar artistas, a WHY Portugal atua como uma ponte estratégica entre a música portuguesa e os mercados internacionais. No terreno, a equipa capacita, orienta e facilita contactos, permitindo que as bandas se concentrem na sua arte enquanto profissionais da indústria abrem portas, organizam encontros e criam oportunidades concretas. O objetivo é claro: tornar possível o que, de outra forma, seria difícil para uma banda fazer sozinha.
«Enquanto export office, não apoiamos diretamente bandas. O nosso trabalho é sobretudo de capacitação, informação e orientação. Indicamos oportunidades relevantes e promovemos programas como o apoio à circulação da GDA, os programas de mobilidade do Instituto Camões ou o Fundo Cultural da Audiogest», explica Guilherme Dourado, reforçando que não faz parte do trabalho da Why Portugal marcar concertos.
Olhando para 2026, a presença portuguesa em festivais internacionais continua a crescer. Estão já confirmadas participações no Eurosonic em janeiro com quatro bandas (Sunflowers, Ana de Llor, Fidju Kitxora e Them Flying Monkeys), no Babel XP em Marselha em março e no Westway em Lisboa em abril. No outono de 2026, a Why Portugal em parceria com a DGartes, tem já agendada a vinda a Lisboa de uma comitiva de programadores e promotores franceses, reforçando a aposta no mercado francês. Mais datas e presenças em outros festivais estão já ser definidas, continuando a aposta vencedora na estratégia de internacionalização de forma consistente e sustentada.
Com esta abordagem, a música portuguesa não chega apenas a novos mercados e públicos, mas fá-lo de forma organizada e estratégica, consolidando uma presença sólida e projetando-se para oportunidades futuras de forma consistente e duradoura.
